ONDE NASCE O SOMBRA

992 Words
Capítulo 2 Narrativa do Autor Lúcio não nasceu sombra. Foi o mundo que apagou a luz. Cresceu entre becos enlameados e janelas furadas da Maré, um dos morros mais temidos do Rio. Filho de Sandra, mulher dura como pedra e doce como mel abelhas, aprendeu cedo que sobreviver era mais importante do que sonhar. Dona Sandra era lenda viva. Lavava roupa pra fora, fazia quentinha na laje e ainda arrumava tempo pra bater de frente com polícia e bandido quando o assunto era proteger os dela. Mãe solo, viúva de um homem que nunca prestou, segurou a barra com dois filhos no colo e o mundo nas costas. — Nesse morro, ninguém vai pisar em vocês. — ela dizia, com um cigarro entre os dedos e o olhar queimando. Soraya era a irmã mais velha. Dois anos acima de Lúcio, linda, esperta, cheia de vida. Ela sonhava em sair dali, estudar, virar médica. Mas o morro engole sonhos como quem traga fumaça — devagar, e depois cospe em sangue. Foi Soraya quem ensinou Lúcio a escrever, a esconder o dinheiro da feira, a lavar os próprios cortes quando apanhava dos moleques da rua. Eles eram parceiros, cúmplices, dois pedaços da mesma alma. Até o dia em que ela foi tomada. Lúcio tinha quatorze. Soraya, dezesseis. Soraya Estava voltando do pré-vestibular comunitário quando sumiu. Dois dias depois, encontraram o corpo dela num matagal, marcada, jogada, usada. O laudo dizia estupro. O morro dizia vingança. Dona Sandra gritou como um bicho ferido. Depois se calou pra sempre. Nunca mais dançou. Nunca mais sorriu. Lúcio enterrou a infância ali. Na semana seguinte, apareceu na boca com o olho vermelho, sangue nos punhos e uma arma velha na cintura. Disse que ia resolver. Não pediu permissão. Não pediu ajuda. Só exigiu que saíssem da frente. E resolver… ele resolveu. Caçou os três filhos da p**a que fizeram aquilo. Dois ele matou. Um ele jogou vivo na favela rival com a língua cortada e a cara toda marcada com ferro quente. — Pra aprender a nunca mais abrir a boca pra falar o nome da minha irmã. Daí em diante, o morro aprendeu a temer o menino. Com 15, já era chamado de "Sombra" porque ninguém via quando ele vinha, mas todo mundo sentia quando ele passava. O medo calava a boca das vielas. O respeito vinha sem precisar levantar a voz. Foi nesse mesmo tempo que ele se aliou aos outros três que marcariam seu reinado: Urso, o parceiro de tudo. Forte, fiel, leal até o osso. Era o que mais pensava antes de agir, cabeça fria no meio da loucura. Mandrax, o segurança da alma. Braço direito, sorrisão fácil, mas dedo leve no gatilho. Tomava conta do perímetro, do estoque, da grana. Era o olho de Lúcio quando ele não estava. E Mamute, o mais temido. Gordo de músculo, braço que parecia poste de concreto. Comandava os soldados, botava ordem no bonde. Herdou o vulgo por causa do tamanho e da força — dizem que um tapa dele já derrubou três de uma vez só. Os quatro cresceram juntos. Viam no outro a dor que carregavam. Nenhum deles era bom. Mas também não nasceram ruins. Foram moldados. Aos 17, Lúcio tomou o controle. O antigo chefe foi vacilão com um fornecedor, e num domingo à noite, sumiu. Nunca mais foi visto. Dizem que virou alimento de peixe, mas ninguém ousa perguntar. Depois daquilo, o Sombra se firmou no trono da Maré. E ali, nada mais passou sem a autorização dele. Com o tempo, ficou cada vez mais frio com mulher. Usava, largava, ignorava. Nenhuma ficava. Nenhuma amolecia o peito. Dizia que amar era fraqueza. Que carinho é onde o inimigo enfia a faca. Se alguma tentava passar do ponto, era despachada com silêncio. — Meu coração tá enterrado junto com a minha irmã. Era a única frase que soltava. O tráfico se fortalecia. As alianças cresciam. O dinheiro subia. E Lúcio… endurecia. Já tinha mandado matar por desobediência. Já cortou água e luz da própria comunidade pra forçar um grupo a se dobrar. Já humilhou traidor em praça pública, fazendo o cara pedir perdão ajoelhado em dia de baile. Mas, por incrível que pareça, era justo. Tinha código. Quem morava na favela e não se metia, tinha respeito. Ele pagava gás pra idosa, dava ração pros cachorros, ajudava na reforma da escola e bancava cesta de Natal. Mas era claro: — Me traiu… não vive. E ninguém duvidava. Dona Sandra envelheceu amarga. Nunca quis casa boa. Nunca aceitou carro. Morava numa casa simples, com imagem de São Jorge e fotografia da Soraya no centro da sala. Era a única que podia gritar com ele. A única que ele respeitava sem levantar o tom. — Eu matei pra você ter paz — dizia ele. — Mas não devolveu minha filha. Essa resposta calava até a alma. Os anos passaram. Lúcio virou lenda. Sombra da Maré. Chefe da favela mais fechada do Rio. Implacável, temido, c***l. E ainda assim, sozinho. Ele podia ter qualquer mulher. Mas não tinha nenhuma. Porque no fundo, achava que todas queriam algo. Corpo, dinheiro, poder, status. Nenhuma queria só ele. E ele… não sabia mais nem quem era sem a sombra. Naquela noite, o rádio estalou. Uma convocação do Comando chegou seca e direta, sem detalhes. Reunião de emergência. Lúcio não hesitou. Vestiu a camisa preta, chamou o Urso, e em minutos o comboio já cruzava os becos da Maré, blindado, armado, com as motos abrindo passagem e os soldados atentos em cada esquina. No banco de trás, uma das piranhas que ele às vezes levava só pra fazer volume. Corpo bonito, riso fácil, pouca conversa. Era mais um acessório do que companhia. Ele não olhou pra ela nem uma vez. — Hoje o clima tá estranho… murmurou Urso no banco da frente. Sombra acendeu um cigarro, sem responder. O silêncio dele já dizia tudo. E a noite… ainda nem tinha começado.
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