SOMBRA ESTÁ CONFUSO

806 Words
CAPÍTULO 5 Narrado por Sombra Nunca vi p***a nenhuma igual na minha vida. Duas moleca aparecendo do nada no meio da estrada, no meio da madrugada, saindo da mata como bicho selvagem... e o mais louco? Tava escrito no rosto delas que não era maluquice, nem fuga de favela. Era outra coisa. Tava encostado ali na parede do postinho, cigarro aceso, enquanto o médico da Maré costurava o corte da menorzinha. A outra tava desacordada numa maca, e eu não parava de olhar pra rosto dela. — Que p***a será isso, Urso? — Sei lá, chefia. Já rodamos com p**a, louca, usuária... Mas essas aí... parecem saída de filme. — É. Uma tem cara de brava. — A outra é mais menina... mas também não tem nada de comum. — Tu viu a roupa delas? — Roupa? Nem tinha, pô. Só umas faixas, uns panos amarrado... — Exato. Como se tivessem vindo da selva. Dei mais uma tragada, encarando o corpo da mais velha. A da pele dourada, cabelo liso escuro batendo na b***a. Mesmo apagada, a rosto era forte. Linda, mas não era dessas belezas montadas de silicone e sobrancelha feita. Era crua. Natural. Selvagem. Jeito de quem já matou bicho com as mãos. — O que os médicos disseram? — Que a menor só teve escoriação. Tá dormindo por sedativo, mas acorda logo. — A maior levou uma pancada forte, mas é resistente. Ossos intactos, só corte na cabeça. Podia ter morrido. Mas não morreu. — Guerreiras. Fiquei calado por uns segundos, observando de longe os pontos na testa da maior. — Urso, o que tu acha? — Sobre? — Origem. — Chefia... eu chutaria coisa indígena. Mas diferente. Porque mesmo as mina dos povos do Xingu, por exemplo, têm outro biotipo. — Essas aí... é tipo uma linhagem própria. Saca? Como se tivessem vivido escondidas. — Tu viu as marcas nos braços? — Vi. Cicatrizes pequenas, tatuagens tribais, cortes curados que pareciam parte de algum ritual. Nada disso existia mais no mundo moderno. — Pode ser que estavam sendo mantidas em cativeiro? perguntei. — Vai saber. Mas não tinham cara de refém. — Tavam fugindo, isso tava claro. E quando o carro pegou elas, não gritaram. — Não estavam correndo do carro. — Tavam correndo de alguma coisa atrás. O silêncio bateu pesado por um tempo. — Vê se acha alguma roupa pra cobrir essas menina, p***a. Já basta o que passaram. — Isso aqui é favela, não é mata. Se n**o olhar torto, arranco o olho. Urso assentiu e saiu. Fiquei ali parado, só observando. A menorzinha, mesmo dormindo, tinha o semblante tenso. As duas eram bonitas. De um jeito estranho. A menor parecia ter uns 14, 15 anos... A mais velha talvez 16. Mas não dava pra cravar. Essas selvagens não tinham idade mostrando no rosto. Tinham história. Encostei na maca da maior. O nome dela, eu nem sabia. Mas aquela cara ia me assombrar por dias. — Que mundo você saiu, hein? — murmurei. — E por que veio parar no meu? Tinha alguma coisa nela que incomodava. A beleza, sim, era gritante. Mas era mais que isso. Era o jeito como mesmo desacordada, o corpo dela tava em posição de defesa. A mão direita fechada em punho. A perna levemente dobrada. Como se pronta pra lutar mesmo em coma. A p*****a que tinha ido comigo pra reunião apareceu, tentando encostar. — Que foi, Sombra? Tá com pena das indiazinha agora? — Some da minha frente. — Fala sério... elas nem são daqui... e tu nem sabe da história de vida delas. — Tô mandando sair. Ela entendeu e vazou. Não era hora pra futilidade. Ali o bagulho era outro. Urso voltou com um lençol e cobriu as duas. — Se elas acordarem, vão se assustar. disse ele. — A gente não fala a língua delas. E elas, provavelmente, não falam a nossa. — Vai dar um jeito. Tradutor, professor de faculdade, sei lá. — Tu vai manter elas aqui? — Ainda não sei. — Primeiro quero ouvir o que elas têm pra dizer. Urso se encostou ao meu lado, cruzou os braços. — Nunca vi tu assim, não. — Assim como? — Curioso. Tu sempre cagou pra mulher desconhecida. — Isso aqui não é mulher qualquer. — Isso aqui é mistério. E eu gosto de saber o que entra no meu território. — Vai fazer o quê com elas? — Se forem inocentes, eu protejo. — Se forem perigo... tu já sabe. Ele assentiu em silêncio. Me afastei um pouco e encostei na parede. A noite ainda não tinha acabado, e o céu da favela tava carregado. Mas lá dentro, naquela salinha gelada, alguma coisa tinha mudado. O que quer que aquelas meninas fossem, elas estavam marcadas. E agora... estavam no meu mundo. E meu mundo não perdoa ninguém.
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