Conhecendo os traidores

1846 Words
Sem condições para assistir as aulas, Gisella retornou ao castelo e se trancou em seu quarto. A visão que tivera sobre a filha a abalara muito. Como se chamava? Ela a havia perdoado? Sabia que estava de volta? Gisella precisava revê-la e abraçá-la, dizer que a amava e explicar porque a abandonara, implorar seu perdão, mas, então, sua ficha caiu. Como se apresentaria a sua filha com aquela aparência tão jovial? Deixaria a garota confusa. Talvez, se fosse até lá com Suoni, ela pudesse confirmar que Gisella não era maluca, afinal, Suoni, como sua gêmea, deveria conhecer todos os seus segredos… Mas onde estava Suoni? Será que encontrara a filha que fugira? Gisella não tinha nenhuma lembrança com Suoni e a conhecia pouco nessa vida atual, mas, ainda, assim, a amava profundamente porque era sua irmã e sentia a falta dela. Precisava tanto dela agora. Gisella se perguntou se seu pai sabia algo sobre a neta, se ela havia revelado o segredo que guardara por anos… Talvez, fosse complicado tocar naquele assunto. E quem seria o pai daquela menina? Talvez Risa, o professor de cálculos? Fazia algum sentido já que ele parecia ter uma mágoa dela. Kadir, certamente não era porque a menina não se parecia em nada com ele, menos ainda com Adrian. Já, com Risa…  Alguém bateu a porta do quarto de Gisella e ela enxugou suas lágrimas rapidamente e abriu a porta, deparando-se com Willard. — Está tudo, filha? Por que voltou mais cedo do colégio? Alguém te aborreceu lá? — Não, pai. Ninguém me aborreceu. É só que… Me lembrei de algo que me deixou triste. — Falou Gisella. — O que você lembrou? — Willard perguntou. — Por enquanto, prefiro não dizer nada. — Falou Gisella. — Trago uma notícia que com certeza, alegrará e muito o seu coração, minha filha… — Falou Willard. — Adrian trará a filha de vocês para conhecê-la, essa tarde. — Minha… Filha? — Gisella sorriu, emocionada.  Pelo menos poderia abraçar uma de suas filhas e isso era algo bom, embora fosse confuso, visto que, ao mesmo tempo, aquelas meninas eram e não eram suas filhas. Na verdade, eram filhas de Maria porque Gisella não tinha nada, sequer o homem parado a sua frente era de fato seu pai. Ele fora… Mas não era mais. Era certo se agarrar a uma vida que não lhe pertencia mais?                                                                               † † †     Camila era sem dúvida, a criança mais linda que Gisella já vira em sua vida… Com olhos azuis e cabelos marrons, ela tinha asas azuis semelhantes a asas de borboletas. Quando viu Gisella, a menininha saltou do colo do pai e veio voando em direção a ela, abraçando-a forte e chamando-a de “mamãe”. Adrian observou, emocionado a cena e Willard também. Gisella foi para o jardim com a fadinha e parecia impossível separá-las. Juntas, brincaram e riram muito. Foi difícil para Gisella ter de se despedir da menina, mas sabia que ela estava sendo bem cuidada pelo pai. Adrian prometeu que traria a menina até o castelo outras vezes e então partiu em uma carruagem puxada por kelpies. Após o jantar, Gisella escreveu uma carta para Gaion contando todas as novidades e quando a colocava na caixa de correio, lembrou-se de quando ainda estava na dimensão dos humanos e enviava cartas presas em balões para Theodred. Ele sempre recebia as cartas, embora, algumas vezes, a caligrafia ficasse borrada porque a carta tomava chuva no caminho ou caía em algum lago próximo. Uma pena que Theodred tenha se mostrado uma pessoa r**m porque Gisella gostara dele. Gisella suspirou, convencendo-se que seria melhor não pensar mais nele e foi para o quarto. Tivera emoções demais para um dia, por isso, preferira dormir mais cedo. Ela adormeceu rapidamente e teve outra lembrança de quando vivera como Maria.   Antes…  Dessa vez, Maria estava parada no longo e estreito corredor observando duas moças e um rapaz perseguirem um coelho grande e gordo. O coelho se aproximou da princesa e ela se agachou rapidamente e o pegou, passando a mão por seu pelo fofinho, encantada. — Ah, você o pegou? Que bom! Por favor? Me entregue ele? — Disse o rapaz se aproximando. Maria estava prestes a entregar o coelho ao rapaz, mas no último instante, a bola de pelos conseguiu fugir. O rapaz se zangou e Maria saiu correndo, sendo seguida pelo mesmo. Entrou em um salão onde, em breve, funcionaria uma loja que agora se encontrava em reforma. Subiu uma escada dourada e espiralada indo para o segundo andar da loja. Encontrou um espaço onde a bagunça imperava. Mobílias antigas e modernas se misturavam entre pilhas de malas. Maria ouviu a porta do salão se abrindo com um rangido e se escondeu atrás de algumas malas. O rapaz procurou por Maria e como não a viu em lugar algum, deixou o salão. Maria abandonou seu esconderijo e sem querer, derrubou um objeto fazendo barulho. Praguejou baixinho e desceu a escada correndo bem a tempo de impedir que o rapaz que voltara, abrisse a porta. Gisella empurrou uma estante na porta, bloqueando a passagem. O rapaz deu a volta e entrou no salão pelo buraco coberto de lona que seria a vitrine. Maria só percebeu tarde demais. Correu do rapaz dando várias voltas em torno da escada até conseguir se aproximar da vitrine por onde tentou passar duas vezes, mas foi detida pelo jovem que agarrou seu braço, puxando-a. Maria o empurrou e, por fim, conseguiu deixar o salão. As ruas eram estreitas, formadas de paralelepípedos. As construções eram formadas a partir de blocos enormes de pedras e havia muitos becos como em algumas cidadezinhas italianas, embora aquela cidade tivesse mais um ar parisiense. Era difícil compará-la com qualquer cidade humana. Ao lado da futura loja havia um restaurante que se destacava especialmente pelas luzes douradas que ostentava o que lhe conferia um ar francês. Maria estava com os cabelos presos em um coque, trajando um vestido elegante, estilo tomara-que-caia, em um tom rosa desbotado, longo. Seu grito de socorro atraiu a atenção de alguns homens que jantavam com suas famílias. O rapaz que a perseguia, finalmente a alcançou e se aproximou sorrindo, malicioso com ar de “te peguei”. Maria apontou para ele e mentiu para os homens que se aproximavam que aquele rapaz tentou abusar dela. Os homens cercaram o rapaz e encararam a princesa como se aguardassem ordens ou para ter certeza se a acusação era infundada ou real. Nervoso, o rapaz assumiu uma postura simpática e pediu que a princesa confessasse a verdade. Ela sorriu discretamente, divertindo-se com o desespero do rapaz insolente e fugiu, dobrando uma esquina. Deu de cara com um rapaz bonito que lhe sorriu e perguntou se ela precisava de ajuda. Mesmo sabendo que não deveria confiar em um estranho, a princesa pediu que o estranho a tirasse dali o quanto antes. Ele pegou a mão dela e os dois foram até uma esquina onde ele deixara sua moto. Subiram nela e ele acelerou, divertindo-se por estar naquela situação onde fugia com uma princesa. Só ele usou capacete, ao que parecia as leis de trânsito não eram tão severamente respeitadas como no plano dos humanos. A moto, após deixar as belas ruas e paisagens com ar parisiense, foi se afastando cada vez mais da cidade, percorrendo caminhos repletos de obstáculos, com pedras, relevos e lixo. — Por que você está fugindo? — Ele perguntou. Ela contou uma mentira qualquer, tropeçando em suas próprias palavras. Chateado, ele perguntou por que ela mentia para ele. Em um lugar onde os sentimentos eram tão transparentes, mentir era uma arte dominada por poucos, pois, todos, na maioria das vezes, sabiam quando alguém mentia ou era sincero; Maria vinha aperfeiçoando, já, há algum tempo essa “arte” e percebia que funcionava melhor quando fingia acreditar em sua própria mentira -. Maria meio que confessou a verdade, falando por meias palavras o real motivo de sua fuga, mas seu “salvador” não se convenceu, afinal, sabia que tinha mais coisas que ela preferia não compartilhar com ele. Um chalé onde Judas perdeu as botas foi o destino deles. Um homem estava sentado na frente do chalé em uma cadeira, descascando uma maçã. Logo que viu a princesa se voltou para a casa e falou com alguém de dentro da casa em um idioma que Maria não reconheceu. O homem se levantou e se aproximou de Maria, agarrou seu queixo com força e a encarou, inexpressivo antes de lhe dizer que ela poderia pedir a dona da casa para ficar ali. Maria se aproximou da porta de entrada e disse “com licença”. Viu uma loira conversando com o rapaz que a trouxera até ali. A loira tinha o cabelo preso em uma trança lateral e usava um vestido branco, longo, ao estilo tomara-que-caia, embora mais simples que o da princesa. Era jovem, aparentando não ter mais que 35 anos no máximo. Os dois saíram e a loira encarou a princesa antes de contar-lhe sua história em um idioma estranho, que levemente lembrava o inglês e o japonês, embora fosse mais complexo que os mesmos. Felizmente aquela era uma terra onde tudo se resolvia a base da magia e as palavras da loira eram traduzidas através de legendas cor-de-rosa que pairavam logo abaixo do b***o dela. A loira dissera que se chamava Sneja, que fugira de um homem mau, que seria o rei Willard e se casara com o homem que descascava a maçã, seu nome era Elliot. E em suas palavras, disse: “E depois vieram…” para apresentar as outras pessoas que saíam da casa conforme eram apresentadas – tudo parecia perfeitamente coreografado como em uma peça teatral -. Um casal de gêmeos siameses, cujos lábios e cabelos eram verdes, filhos de Sneja e Elliot; um segundo casal que era recém-casados, e o rapaz branco de cabelos curtos e negros que trouxera Maria até o chalé. Sneja anunciou, orgulhosa que os siameses se casariam e Maria ficou horrorizada uma vez que eles eram irmãos, no entanto, não se atreveu a expressar a sua opinião, achando que talvez o i*****o fosse permitido naquelas bandas. O rapaz que trouxera Maria era bom, ao contrário dos outros traidores que só queriam m***r o rei, mesmo estando do lado errado, Maria se apaixonaria posteriormente pelo rapaz, ou apenas o desejaria ardentemente já que era mimada e egoísta e desconhecia o verdadeiro amor. Quando Sneja insistiu em chamar Maria de princesa, esta negou que fosse uma, disse que a estavam confundindo, que isso acontecia muito, mas que seu nome era Chloe e não Maria. — Não precisa ter medo. Ninguém machucará você. Tem minha palavra. — Disse o rapaz se aproximando dela. — Não me toque! Não sei quem você é! Nem deveria estar aqui! — Falou Maria nervosa. — Não tenha medo? Por favor? Meu nome é Theodred. — Ele disse.   Atualmente…  Gisella despertou sobressaltada e com lágrimas nos olhos porque se lembrara de quando conhecera Theodred, o traidor que assassinara sua família.  
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