A INVASÃO

947 Words
CAPÍTULO 3 Narrado pelo Autor A noite desceu pesada no Rio de Janeiro. No alto da Maré, onde os becos ganham vida e a lei é outra, a favela dormia sob a mira dos fuzis. Soldados postados em vigília, rádios chiando, olhos atentos. Era mais uma noite comum no crime, mas na laje mais alta do complexo, o clima era diferente. Os vapor comentava preocupados. Alguma coisa iria mudar. A convocação do Comando não tinha sido à toa. Sombra chegou com Urso, Mamute, Mandrax e os fiéis da base. Todos de preto,carros blindados, armados como reis da guerra. A mansão onde o chefão antigo morava já estava preparada: whisky, música baixa, luzes coloridas. E no centro da sala, sentado como um velho lobo cansado, estava o líder máximo da facção. Chamavam ele de Véio Veneno. — Tava na hora, né? — ele disse, com um cigarro entre os dedos. — Já vivi o que tinha que viver... Agora é com vocês. Sombra não disse nada. Apenas encarou o homem com respeito. A sala ficou muda. — Tu vai assumir a primeira cadeira, Lúcio. E tu, Urso, vai com ele como Sub. Tá decidido. Já conversei com os outros comandos. Quem for contra, vai cair. Um silêncio denso tomou conta do ambiente. Ninguém ousou contestar. O Véio era temido por todos — mas respeitava o Sombra, e o Sombra respeitava a rua. Depois do anúncio, a mansão virou um reduto de festas e orgia. Ia ser três dias de festa. Um baile privado, regado a droga, bebida e mulher. Só os brabos foram convidados. As piranhas já sabiam o que ia rolar: desfile de b***a, sexo sem freio, orgia na varanda, gemido nos corredores. Paredões batendo, as luzes girando, os corpos se misturando no ritmo sujo da noite. Sombra transou os três dias. Com quatro mulheres diferentes. Nem lembrava. Era carne, suor, riso e arranhão. Urso também mergulhou na orgia como se fosse os últimos dias da vida. A facção comemorava. O Comando tinha um novo nome no topo. E enquanto o morro festejava, a selva chorava. A milhares de quilômetros daquele caos urbano, no coração da mata onde o sinal não alcançava, o povo Horrana celebrava a noite mais importante do ano. Era a noite da Apresentação das Filhas. A tradição dizia que toda menina da tribo, ao completar quinze anos, deveria ser apresentada em ritual sagrado aos representantes das tribos vizinhas. Era assim que selavam alianças, casamentos, paz e trocas. Mas mais que política tribal, aquilo era uma noite de orgulho e ancestralidade. Selena sentou-se ao lado da avó, vestida com um traje branco de penas e miçangas douradas. Cabelos negros escorrendo até a altura da b***a, olhos atentos, mas o coração… em silêncio. Faltavam três horas para o seu ritual pessoal, quando completaria oficialmente a maior idade das índias Horrana. Seria honrada, dançaria, cantaria e teria o direito de escolha sobre com quem dividiria sua primeira união. Mas naquela noite, algo apertava no seu peito. Uma inquietação que ela não soube explicar. — Minha flor... disse a avó, com voz doce ...parece triste. — É só o vento, avó. Ele tá diferente hoje... Do outro lado da clareira, as tendas estavam armpadas. Velhas anciãs acabaram com a preparação das virgens com rituais de purificação. Com danças fogueiras, pinturas no corpo. As moças mais novas riam, ansiosas para conhecer os filhos dos chefes visitantes. Era uma mistura de euforia e vaidade. A floresta brilhava em festa. Mas Selena… se sentia deslocada. Disfarçou a inquietação e pediu licença. Precisava ir ao matinho. Chamou Luara, uma amiga da mesma idade, que a acompanhou até atrás das árvores, onde as folhas formavam um véu natural de privacidade. Elas conversavam baixinho, riam, se limparam com folhas de bananeira e água de rio. Mas quando voltavam, algo parou seus passos. — Ouviu isso? sussurrou Luara. Selena gelou. Barulhos de galhos quebrando. Vozes roucas, que não pertenciam a nenhuma tribo. — Fica abaixada — disse Selena, puxando Luara pela mão e se escondendo entre as raízes de uma árvore velha. Do esconderijo, viram silhuetas armadas avançando pela mata. Homens com lanternas, rifles, rádios estrangeiros. Estavam cercando a clareira. Era rápido, coordenado, brutal. O primeiro tiro ecoou como um trovão. Depois veio o grito. Outro. E outro. As duas meninas se abraçaram, com os olhos arregalados. Viram de longe o fogo das armas, as tochas sendo apagadas à força, e os guerreiros da tribo caindo um por um, tentando defender suas famílias com lanças e flechas. Mas não havia chance. Eles tinham espingardas automáticas, botas, coletes. E nenhum pingo de misericórdia. Os invasores começaram a arrastar as moças virgens da tenda. Jovens de 10, 12, 13, 14 anos. Gritavam, choravam, eram puxadas pelos cabelos, algumas levadas desacordadas. Selena mordeu o punho pra não gritar. — Meu pai... — soluçou Luara, ao ver o pai correndo com um facão e sendo metralhado sem chance. — Minha avó... disse Selena, ao ver a velha guerreira sendo empurrada com violência no meio da clareira, e depois baleada no peito sem hesitação. As anciãs foram assassinadas sem piedade. As mulheres mais velhas queimadas junto às barracas. As mães tentando proteger suas filhas com o corpo, tombando junto a elas. E as meninas... As meninas eram tratadas como mercadoria. — Eles vieram buscar nossas virgens... murmurou Selena, tremendo. — Eles vão matar todo mundo... — Shhh... Luara, respira. A gente vai fugir. A gente vai dar um jeito... Mas no fundo, nenhuma das duas acreditava. Estavam apavoradas demais. Continuaram ali, encolhidas, assistindo ao inferno se abrir bem no coração da floresta onde tudo sempre foi paz. E elas sabiam que, se fossem descobertas… o destino seria o mesmo.
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