Tudo o que Gisella mais queria era que Adrian lhe contasse toda a história de Maria, mas tinha consciência que os dois não podiam se ausentar dos outros convidados por mais tempo ou teriam problemas. Adrian era casado agora e Gisella também – ainda que Gisella planejasse a anulação de sua união com Kadir –, então, eles deveriam evitar levantar boatos ou suspeitas maldosas, especialmente por causa do passado. Voltaram um após o outro e agiram normalmente. Foi um sacrifício para Gisella continuar sorrindo e fingindo que não se lembrava o tipo de pessoa com a qual estava casada. Só que o que ela achava que sabia de Kadir ainda era pouco perto de toda a verdade.
† † †
No intervalo entre as aulas, Gisella foi até o jardim do colégio e se sentou no gramado de frente para o convento. Folheou algumas revistas que Melynda lhe emprestou para distrair-se e ao mesmo tempo se atualizar sobre as novidades no reino feérico. Distraída, ela não percebeu quando um carro preto parou em frente ao convento e o vidro do motorista desceu lentamente.
Gisella estava sentada no topo de um morro gramado que alguns adolescentes adoravam saltar ou descer sentados em papelões. Tinha vários morros semelhantes espalhados ao longo dos jardins do colégio. Ninguém ia muito naquela parte, exceto Gisella. Os outros jovens preferiam se reunir no refeitório ou nos pátios, mas Gisella preferia a quietude da natureza. Também gostava de encarar o convento e imaginar o que sua filha fazia ali, caso ainda estivesse ali – sentia que estava, mas não se atrevia ir até lá perguntar -.
De repente, ela se sentiu observada. Tentou ignorar aquela sensação, mas foi mais forte que ela. Levantou a cabeça e confirmou que não estava sendo paranoica. Havia mesmo alguém observando ela. Kadir. Assustada, Gisella recolheu suas revistas e saiu correndo, indo imediatamente para o pátio e misturando-se aos outros alunos para se sentir segura.
Após as aulas, Gisella insistiu que Stephanie e Eulina a acompanhassem até sua casa porque estava com medo de voltar sozinha, mas não disse as garotas o verdadeiro motivo. Apenas que estava com um mau pressentimento. Mesmo achando que Gisella escondia alguma coisa, as garotas decidiram acompanhá-la até o castelo. Gisella as convidou a entrarem, mas elas pareciam apressadas. Prometeram aceitar o convite outro dia.
Gisella tomou um banho, se trocou e ficou no quarto. Estava preocupada desde que vira Kadir a vigiando. Será que fazia muito tempo que ele a vigiava? As palavras obsessivas dele ecoaram em sua cabeça, deixando-a nervosa: “você será minha”.
— Preciso me divorciar desse cara o quanto antes. Ele é doente sem dúvidas. — Pensou em voz alta antes de alguém bater a porta de seu quarto. — Sim? Pode entrar!
Uma criada disse a Gisella que Miranda a esperava no jardim para tomarem chá.
Gisella pediu a criada para avisar a sua madrasta que logo desceria. Então foi até o banheiro, jogou uma água no rosto, prendeu os cabelos em um r**o de cavalo, passou uma maquiagem leve, ela sabia que sua madrasta especialmente era uma amante da beleza e a criticaria se a visse despenteada e sem maquiagem alguma.
“Uma princesa deve estar sempre bela”, dizia Miranda. Como ela vinha sendo o único exemplo materno para Gisella, ela fazia de tudo para não desapontá-la.
Gisella fez uma reverência em sinal de respeito a rainha antes de se sentar para tomar chá com ela.
— Algum problema? Parece preocupada. — Disse Miranda após um tempo.
— Não é nada. — Falou Gisella.
— Ora, eu te conheço, Maria! Diga o que está te incomodando? Talvez, eu possa ajudá-la. — Disse Miranda.
Gisella contou sobre sua conversa com Adrian e também que flagrara Kadir a observando.
— Pois é… Kadir, desde sempre, teve essa coisa doentia por você. Acho que desde quando você era criança. — Falou Miranda escolhendo as palavras com cuidado e tomou um gole de seu chá.
— Ele me conhece há tanto tempo assim? — Gisella suspirou.
— Se aceita um conselho… Não acredite em nada do que ele diz. Ele é um lobo em pele de cordeiro. Suas lágrimas podem comover qualquer um, mas é a morte para quem acredita nelas. É como diz o ditado… “Poupe o lobo e sacrifique ovelha”. — Miranda disse.
— E a minha irmã? — Gisella perguntou.
— Suoni? — Miranda prosseguiu quando Gisella confirmou, balançando a cabeça. — Ela é pior que ele porque só existe exclusivamente para satisfazê-lo. Se ele a mandar saltar de um prédio, ela pergunta qual a altura.
— Como alguém se torna tão submissa assim? — Gisella disse, inconformada.
— Não sei, e espero nunca ter de descobrir. — Miranda deu de ombros e tocou na mão de Gisella. — Deixe eles para lá. Concentre-se em sua nova vida. Eu falarei com seu pai e ele tomará medidas para que Kadir nunca mais se aproxime de você.
No instante que Miranda tocou a mão de Gisella, ela se lembrou de uma coisa que a deixou atônita.
Antes…
Maria sofreu um acidente e estava no hospital. Miranda e Melynda vieram visitá-la, mas Maria não respondeu quando elas falaram com ela, permanecendo imóvel, presa em seus pensamentos sobre como aquilo acontecera e se culpando.
Acreditando que sua enteada estava em estado de choque e alheia ao que acontecia a sua volta, Miranda pegou Melynda – que na época tinha três ou quatro anos de idade – no colo e guiou a mão da inocente menina até a válvula, que controlava o oxigênio, diminuindo-o na tentativa de m***r a princesa.
Maria desviou o olhar quando percebeu o que acontecia e lágrimas rolaram por suas faces, mas ela não disse nada. Se sentia tão m*l que a morte seria como um alívio para ela, mas lhe espantava que sua madrasta tivesse coragem de matá-la e, pior, usasse Melynda para aquilo.
Miranda e Melynda deixaram o quarto e Maria continuou absorta. Felizmente uma enfermeira veio pouco depois ver como estava a paciente e ao perceber que haviam mexido no oxigênio, o ajeitou rapidamente. Maria permaneceu estática.
Atualmente…
Gisella afastou sua mão da de Miranda e se levantou apressada, encarando-a, espantada. Miranda perguntaria o que acontecera, mas com seu poder mental, soube que Gisella se lembrou.
— Por quê? — Gisella perguntou desapontada e não esperou por uma resposta, indo correndo para seu quarto.
Miranda virou o rosto, chateada.
† † †
Gisella pensou seriamente em contar a seu pai o que se lembrara, mas achou melhor não dizer nada por três motivos:
1-Melynda ficaria arrasada se soubesse o que a mãe fizera; 2-Willard também sofreria muito e; 3-Ela destruiria aquela família revelando tal segredo.
Que direito ela tinha? Se era ela o problema, era fácil de se resolver. Por isso, no jantar, quando Willard notou que Miranda e Gisella estavam estranhas e perguntou qual era o problema, Gisella disse:
— Eu vou embora, pai.
— Como? — Perguntou Willard surpreso.
— Essa é sua casa, Gisella. — Falou Miranda sem coragem para encará-la.
— O que aconteceu, irmã? Por que quer nos deixar? — Perguntou Melynda sem entender.
— Esse não é o meu lugar! Não me encaixo aqui! Não sou como vocês! — Falou Gisella sentindo como se sangrasse por cada palavra que dizia. — Sinto falta dos elfos.
Willard abaixou a cabeça, pensativo e aborrecido.
— Eu amo você, pai, mas… Não quero ser uma princesa. Não nasci para governar coisa nenhuma e nem faço questão. Tudo o que sempre quis é uma família. — Falou Gisella.
— Nós somos sua família! — Disse Melynda inconformada.
— São? — Falou Gisella chorando. — Eu não gosto de ser Maria. Odeio ela. Odeio.
— Não te chamaremos mais de Maria. — Disse Melynda também chorando.
— Mas sempre me verão como ela, por isso, não posso ficar! Sinto muito. — Gisella se levantou.
Willard e Melynda tentaram convencer Gisella a mudar de ideia, mas ela já havia tomado sua decisão.
† † †
Ártemis…
Hendrik estava parado em frente ao poço da moira com Irwan, Eldar e Mabel. Para os elfos era a Noite Dos Desejos, quando eles lançavam moedas em poços e pediam às ninfas ou as moiras qualquer coisa que seus corações desejassem.
— Jogue logo a bendita moeda e faça um desejo, Hendrik! — Falou Mabel, impaciente.
— Eu não acredito nessas bobagens… Isso é coisa de humanos. Não funciona. — Falou Hendrik.
— É claro que funciona! Experimente? — Insistiu Mabel.
— Então tá… Mas se o que eu desejar não sair desse poço, quero meu dinheiro de volta! — Falou Hendrik, rindo, e fez um desejo antes de lançar a moeda no poço.
— O que você pediu? — Mabel perguntou, curiosa.
— Não te interessa! Intrometida! — Falou Hendrik.
— E você ainda pergunta? — Irwan acotovelou Mabel, rindo.
— Calem a boca! Vocês nem imaginam o que eu pedi! — Falou Hendrik.
— Eu sei o que você pediu! — Disse Irwan.
— Esquece… Isso tudo é besteira. Vamos voltar para casa? — Falou Irwan se virando.
— Ah, meu deus! — Mabel recuou em um pulo.
— Hendrik? — Chamou Irwan.
Hendrik se virou ligeiro e viu Gisella saindo do poço.
— Eita… Vou jogar outra moeda e pedir para ficar rico! — Falou Hendrik.
— Oi? Sentiram a minha falta? — Disse Gisella.
— Gisella! — Eldar a abraçou, contente.
— Oi, elfinho! — Gisella girou com Eldar, o fazendo rir e então o colocou no chão antes de abraçar Irwan e Mabel.
Gisella se voltou a Hendrik e ele a encarava, inexpressivo. Gisella se aproximou dele e mesmo se sentindo intimidada pela beleza surreal do elfo, o abraçou forte e sussurrou em seu ouvido:
— Também senti sua falta.
Hendrik sorriu.
Gisella recuou e beijou a bochecha dele antes de se voltar aos outros e dizer-lhes:
— Estou cheia de fome! Comida de fada é h******l!
Irwan e Mabel riram, concordando com ela.