Estação das fadas

1612 Words
Gisella despertou por volta das dezenove e meia. Não sentia mais dor. Levantou-se e desceu sem se preocupar que só usava uma camisola branca e Hendrik certamente estava em casa. Achava improvável que ele a assediasse naquele estado. Com os longos cabelos ruivos, levemente bagunçados, a pele pálida e vestida daquela forma, ela parecia mesmo uma banshee. Irwan e Dinorah a encararam, preocupados. Dinorah sugeriu que ela tomasse um copo de leite e voltasse a se deitar, mas Gisella insistiu que precisava de um pouco de ar fresco. Dito isso, ela saiu para o jardim. — Gisella? Não deveria descansar? — Perguntou Evin. — As lembranças não me deixam descansar. — Falou Gisella. Evin ia dizer qualquer coisa quando percebeu um orbe dourado se aproximando. Gisella e ela encararam o orbe com curiosidade e observaram ele tomar a forma de uma pixie. — Bem-vindas a Estação Das Fadas! — Disse a pixie sorrindo e ao mover suas mãos fez com que no chão surgissem flores brilhantes de cristais em duas fileiras adjacentes. Acima das flores um castelo magnífico se ergueu magicamente. Junto ao castelo surgiram também as fadas e fados e convidaram Gisella e Evin a conhecerem-nos de perto. Elas aceitaram o convite.           Por dentro, o castelo lembrava um shopping e possuía lojas, livrarias, salas de aulas, banheiros e qualquer coisa que se imaginasse.           Havia um fado divertido que não se cansava de zoar os mangás e repetir que livros de verdade eram enormes e sem figuras. Gisella achou engraçado descobrir que fadas, para variar, não gostavam de mangás. Ela explorou outros locais naquele castelo, incluindo um salão onde fadas e fados dançavam ao som de uma música animada. Gisella se juntou a dança e não teve dificuldades em aprender os passos. Engraçado porque quando vivia entre os humanos, era uma péssima dançarina.           Após dançar, Gisella decidiu ir para uma das classes e pela primeira vez na vida, achou interessante aprender alguma coisa, ou a professora era bonita demais e ela só não conseguia deixar de encará-la. Depois de um tempo, Gisella percebeu que sangrava. Se assustou e deixou a classe imediatamente a procura de um banheiro. Ela estava tão nervosa que não conseguia pensar com clareza. Não deveria procurar um banheiro. Deveria buscar ajuda.           Enquanto procurava pelo banheiro, passou diversas vezes pelo corredor entre as classes. Seu sangramento se intensificou, manchando sua camisola. A última vez que Gisella passou pelos corredores, os alunos e se espantaram com a forma como ela sangrava. Gisella os ignorou e continuou procurando pelo banheiro até que o encontrou.           O banheiro era enorme, dividido em três conjuntos de, pelo menos, seis cabines cada. Havia um homem elegantemente vestido que vigiava a entrada do banheiro. Gisella não entendeu porque um banheiro precisava ser vigiado e não se importou, irrompendo no lugar. Pegou um rolo de papel higiênico e entrou em uma cabine. Infelizmente, nenhuma cabine oferecia a privacidade indispensável de um lugar como aquele.           Preocupado com Gisella que sangrava e parecia desorientada, o homem que na verdade, era um silfo, a seguiu. Sem graça por segui-la e sem saber como abordá-la, ele não conseguiu encará-la. Irritada, Gisella fechou a cabine com uma batida. Não havia sanitários nas cabines, pelo menos não nas do conjunto que Gisella escolhera, que eram usadas exclusivamente para trocas de roupas. Gisella não deu atenção aquele detalhe, tirou sua calcinha e se agachou, limpando-se com o papel. Sentiu algo estranho em sua i********e e quando imaginou o que poderia ser, estremeceu. — Ah, meu deus! O que é isso? — Ela disse. — Com licença, princesa? Está tudo bem? — Perguntou o silfo se aproximando da cabine. Gisella não respondeu, chorando, baixinho. Não estava no seu juízo perfeito naquele momento e o choque acelerou o processo de instabilidade mental, fazendo com que ela ficasse estática. — Nós partiremos em breve. — Avisou o silfo sem saber o que fazer e recuou. As cabines e o banheiro, bem como o resto do castelo desvaneceram aos poucos até sumirem e Gisella se viu agachada no gramado de seu jardim. Evin estava ao seu lado, desapontada porque as fadas desapareceram. Não viu quando Gisella se levantou e passou atrás dela, seguindo para a floresta.           Gisella parou em frente a um arbusto e cavou com as próprias mãos um buraco. Ängie observou a tudo, do alto de sua árvore, aborrecida. † † † Irwan e Dinorah levaram um susto quando Gisella veio toda suja de sangue e terra e se sentou ao lado deles, assistindo televisão. — Gisella? O que aconteceu? — Irwan perguntou. Gisella virou o rosto e encostou o dedo indicador nos lábios em um pedido de silêncio, então, apontou para a TV e riu, insana antes de voltar toda a atenção para o programa exibido.           Dinorah foi atrás de Evin e as duas discutiram. Dinorah voltou pouco depois e com algum custo, convenceu Gisella a tomar um banho e se trocar.           Na manhã seguinte, ninguém sabia dizer se Gisella estava lúcida ou não, mas era evidente a calma que ela expressava. Irwan apertou a sua mão, demonstrando seu apoio. — Foi melhor assim… — Gisella disse. — Eu não teria condições financeiras ou psicológicas de cuidar dessas crianças, também não poderia entregá-las ao Kadir porque ele seria um péssimo pai. Deus deve saber o que faz, não é? — Você vai avisar o Kadir? Acho que ele deveria saber. — Falou Evin. — Claro… — Falou Gisella. † † † Gisella foi até a casa de Valda no fim de semana e pediu que ela chamasse Kadir porque tinha algo importante para falar com ele. Gisella esperou no quintal por seu marido. Kadir não demorou a chegar e ficou parado encarando Gisella até que ela se virasse e se desse conta de sua presença. — Reconsiderou e decidiu nos dar uma chance pelo nosso filho? — Kadir perguntou, esperançoso. — Filhos… Kadir. Gêmeos. — Ela riu antes de chorar e virou o rosto. — Gêmeos? Mais um motivo para voltarmos. Não pode cuidar dessas crianças, sozinha. — Kadir disse se aproximando. — Essas crianças não existem mais. Eu as perdi em um aborto espontâneo. — Falou Gisella o encarando. — Não pode ser. — Kadir disse, aborrecido. — Não é sua culpa. Isso é um castigo divino pelo que fiz no passado. — Falou Gisella. — Não é o primeiro bebê que carrego em meu ventre que morre. Isso não pode ser coincidência. Eu abandonei minha filha no passado e por isso, Deus está me castigando dessa forma. — Você era muito jovem… Não é justo que se culpe dessa forma quando não conhece toda a história. — Falou Kadir. — Não deveria ter se matado por minha causa. — Disse Gisella o encarando. — Não poderia viver sem você. — Falou Kadir. — Mas eu odiava você… — Ela disse. — Odiava? — Falou Kadir. — Não odiava?! — Ela disse sem ter certeza. Kadir virou o rosto, pensativo. — Não importa. Não gostava de quem eu era quando estava com você. Não espere que eu mude de ideia. Quero o divórcio! — Gisella disse. — E você também não espere que eu mude de ideia… Não vou te dar o divórcio e ponto. — Falou Kadir com raiva. — Então, vou arrastar seu nome na lama. Vou dormir com geral e até com seu pai! Vamos ver se quando a sua galhada ficar enorme, você não me dá a d***a do divórcio! — Falou Gisella alterada. — Faça como quiser, o sangue de seus amantes estará em suas mãos. — Kadir disse. Gisella lembrou-se que ele era um assassino e teve certeza de que ele não estava brincando. — Só você pode ter amantes, não é? Por quê? Por que é homem? Direitos iguais, querido. — Gisella disse. — Oh! Então é isso? Está com ciúmes? Já disse que aquela garota não significou nada para mim. — Falou Kadir. — Dane-se! Você não me ama tanto assim, caso contrário, nunca teria me traído! — Gisella disse. — Será que não percebeu que eu estava assustada na nossa noite de núpcias? Não se perguntou o motivo? Eu tinha sido molestada por um bando de elfos sombrios. Não imagina como foi difícil para mim encarar você. Fiquei com medo que me machucasse. — Me diga os nomes deles e eu os farei pagar! — Kadir falou. — Acha que se eu soubesse, eles já não estariam mortos?! — Falou Gisella. — Eu sinto muito. — Kadir se aproximou dela e tocou seus ombros. Ele era maior que ela e isso a intimidava um pouco. Fora a forma como ele sempre a encarava. — Eu só queria que você me ajudasse a superar aquilo, que em vez de dormir com a primeira v*******a que encontrou, tivesse sido compreensivo comigo. d***a. Você deveria saber que tinha algo errado, justo você que supostamente me conhece tão bem… — Ela o empurrou. — Só que você sempre agiu assim comigo… Uma hora era só paixão e outra… Era mais fria que um bloco de gelo. Sempre zombou do meu amor. Me fazia rastejar como um cachorro aos seus pés para depois ter o prazer de me mandar para o inferno. — Kadir disse. — E então, você se casou comigo só para se vingar? É justo que eu pague por coisas que não me lembro? — Falou Gisella — Não me interprete errado… Não me casei com você porque busco a vingança. Eu te amo! — Kadir disse. — Não acredito em você! — Falou Gisella. — Devolva a minha liberdade para que eu tente reconquistar meu ex noivo? — NUNCA! — Kadir disse antes de ir embora.
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