O verdureiro

1774 Words
Gisella foi bem tratada por sua família. Sua mãe a mimava, preparando os seus pratos preferidos e quase todas as noites, Valda ia até o quarto de Gisella e lhe dava um beijo de boa-noite, sua irmã Júlia era sempre carinhosa e prestativa, e Vitória quando aparecia vez ou outra, gostava de cantar para alegrá-la. Joseph falava pouco, mas parecia simpático. No entanto, Gisella se dava melhor com Evandra. Gisella foi apresentada a outros membros da família como a sua prima Madison (filha de Tiffany) que, apesar de meio afobada, parecia ser mais legal que Mabel. Apesar de ser bem tratada, Gisella sentia que havia algo errado ali, que tudo era tão perfeito que parecia ensaiado. Achou uma boa ideia não se manter afastada dos elfos, pois, se aquele suposto paraíso fosse apenas uma miragem, ela poderia retornar a um lugar estável, que apesar de não ser perfeito, ao menos lhe era familiar. Ao regressar brevemente para Ártemis, Gisella soube que Mabel estava namorando com um elfo que costumava a assistir dançando no Wonderland, e também que Hendrik voltara a morar sozinho, e isso não era tudo… Damla estava grávida. Gisella ficou surpresa com a novidade, mas feliz por Damla. Quando Gisella perguntou a Mabel se ela estava feliz com seu namorado, a elfa respondeu que isso era o de menos, que ela faria o que esperavam que ela fizesse, namoraria, se casaria e teria filhos. Gisella lhe aconselhou a não cometer os mesmos erros que ela apenas por covardia, mas sentiu que seus conselhos não adiantaram muito. Mabel teria que sentir na própria pele para entender, ou, talvez, ela tivesse sorte e encontrasse o que Gisella não encontrara, amor e compreensão. Gisella quis perguntar como Hendrik estava, mas não encontrou coragem porque sabia que Mabel contaria a ele que ela perguntara a seu respeito e isso aborreceria o elfo. Para que chateá-lo com algo que não podia mais ser? Ao encostar a cabeça no travesseiro aquela noite, Gisella desejou sonhar com seu elfo preferido, o único na verdade. Então, adormeceu. Todas as noites, depois que Gisella dormia, Kadir aparecia no quarto dela, sentava-se no chão ao lado de sua cama e a observava, às vezes, com desejo, outras, com ódio, e outras, com tristeza. Dessa vez, ele chorava quando a ouviu o chamando. Gisela dormia aparentemente tranquila, mas só aparentemente, pois estava tendo um pesadelo… Em seu sonho, Gisella voltara a morar com os elfos, mas, dessa vez, estavam em Bellanandi e não em Ártemis. Acabaram de se mudar e Gisella ajudou Evin e Irwan a organizar as coisas, depois ela ficou algum tempo no jardim e quando escureceu, foi para dentro. Foi ao banheiro lavar as mãos para escrever em seu diário, mas Irwan estava usando o banheiro. Foi até a cozinha e encontrou Hendrik usando a pia. Os dois se encararam por um tempo e o elfo parecia revoltado. Gisella não se atreveu a perguntar o motivo. Abaixou a cabeça e foi para a sala onde encontrou Evin e Dinorah conversando. — Você lembra quando a Gisella era pequena? — Dinorah perguntou. — Deus me livre! Nem me lembre como essa menina já me deu problemas! — Disse Evin como se fosse a mãe humana de Gisella. Parecia que ela havia voltado no tempo em que Evin usava ilusões para fazê-la acreditar que tudo não passava de um sonho e que ela ainda estava com sua família em sua dimensão. Se ela confrontasse Evin agora, ela, certamente a confundiria ainda mais e Gisella gastaria energia tentando se manter consciente, por isso, a ignorou. Foi quando ouviu um canto que lhe era familiar. Quando criança, Gisella era brincalhona, gulosa e curiosa, uma verdadeira elfinha! Se havia três coisas que a faziam ir até a varanda correndo era a chegada de sua mãe, a passagem dos lixeiros (ela achava engraçado aqueles homens de uniforme que sempre vinham assobiando e cantando e que acenavam para ela quando a viam) e o verdureiro. Este último, falava de forma alta e melodiosa com sotaque forte: — Olha o verdureiro que vai passando em frente a sua casa… E assim ele anunciava seus produtos. Sempre naquele tom alegre que deixava a menina curiosa. Mas ao contrário do que acontecia com os lixeiros, ela nunca saía para olhar o verdureiro porque sua mãe dizia: “Não vai lá senão ele vai insistir para que compre algo e eu só compro verduras no mercado”.  Então, Gisella nunca saiu para ver o verdureiro e nunca conheceu seu rosto. Agora, ela estava curiosa. Como seria o verdureiro? Discretamente, Gisella foi até o jardim. Pegou uma cadeira e espiou por cima do muro. Viu um homem vestido de vermelho com um saco enorme nas mãos. Ele estava no escuro e m*l dava para vê-lo de onde estava do outro lado da rua, mas Gisella viu quando ele a encarou. Nervosa, se abaixou depressa e saiu dali, voltando para a sala. Alguém bateu no portão e Gisella congelou onde estava. Não sabia porque, mas o verdureiro lhe deixara assustada. Irwan, que já havia saído do banheiro foi até lá ver quem era e abriu o portão. — Por favor? Chame a Maria? Diga a ela que é o tio verdureiro. — Quem? Espere, senhor? Deve haver algum engano. Aqui não tem nenhuma Maria. — Falou Irwan. Evin se levantou e foi até a porta e de repente, se voltou a Gisella e disse-lhe: — Corre! Gisella olhou para o seu redor e não viu nenhuma saída, exceto a lavanderia. Correu e entrou na minúscula lavanderia que só cabia duas pessoas e se encolheu embaixo do tanque, amedrontada. Ouviu passos e viu quando a maçaneta girou e a porta se abriu. Um homem vestido como papai-noel, mas com as vestes sujas de sangue encarou a garota com um sorriso m*****o e disse-lhe: — É melhor você se cuidar. Gisella reconheceu aquele homem, era Elliot. Não conseguiu enfrentá-lo, pois, nunca sentiu tanto medo em sua vida. Desesperada, só conseguia gritar por alguém que ela tinha certeza que a salvaria: — Kadir? Por favor? Kadir? Ela não tinha para onde ir. Estava encurralada. Gisella despertou, sobressaltada. Ouviu a canção do verdureiro ecoando em sua cabeça e chorou. Kadir a despertara, mas ficou invisível para não assustá-la ainda mais. — Kadir? Onde está você? Por que não veio me salvar? — Ela disse, ainda impressionada com o pesadelo. Kadir sentiu vontade de se mostrar a ela e abraçá-la, mas quando estava prestes a se revelar, ela disse com ódio: — Você é igual a ele, um assassino. Kadir abaixou a cabeça e desapareceu voltando para seu quarto. — E eu também… — Gisella disse, se lembrando que ajudara Kadir a m***r o pai daquele menino que no passado ela detestara. — Mereço isso, mas e a minha família… Merecia ser tão cruelmente assassinada? Gisella não conseguiu dormir e só esperou amanhecer para se levantar. Ainda era muito cedo e ela viu Evandra com uma bandeja em mãos prestes a entrar em um quarto que geralmente ficava trancado. Ela se aproximou, tomando cuidado para não ser notada e quando Evandra abriu a porta, Gisella viu Kadir sentado em uma cama de solteiro, triste. Ele parecia doente. Lembrou-se que ele sofria com uma doença misteriosa… Será que ele já sofria com aquele m*l antes de morrer e estava condenado a reviver aquilo? Não importava. O fato era que o tempo todo Kadir estivera ali bem embaixo de seu nariz, perigosamente perto quando ela fora bem clara e só pedira uma única coisa a sua família… Que Kadir não pusesse os pés naquela casa. — Eu não acredito nisso! — Falou Gisella irrompendo no quarto. — Querida, posso explicar… — Disse Evandra, nervosa. — Explicar o quê? Que estão do lado dele? Minha própria família? — Gisella elevou a voz. — Por favor? Venha comigo? Vamos conversar em outro lugar? — Evandra disse colocando a bandeja em cima do criado-mudo e se aproximando de Gisella. — Não. Eu preciso falar com ele. Por favor? — Falou Gisella. Evandra encarou Kadir e após este assentir, ela saiu, encostando a porta. Gisella foi até onde Kadir estava e se ajoelhou na cama, se aproximando dele. Kadir, por um momento, imaginou que aquilo pudesse acabar de outra forma e aproximou seu rosto do dela para beijá-la, mas ela recuou e riu. — Ah! Por favor? Não seja ridículo! Não pense que vim aqui com o intuito de ter intercurso s****l com você! Kadir virou o rosto, chateado. Gisella se deu conta de que ele era maior que ela e muito mais forte, sem contar que era insano, por isso, achou melhor não provocá-lo. Se levantou da cama e recuou, dizendo: — Eu quero que me dê o divórcio! Não amo você e não vejo porque temos de ficar juntos! Não temos mais um filho nem nada que nos una. Vê se entende que isso é só loucura sua, que não vai dar em nada… Porque você não pode obrigar alguém a te amar. Ela esperou que ele dissesse qualquer coisa, mas ele permaneceu calado. Isso a revoltou. — Para mim já chega! Eu vou voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído! — Gisella abriu a porta e saiu correndo. Gisella saiu, indo para o jardim e encontrou os portões fechados. Tentou pular o muro, mas por ele ser muito alto, ela caiu, se machucando. Tentou voar, mas descobriu com desespero que seu poder começava a falhar e o máximo que ela conseguiu se manter alguns centímetros do chão foi menos de alguns segundos. — Não! Meu Deus! Não! Meus poderes? O que houve com meus poderes? — Ela disse encarando suas mãos, confusa. Kadir se aproximou de repente e Gisella se viu encurralada em um canto do muro enquanto aquele gigante se aproximava, intimidando-a sem o menor esforço. Kadir apoiou um braço na parede e aproximou seu rosto do dela, a encarando, triste. Para Gisella foi assustador porque ela não sabia o que esperar dele. Ele percebeu que ela estava com medo, mas não quis se afastar de imediato porque gostava de tê-la por perto. A forma como se sentia atraído até ela… Como se ela fosse um ímã a lhe puxar. Por que ela não sentia o mesmo? Ele sorriu ao se lembrar que Maria era orgulhosa e jamais admitiria que gostava dele. — Por favor? Não me machuque? — Ela disse. Ele aproximou sua mão da face dela, mas recuou quando ela se encolheu. Gisella voltou para o quarto correndo. Kadir se sentiu tentado a ir atrás dela como em um jogo excitante, mas se conteve.  
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