Evin piscou algumas vezes só para ter certeza de que não estava alucinando e que era mesmo Gisella quem estava ali parada em frente à porta ao lado de Irwan, Hendrik, Eldar e Mabel.
— Seu pai sabe que está aqui? — Evin perguntou.
Gisella deu de ombros antes de responder:
— Claro. Eu disse a ele que estava fora, que não queria ser princesa coisa nenhuma e que meu lugar é aqui.
— E… Foi só por isso que você voltou mesmo? — Irwan perguntou, sorrindo de forma insinuante enquanto olhava de soslaio para Hendrik.
— Está bem. — Gisella suspirou. — Eu vou contar para vocês.
Todos foram para a sala e se acomodaram nos sofás.
Gisella contou sobre Kadir, as visões que teve, e também sobre sua madrasta.
Hendrik já sabia que Gisella havia se casado porque Evin contou a ele, mas, ainda assim, não pode evitar se chatear ao ouvir dos lábios da própria Gisella que ela agora era uma mulher casada.
— Preciso me divorciar o quanto antes. — Gisella disse. — A pior besteira que fiz na minha vida foi me casar. Deus! Eu não sei onde estava com a cabeça! — Gisella sentiu alguém apertar a sua mão e se surpreendeu ao perceber que era Hendrik. Os dois se encararam por um tempo em silêncio.
— Então… Você tem duas filhas? Nossa! — Irwan disse cortando o clima.
— Pois é… Mas… Estive pensando e… Acho que cada vida é uma vida. Essas pessoas não são minha família, não mais. — Falou Gisella. — Para mim, minha única família é vocês.
— Não é só pela comida, não é? — Brincou Irwan fazendo todos rirem.
— Não. Eu amo vocês, até o rabugento do Hendrik, eu amo! — Falou Gisella.
— Ah, mas isso eu sempre soube! — Falou Hendrik convencido.
Alguns dias se passaram e Gisella se esqueceu das fadas, ou, pelo menos, pareceu que sim. Não voltou ao colégio temendo ser surpreendida por Kadir durante o caminho. Dedicou suas tardes a ajudar Evin no trabalho doméstico e brincar com Irwan e Eldar quando Irwan não estava estudando.
Gisella e Hendrik quase não se viam porque ele sempre voltava exausto do trabalho, tomava um banho, comia alguma coisa e ia dormir. Mas não era apenas o trabalho que o estava cansando.
Hendrik ingressou no exército para futuramente, quem sabe, se juntar a guarda élfica de Ljossalfheim. Gisella não gostava de ver Hendrik tão cansado. Ele nem implicava mais com ela, não que ela sentisse falta dessa parte… Não muito.
Quando em mais um fim de tarde, Hendrik foi para o quarto descansar, Gisella o seguiu. Hendrik riu malicioso, mas não disse nada, apenas se deitando e se cobrindo antes de perguntar o que ela queria. Gisella encostou a porta e se deitou ao lado dele, tocando seu rosto.
— Estou muito cansado, Gisella. — Ele disse fechando os olhos.
— Você não precisa fazer nada. — Ela o beijou. Hendrik a correspondeu e rolou, ficando por cima dela. Beijou seu pescoço enquanto deslizava suas mãos pelas pernas dela.
— O que sentiu em sua noite de núpcias? — Hendrik perguntou ao parar de repente e encará-la, chateado.
— Não tive noite de núpcias. — Falou Gisella. — Estava aterrorizada e meu marido agiu como um b****a, me traindo.
— Mas… E depois? — Hendrik perguntou ainda a encarando.
— Depois? Aconteceu apenas uma vez e não foi como eu esperava. Não senti nada. Nunca sinto. Você sabe. — Gisella disse.
Hendrik virou o rosto, pensativo.
— Nem com Theodred, eu sentia.
— Ouvi boatos por aí que ele…
— Eu o mandei por inferno! Nunca mais terá de se preocupar com ele. — Gisella disse.
— Nunca me preocupei com ele, mas com você, sim. — Hendrik beijou Gisella antes de sair de cima dela.
— Se te serve de consolo, eu sentia sim alguma coisa sempre que você me tocava. — Falou Gisella.
— Repulsa? — Ele riu amargo.
— Não. Paixão. — Ela disse. — Mas essa é uma sensação que não domino, por isso, me assusta.
— Você sabe que não estou te pedindo nada… — Ele disse.
— É… Mas você é um elfo… Elfos adoram s**o que eu sei! — Gisella disse.
— O s**o é um complemento do amor. — Falou Hendrik. — Lembra quando eu te assediava? Você sempre dizia que eu poderia ter seu corpo quando e como quisesse, mas se não tivesse o seu coração, na verdade não teria nada. Eu demorei a entender isso. Só quando você se entregou a mim inúmeras vezes e em seguida demonstrou uma grande tristeza. Logo, eu também ficava triste e compreendi o motivo… Faltava amor.
— Eu não sei se era bem isso o que faltava, Hendrik, porque eu amava o Theodred, mas nunca senti desejo por ele. — Falou Gisella.
— E pela Gaion? O que você sente? — Hendrik perguntou.
— Gaion e eu nunca… — Disse Gisella constrangida.
— Deveria tentar… Talvez seja esse o problema. — Hendrik disse antes de se virar para o outro lado e deixar algumas lágrimas escorrerem.
— Bons sonhos, Hendrik. — Gisella sussurrou no ouvido dele antes de deixar o quarto.
Exausto, Hendrik adormeceu.
Nos dias que se seguiram, Hendrik pareceu mais divertido e também mais maluco que o normal, vivia rindo de coisas bobas, falando enrolado, etc. Evin logo descobriu o motivo e compartilhou com Gisella e Damla.
— Ele está se drogando.
Hendrik não foi o primeiro na família a experimentar drogas. Antes dele, Irwan deixou de cuidar de Eldar, e se tornou rebelde, dando festas sempre que Evin e Hendrik não estavam por perto. Gisella sofreu na época por não conseguir ajudar Irwan e também porque ele não a tratava mais como uma irmã, fazendo questão de lembrá-la sempre que ela era só uma humana intrometida. Foram Hendrik e Mabel que uniram forças e o tiraram daquele caminho obscuro.
Gisella confirmava outra vez que aquela realidade não era assim tão diferente da qual ela viera, sendo mais como uma versão distorcida da mesma.
Pela primeira vez, Gisella se sentiu de mãos atadas. Não sabia o que opinar. A razão lhe dizia que o que Hendrik fazia estava errado e que ele precisava parar, mas a emoção… Seria hipocrisia de sua parte julgá-lo quando ela mesma já considerara se entorpecer para abafar a dor, se não o fizera, fora apenas porque seu medo de perder o controle fora maior.
— Fale com ele, Gisella? Ele ouvirá você. Tenho certeza. — Evin disse esperançosa.
Gisella ficou na varanda, esperando até que Hendrik retornasse. Novamente, ele saíra com uns “amigos” e voltaria tarde. Gisella se enrolou em um cobertor e esperou até que ele voltasse. Quando chegou, ele veio ao encontro dela, sorrindo e a abraçou e a beijou. Estava tão sereno que ela quase começava a gostar dele chapado, mas então, ele estragou o momento deslizando uma mão para debaixo da blusa dela.
— Hendrik? Precisamos conversar. — Gisella disse recuando devagar para não irritá-lo. Ele não lidava bem com rejeição, por isso, a precaução.
— Por que conversar? Ah, Gisella! Não podemos só nos beijar? — Hendrik sorriu malicioso.
— Isso também. — Gisella riu e pegou a mão dele.
— Tá bom, mas sem sermão. Aposto que a minha mãe apelou para você como último recurso. — Hendrik disse.
— Olha, você fica inteligente quando está doidão. — Ela brincou, o fazendo rir.
Os dois caminharam pelo bosque que à noite adquiria um tom lúgubre e quando se cansaram, sentaram-se no chão.
— Eu não vou mentir! Você está bem melhor agora! — Gisella disse pra descontrair.
— Não precisa me bajular tanto… Se você quer um pouco da minha e**a, é só pedir. Sabe que não n**o nada a você. — Ele a beijou.
— É… Eu sei, mas essa não é uma boa ideia. Já sou maluca sem isso, imagine com… — Gisella disse.
— Tem um jeito de você viajar e não perder o controle… — Disse Hendrik.
— Como? — Perguntou Gisella, curiosa.
Hendrik tocou a face de Gisella e doou a ela um pouco de sua energia. Como ele estava drogado, ela ficou também.
— Que legal! — Gisella disse vendo tudo de uma forma diferente enquanto sentia um êxtase preencher o seu corpo. Riu sem motivo aparente. — Então… Essa é a sensação?
— Sim, essa é a sensação. — Hendrik disse. — Vai me dar sermão agora?
— Não. — Gisella o beijou.
Os dois ficaram por um tempo entre beijos e carícias um tanto ousadas até ouvirem sons de asas, gritos e homens marchando. Hendrik saiu de cima de Gisella e fez sinal para que ela ficasse quieta. Alguém se aproximava. Os dois se levantaram e correram, escondendo-se atrás dos arbustos mais próximos de onde observaram militares marchando em fila.
— O que está acontecendo? — Gisella sussurrou.
— Os desertores… — Disse Hendrik. — Muitos reinos estão em guerra contra eles.
Hendrik e Gisella recuaram quando acharam que era seguro e voltavam para o chalé quando foram vistos por um desertor que estava afastado de seu grupo.
O desertor abriu suas asas negras e enormes e chamou a atenção deles dizendo: “Hey?”.
Hendrik agarrou o braço de Gisella e os dois correram em direção a um portal, sendo seguidos pelo desertor. Chegaram a uma parte de Annwn e correram pelas ruas movimentadas. Felizmente, era noite ali, pois à luz do dia, eles seriam facilmente visualizados. Entraram em um colégio e seguiram apressados pelos corredores. Subiram as escadas e entraram em uma sala e ocuparam dois lugares vagos, disfarçando. Alguns alunos não os reconheceram de sua turma, mas não disseram nada. Também acharam que podiam ser alunos novos.
Hendrik lembrou que Gisella seria facilmente identificada por sua cabeleira ruiva e, por isso, a tocou novamente, alterando a forma física dela, transformando-a em Mabel. Gisella ficou impressionada com tal habilidade, mas antes que pudesse perguntar a ele como ele conseguira fazer aquilo, viu o desertor se aproximando e disfarçou rápido.
Hendrik e Gisella enrolaram um pouco antes de saírem do colégio.
— Estamos em Annwn? — Ela perguntou.
— Eu sei, é h******l aqui! — Ele a tocou, fazendo com que ela retomasse sua antiga forma.
— Como fez isso? — Gisella perguntou, intrigada.
— É simples, basta visualizar. — Hendrik respondeu olhando para os lados para ter certeza de que era seguro seguir por qualquer caminho. — No começo, você tem de “segurar” a imagem, mas depois, com a prática, a forma permanece moldada até que você a altere novamente.
— Eu nunca havia me divertido assim, antes. — Gisella disse se aproximando dele e o beijando.
— Que bom que se divertiu, porque estou com medo daqueles anjos caídos até agora. — Hendrik disse.
— Eu entendo que tem sido difícil pra você lidar com tanta coisa, mas… Se drogar não é a solução. — Gisella disse.
— Eu sei… Só faço isso pra me aguentar de pé. Você vê como sempre volto cansado para casa? Não quero que me veja assim. — Ele disse.
— Existe cafeína… E feitiços. — Gisella disse.
— Por que você se importa? — Ele perguntou a encarando, desconfiado.
— Eu sempre me importei, você é que nunca percebeu. — Ela disse antes de beijá-lo novamente.
A conversa que Gisella teve com Hendrik, o fez refletir e deixar as drogas, passando a recorrer a feitiços para se cansar menos. Vez ou outra, ela também lhe doava energia para que pudessem desfrutar de alguns momentos juntos. Ela preferia não rotular nada, mas Hendrik já a chamava de namorada. Gisella só precisava reunir coragem para encarar seu marido e se divorciar e então, poderia pensar seriamente em pedir Hendrik em casamento – ela duvidava que ele se atrevesse a pedi-la novamente, por isso, caberia a ela, a iniciativa -.
Se ela tinha medo dele se vingar a abandonando no altar? Óbvio que sim, mas não o julgaria se lhe pagasse na mesma moeda. Até acharia justo. Tudo ia tão bem que, mesmo não indo além de beijos e abraços, Gisella dormia no quarto de Hendrik, abraçada a ele. Eles estavam felizes e nada nem ninguém poderia atrapalhá-los, exceto…
Dilek agarrou os cabelos de Gisella e a puxou da cama, afastando-a de Hendrik. Gisella despertou, assustada, e não reconheceu a figura encapuzada a sua frente, só soube que era uma mulher por causa de seus longos cabelos louros. Gisella gritou, mas Hendrik não despertou.
Dilek investiu contra ela, agredindo-a. Gisella levou algum tempo até reagir e se defender. Por mais que se esforçasse para vencer a djinn, ela se mostrava mais forte.
Gisella achou que talvez fosse um demônio e recitou uma prece católica ao arcanjo Miguel. A prece surtiu efeito, pois, a loira recuou, arfando e tapando os ouvidos. Gisella prosseguiu, pronunciando cada palavra com ênfase até que a loira se aproximou da janela, a abriu e fugiu. Gisella foi até a janela e a fechou, então recuou, trêmula.
Como os elfos tinham um sono profundo, não despertaram.
— Meu deus! Quem era ela? — Gisella perguntou-se assustada e naquela noite, ela não conseguiu fechar os olhos.