Gisella achou melhor não ir a Wonderland por um tempo a fim de evitar encontrar Kadir. Mesmo em casa, protegida pela magia das ninfas, ela não se sentia segura. Tinha a impressão que a qualquer momento, Kadir passaria por aquela porta e a levaria embora contra a sua vontade.
Se Hendrik, quando foi seu noivo, sentiu-se no direito de carregá-la para cima e para baixo conforme a sua vontade, imagine Kadir que era seu marido e pior, um psicopata? Mas que dedo podre para homens, Gisella tinha! Tentando se livrar de Hendrik, arranjara um problema ainda maior.
Passado alguns dias, Gisella quis voltar a Wonderland, mas nem Evin nem Damla permitiram, dizendo que era melhor ela continuar em casa. Gisella entendeu a preocupação por parte de Evin, mas não de Damla e achou que havia algo mais que elas não estavam lhe contando. Ainda assim, acatou a ordem das elfas e permaneceu em casa. Passou a receber telefonemas estranhos, alguém ligava, mas nunca dizia nada e logo desligava. Gisella desconfiou que fosse Kadir e decidiu confrontá-lo.
— Alô? Fale alguma coisa? Kadir? Eu sei que é você, seu desgraçado! Doente! — Ela disse com raiva. — O que você quer? Fala!
— Só queria ouvir sua voz. — Kadir disse.
— Por favor? Me deixa em paz ou eu vou até a polícia e conto que Karlla era sua amante. — Gisella disse.
— Faça isso e veremos quem tem mais a perder. — Kadir disse sem se alterar. — Eu vi o seu ex noivo… Hendrik, não é? Não seria lamentável se qualquer dia, ele sofresse um acidente enquanto voltasse do trabalho?
— Se fizer qualquer coisa contra o Hendrik, juro por Deus que mato você! — Falou Gisella com ódio.
Kadir não respondeu.
— Você me ouviu? Responde! — Falou Gisella.
Kadir permaneceu em silêncio.
— Já que não tem mais nada a falar, é melhor eu desligar. — Disse Gisella.
— Não. Por favor? — Disse Kadir.
Dessa vez foi Gisella quem ficou calada.
— Você está precisando de alguma coisa? — Kadir perguntou.
— Não se preocupe comigo! Se precisar de qualquer coisa, peço ao meu pai. — Falou Gisella.
— Sou seu marido e agora você é minha responsabilidade não de Willard. — Falou Kadir.
— De você, eu não quero nada, só que me deixe em paz e me dê o maldito divórcio! — Gisella desligou o telefone.
Kadir insistiu em ligar. Gisella tentou ignorar, mas se irritou e atendeu novamente o telefone.
— Você está tão bonita, essa noite. Azul é minha cor favorita! — Falou Kadir.
Gisella engoliu em seco e olhou para o vestido azul que estava usando. Se aproximou das janelas e tentou ver se Kadir a estava espiando. Não o viu. Checou as portas para ter certeza de que estavam bem fechadas.
— Onde você está? Apareça! Eu quero te ver! — Gisella m*l terminou de dizer essas palavras e ouviu uma batida na porta. Se virou, assustada, e gritou, deixando o telefone cair de sua mão.
Viu uma sombra se movendo pela fresta embaixo da porta e se aproximou devagar. Aproximou sua mão da maçaneta, mas antes que a tocasse, esta girou. Gisella recuou depressa.
— Vai embora! — Ela disse com medo e ouviu uma batida na janela. Levou um tempo até que ela criasse coragem, se aproximasse da janela e puxasse a cortina, e quando o fez, viu que Kadir deixara um recado no vidro, escrito com sangue.
“Eu te amo!”.
† † †
Contrariando as ordens de Evin e Damla, Gisella foi até Wonderland na noite seguinte. Não ficaria sozinha em casa de jeito algum.
— Pensei que não veria mais você aqui. — Disse Mabel se aproximando de Gisella, rindo e cambaleando, claramente bêbada. Sentou-se na mesa dela e apertou sua mão.
— Não queria ficar sozinha em casa depois do que houve. — Gisella disse.
— E o que houve? — Mabel inquiriu antes de tomar o copo de Gisella e tomar um gole de sua bebida.
— Meu marido está me perseguindo. — Gisella contou tudo a Mabel, mesmo duvidando que ela absorvesse tanta informação por causa do nível de álcool ingerido.
— Não conta para ninguém… Mas ouvi tia Evin e a mamãe conversando e… Parece que o seu marido está pagando a elas para você não pôr os pés aqui. — Disse Mabel.
— Eu não acredito nisso! Como a Evin pode fazer isso comigo? Me trair dessa forma? — Falou Gisella magoada antes de se levantar e ir atrás de Evin.
Encontrou Evin em uma sala privada, bebendo com Damla. Ambas riam alto de alguma coisa. Gisella irrompeu na sala e bateu a porta ao passar.
— Gisella? O que está fazendo aqui? — Perguntou Damla surpresa em vê-la ali.
— É verdade que o Kadir pagou para vocês não me deixarem vir aqui? — Gisella perguntou encarando Evin.
— Sim, querida. Ele estava preocupado que você subisse ao palco ou pior… Se vendesse por alguns trocados. — Evin disse.
— Já que o cara faz o pior julgamento possível de nós, eu achei uma boa ideia, extorquir ele. — Damla disse.
— Vocês não tinham o direito! Agora, ele vai pensar que pode me comprar. — Falou Gisella.
— Só se ele tiver muito dinheiro… — Damla disse.
— O quê? Inacreditável! — Disse Gisella inconformada e saiu, batendo a porta outra vez.
Evin foi atrás dela, mas a perdeu entre a multidão.
† † †
Gisella encheu a cara na companhia de Mabel e quando se sentiu suficientemente corajosa, foi até o camarim, vestiu algo combinando com a roupa burlesca de Mabel e as duas subiram no palco.
Evin e Damla perceberam que as pessoas estavam mais agitadas que o normal e foram até o salão ver a razão. Surpreenderam-se ao verem Gisella e Mabel dançando juntas de forma sensual.
— Eu sabia que ela levava jeito para a coisa. — Damla sorriu, maliciosa. — Só precisamos de outra garota… Uma ruiva, uma loira e uma morena dançando juntas. Imagine? Os homens iriam ao delírio.
Evin não disse nada e encarou Damla, incrédula.
Hendrik viu sua prima dançando com sua ex noiva e sentiu ciúmes. Se segurou para não subir no palco e tirá-las dali. Em vez disso, ele foi embora, chateado.
Gisella e Mabel se beijaram, levando os presentes a loucura. Felizmente, Hendrik já não estava ali ou teria sido demais para ele.
Uma dor de cabeça insuportável e uma série de vômitos foi o preço pela noitada que Gisella pagou.
— Aqui está a sua parte. — Disse Damla estendendo um malote de cem para Gisella quando ela saiu do banheiro.
— Não. Obrigada. Aquilo nunca mais se repetirá. Só me exibi daquela forma para me vingar do Kadir. — Falou Gisella.
— Você pode se vingar outras vezes e nos deixar ricas. — Falou Damla sorrindo.
Gisella não respondeu. Foi até seu quarto, pegou uma mala e colocou algumas peças de roupas e uns itens pessoais. Se trocou, prendeu os cabelos e desceu.
— Gisella? Aonde você vai com essa mala? — Perguntou Evin que preparava o almoço.
— Embora. — Respondeu Gisella. — Percebo que sou um peso nessa casa porque vocês têm de aceitar dinheiro de um estranho para me manter aqui.
— Ele não é estranho. É seu marido! — Falou Evin.
— Ah, está do lado dele, agora? — Disse Gisella.
— Não seja dramática! O cara é rico! Tem mais é que abrir a carteira mesmo. — Falou Damla.
— Nem todo mundo está à venda. — Gisella disse abaixando a cabeça, chateada.
— Tem razão. Sinto muito por isso. Achei que se aceitássemos o dinheiro dele, ele te deixaria em paz. — Falou Evin.
— Eu tenho medo que ele machuque o Hendrik. — Confessou Gisella.
— Por que acha que ele machucaria o Hendrik? — Perguntou Evin.
— Porque ele insinuou isso… Também matou sua amante, a tal Karlla. Kadir não é uma boa pessoa, mãe. Por isso, não posso continuar aqui e colocá-los em risco. — Falou Gisella.
— Mas para onde você vai? — Perguntou Evin, preocupada.
— Para casa da outra mãe. Se ela não me quiser lá, vou pra casa da minha irmã mais velha. — Falou Gisella.
Evin insistiu para que Gisella ficasse e disse que poderiam se mudar de casa, mas Gisella disse que era inútil, que, de qualquer forma, Kadir a encontraria. Então, seria melhor enfrentá-lo de uma vez.
— Eu volto para visitá-los. Prometo. — Falou Gisella.
† † †
Gisella foi bem recebida por Valda. Após se instalar no quarto que dividiria com Júlia, conversou com Valda. Disse que só ficaria ali até se divorciar de Kadir e enquanto ele insistisse em manter aquela farsa de casamento, seria o responsável por seus gastos.
— Podem falar com ele… — Gisella disse a Valda e Joseph que estavam na sala. — Kadir é tão generoso que tenho certeza que não se importará de me sustentar. — Gisella sorriu, cínica.
— Não se preocupe com isso, querida. Você está em sua casa, agora. Somos uma família. — Falou Valda sorrindo.
— Enquanto estiver aqui, espero não ver o Kadir, a menos que seja para tratar do divórcio. — Disse Gisella.
— Sim, claro. Com certeza. — Valda olhou para Kadir que estava parado no topo da escada e disfarçou.
Kadir recuou, cerrando os punhos com raiva.