A FILHA DA SELVA
Capítulo 1
Narrativa do Autor
A tribo Horrana era um pedaço escondido do mundo. Encravada entre rios caudalosos e uma mata densa onde o verde parecia eterno, ela vivia em equilíbrio com a natureza, guiada por espíritos, estrelas e raízes. Ali o tempo não corria — dançava.
As mulheres Horranas eram lendárias. Traziam na pele o tom da terra molhada, nos olhos o brilho das águas profundas, e nos cabelos negros o mistério da floresta. Tinham força nas mãos, doçura na fala e sabedoria herdada por gerações.
Selena era uma delas. Mais do que isso: era única.
Criada pelos avós desde pequena, após perder os pais para a grande peste que dizimou parte da aldeia, ela cresceu cercada de amor e ensinamentos. Caminhava descalça entre os índios, aprendendo a dançar, a colher, a respeitar. Era filha da mata e do vento, moldada pelo silêncio das árvores e pelas histórias sussurradas nas noites sem lua.
Naquela manhã, o clima na aldeia era de festa.
Estavam em plena preparação para o Ritual da Maioridade, uma cerimônia sagrada onde as jovens seriam apresentadas às tribos vizinhas. Era o momento em que as moças deixavam de ser vistas como meninas e passavam a ser reconhecidas como mulheres perante os ancestrais.
Selena seria uma das protagonistas do dia. Seu corpo já carregava as curvas da feminilidade, seus olhos chamavam atenção mesmo entre as outras jovens, e seu andar já denunciava a força de quem sabia de onde vinha.
As tendas estavam sendo decoradas com penas coloridas, flores nativas e cordões feitos de cipó e conchas. As anciãs preparavam os banhos de ervas, e as moças da aldeia ajudavam entre risos e ansiedade. Era tradição que, ao final do ritual, os representantes das tribos convidadas poderiam conhecer as jovens, dançar com elas e até selar promessas futuras.
Havia euforia. Sorrisos. Cabelos trançados. Olhos pintados com urucum.
E Selena, mesmo envolta em toda aquela beleza, sentia algo diferente no peito. Uma inquietação.
Faltavam três dias para Selena se tornar mulher aos olhos da tribo Horrana.
Ali, no coração da mata onde o tempo era contado por ciclos da lua e as leis vinham dos ancestrais, a maioridade não era medida por números do homem branco, mas sim pelo sangue, pelo espírito e pela força do ventre.
As índias completavam sua maioridade aos quinze. Os índios, aos dezesseis. Era quando deixavam de ser chamados de filhos da mata para se tornarem parte da linhagem adulta da tribo, prontos para alianças, caças, casamentos e guerras.
Selena estava prestes a ser apresentada.
Seria mostrada, como era tradição, durante o grande Ritual da Lua Cheia, uma festa sagrada que reunia os líderes, guerreiros e herdeiros das tribos vizinhas. A aldeia inteira se preparava com uma energia vibrante, como se o próprio chão da floresta pulsasse com entusiasmo.
As mulheres mais velhas, chamadas de Guardiãs da Terra, estavam responsáveis por preparar as virgens. As moças que iriam se apresentar no ritual eram levadas para uma tenda de folhas, cipós trançados e fumaça de ervas, onde só as mais velhas podiam entrar. Nenhum homem podia sequer olhar em direção à tenda — quem desrespeitasse, teria os olhos cobertos de urucum como sinal de desonra.
Lá dentro, os corpos eram ungidos com óleos sagrados, os cabelos trançados com flores vivas, e as peles pintadas com símbolos que contavam suas histórias: o nascimento, o sofrimento, a linhagem. Cada símbolo era escolhido com sabedoria. Cada detalhe importava.
Selena sentia as mãos da avó percorrerem sua pele com cuidado, enquanto entoava cantos suaves em idioma antigo. Estava cercada de outras jovens, todas belas, todas nervosas, mas nenhuma com os olhos tão cheios de silêncio quanto os dela.
— Hoje começamos tua preparação, filha do vento... — sussurrou a avó, apertando a trança em seu cabelo n***o que batia na b***a. — Faltam apenas três luas...
Selena fechou os olhos.
Era a mais linda da tribo.
Pele jambo reluzente, olhos puxados como flechas, boca carnuda, andar firme, e uma aura diferente — como se nas veias, em vez de sangue, corresse tempestade.
Nas últimas semanas, os mais velhos já murmuravam entre si sobre a visita dos filhos de chefes das tribos do sul, interessados em firmar alianças com os Horrana através das jovens mais valiosas.
Mas dentro de Selena, havia apenas desconforto.
Ela via os preparativos, os colares de sementes, os cantos, a festa tomando forma, e sentia o coração apertar. Não era medo. Era algo mais profundo. Como se algo estivesse fora do lugar. Como se as árvores estivessem tentando avisar, mas ninguém quisesse escutar.
Do lado de fora da tenda, a aldeia era só cor e movimento.
Homens subiam em árvores para pendurar bandeiras feitas de palha trançada. Crianças brincavam descalças, pintadas de carvão e pó dourado. Os guerreiros afiavam suas lanças enquanto a fumaça das fogueiras já anunciava o começo das oferendas.
E as anciãs... caminhavam entre tudo com sabedoria, organizando a cerimônia que ocorreria na terceira noite, quando a lua estivesse cheia e vermelha.
As mulheres virgens seriam conduzidas uma a uma até o centro da clareira, vestidas com túnicas translúcidas de algodão rústico e pintadas com as marcas de sua história.
Dançariam ao redor do fogo.
E ao final da noite, os filhos dos caciques poderiam escolher com quem iriam partilhar uma dança reservada, no interior da tenda Sagrada.
Para algumas, aquela dança poderia ser o início de um casamento entre tribos.
Selena, porém, não sonhava com nenhum deles.
Ela sonhava com liberdade.
Com lugares onde o céu era diferente, onde não houvesse promessas forçadas, nem alianças seladas sem vontade.
Queria amar por escolha. Queria decidir o próprio caminho.
E isso… era perigoso.
Enquanto as outras moças riam, encantadas com a chegada das tribos convidadas, Selena fitava a mata.
Os galhos não dançavam como sempre. Os pássaros não cantavam como antes.
Até o som dos tambores parecia abafado.
— Você está estranha, menina… — disse uma das anciãs, ao perceber o olhar distante.
— Não sei, Mãe Vani… — respondeu baixo. — Sinto um vazio no peito. Uma coisa r**m chegando.
A mulher apenas a fitou, séria.
Passou a mão enrugada sobre a testa de Selena e sussurrou:
— Quando o espírito alerta, é porque o chão vai tremer.
Selena não entendeu de imediato. Mas as palavras grudaram nela como tatuagem.
Naquela noite, sonhou com fumaça.
Com gritos.
Com correria e correntes.
Acordou de sobressalto, coberta de suor, mesmo com o vento frio batendo nas folhas.
Saiu da rede e caminhou até o lago, onde a lua se refletia com intensidade absurda.
Fechou os olhos e pediu, em pensamento, que os ancestrais estivessem apenas brincando com ela. Que tudo aquilo fosse só inquietação boba antes de um grande passo.
Mas a mata não brincava.
E os presságios também não.