ACORDANDO PARA NOVA VIDA

854 Words
CAPÍTULO 6 Narrativa do Autor O cheiro era estranho. Selena abriu os olhos devagar, com dificuldade, e se deparou com o teto branco, luz fria, ruídos metálicos. — Lua... — murmurou com a voz fraca. Olhou pro lado e viu a amiga dormindo na maca ao lado, com o corpo coberto por um lençol e o rosto marcado por hematomas leves. Selena tentou levantar, mas a dor na cabeça latejou. Um enfermeiro entrou, se surpreendendo ao vê-la acordada. — Ei! Tá acordada... calma, moça. Não tenta levantar. Você teve um acidente. Ela arregalou os olhos e puxou o lençol até o queixo. — Onde... onde estou? A voz dela soava diferente. Formal, pausada, com um sotaque estranho, tribal. — Tá segura, num posto médico da favela da Maré. Vocês foram socorridas depois de um atropelamento. — A... a outra, a minha irmã, ela vive? — Tá bem. Dormindo. Só arranhões. Selena relaxou um pouco, mas os olhos seguiam desconfiados. A lembrança da invasão ainda pulsava na mente. As cenas, os gritos, os corpos de suas anciãs, das crianças da tribo sendo arrastadas... Tudo ainda fresco. Tudo sangrando por dentro. — Eu preciso falar com alguém — ela sussurrou. Enquanto isso, a uns dois quilômetros dali, Sombra batia na porta de uma casa simples, numa vila antiga onde morava sua mãe, dona Sandra — mulher forte, braba, e respeitada por todo o morro. — Meu filho! — ela abriu a porta e já foi abraçando. — Que milagre é esse? — Preciso falar contigo, mãe. É sério. Entraram. Ela serviu café, como sempre fazia, e sentou no sofá com ele. — Aconteceu merda, Sombra? — Não... ou talvez sim. — Aconteceu uma coisa estranha essa madrugada. Eu... atropelei duas meninas na estrada. — Meu Deus! — Mas calma. Não foi culpa minha. Elas apareceram do nada, saindo da mata. — Descalças, vestidas como índia mesmo. Uma com faixa no corpo, outra de saia de cipó... Dona Sandra arregalou os olhos. — E você levou pra onde? — Pro postinho. Tão bem. Mas... elas são diferentes, mãe. — Acho não falam como a gente. Mas deve entender. — São de alguma tribo, certeza. Fugindo de alguma coisa. Sandra apertou os olhos, tentando entender. — E o que pretende fazer? — Levar elas pra mansão. — Eu pensei em você... — Em mim? — Sempre quis te tirar dessa casa. Agora tenho um motivo. — Vai comigo. E cuida delas. Me ajuda. A mulher sorriu com os olhos marejados. — Claro, meu filho. Se essas meninas tão perdidas, vão precisar de amor. E você... você precisa disso também. Mesmo que não admita. Ele só assentiu. Porque era verdade. No fundo, ele sabia que ali nascia algo fora do controle. De volta ao postinho. Luara também despertava. — Sel... onde estamos? — Não sei. O moço disse postinho, eu acho que é a tenda dos curandeiros desse povo. As duas se abraçaram. O medo ainda apertava no peito. — Fomos salvas? — Luara perguntou, com os olhos marejados. — Não sei se isso é salvação... mas estamos vivas. A porta se abriu. E ele entrou. Sombra. Grande, imponente, vestido com moletom preto, cordão grosso no pescoço e olhar pesado. As duas se encolheram instintivamente. Mas ele levantou as mãos como quem diz "calma". — Oi. Vocês entendem o que eu digo? Selena assentiu, ainda com o olhar firme, protetor sobre Luara. — Entendemos. — Vocês são de onde? — De um lugar que já não existe mais. Silêncio. Sombra respirou fundo. — Eu... sou o homem que atropelou vocês. Não foi de propósito. — Mas desde que vi vocês, sabia que tinha algo diferente. — Agora vocês tão seguras. E se quiserem, vão sair daqui comigo. Luara segurou a mão da amiga. Selena hesitou. — Pra onde? — Minha casa. Lá no alto. — Minha mãe vai estar lá. Ela vai cuidar de vocês. — E por que faria isso? Sombra deu de ombros. — Talvez porque no fundo... eu precise pedir desculpas à vocês. Estou me sentindo culpado por não esta atento a rodovia e por isso atropelei vocês. Selena olhou nos olhos dele. Ela viu a sombra da dor ali. Mas também viu firmeza. E pela primeira vez desde a invasão, sentiu algo parecido com... alívio. Quando chegaram à mansão no alto do morro, Luara e Selena ficaram deslumbradas. Era tudo tão diferente... O luxo. A vista. Os móveis. As luzes. — Bem-vindas, disse dona Sandra, abrindo os braços. Assim que as viu, o rosto dela se desmanchou em ternura. — Meu Deus... que coisas mais lindas. Selena abaixou os olhos, sem saber como reagir. Luara deu um passo pra trás, tímida. Mas Sandra se aproximou devagar, tocando os ombros das duas. — Aqui vocês tão protegidas. E enquanto eu tiver vida, ninguém encosta em vocês. Sombra assistia de longe. Sabia que a partir daquele dia, nada mais seria como antes. Talvez o destino tivesse cruzado caminhos de mundos que jamais deveriam se encontrar. Mas agora... eles estavam ligados. E em breve, tudo aquilo explodiria. PARTICIPE NO GRUPO DE WATSZAPP 21 99514-7003 adicionem em sua biblioteca.
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