CAPÍTULO 5
Narrado por Sombra
Nunca vi p***a nenhuma igual na minha vida.
Duas moleca aparecendo do nada no meio da estrada, no meio da madrugada, saindo da mata como bicho selvagem... e o mais louco?
Tava escrito no rosto delas que não era maluquice, nem fuga de favela. Era outra coisa.
Tava encostado ali na parede do postinho, cigarro aceso, enquanto o médico da Maré costurava o corte da menorzinha.
A outra tava desacordada numa maca, e eu não parava de olhar pra rosto dela.
— Que p***a será isso, Urso?
— Sei lá, chefia. Já rodamos com p**a, louca, usuária... Mas essas aí... parecem saída de filme.
— É. Uma tem cara de brava.
— A outra é mais menina... mas também não tem nada de comum.
— Tu viu a roupa delas?
— Roupa? Nem tinha, pô. Só umas faixas, uns panos amarrado...
— Exato. Como se tivessem vindo da selva.
Dei mais uma tragada, encarando o corpo da mais velha. A da pele dourada, cabelo liso escuro batendo na b***a. Mesmo apagada, a rosto era forte. Linda, mas não era dessas belezas montadas de silicone e sobrancelha feita. Era crua. Natural. Selvagem.
Jeito de quem já matou bicho com as mãos.
— O que os médicos disseram?
— Que a menor só teve escoriação. Tá dormindo por sedativo, mas acorda logo.
— A maior levou uma pancada forte, mas é resistente. Ossos intactos, só corte na cabeça. Podia ter morrido. Mas não morreu.
— Guerreiras.
Fiquei calado por uns segundos, observando de longe os pontos na testa da maior.
— Urso, o que tu acha?
— Sobre?
— Origem.
— Chefia... eu chutaria coisa indígena. Mas diferente. Porque mesmo as mina dos povos do Xingu, por exemplo, têm outro biotipo.
— Essas aí... é tipo uma linhagem própria. Saca? Como se tivessem vivido escondidas.
— Tu viu as marcas nos braços?
— Vi.
Cicatrizes pequenas, tatuagens tribais, cortes curados que pareciam parte de algum ritual.
Nada disso existia mais no mundo moderno.
— Pode ser que estavam sendo mantidas em cativeiro? perguntei.
— Vai saber. Mas não tinham cara de refém.
— Tavam fugindo, isso tava claro. E quando o carro pegou elas, não gritaram.
— Não estavam correndo do carro.
— Tavam correndo de alguma coisa atrás.
O silêncio bateu pesado por um tempo.
— Vê se acha alguma roupa pra cobrir essas menina, p***a. Já basta o que passaram.
— Isso aqui é favela, não é mata. Se n**o olhar torto, arranco o olho.
Urso assentiu e saiu.
Fiquei ali parado, só observando.
A menorzinha, mesmo dormindo, tinha o semblante tenso.
As duas eram bonitas. De um jeito estranho.
A menor parecia ter uns 14, 15 anos...
A mais velha talvez 16.
Mas não dava pra cravar. Essas selvagens não tinham idade mostrando no rosto.
Tinham história.
Encostei na maca da maior. O nome dela, eu nem sabia.
Mas aquela cara ia me assombrar por dias.
— Que mundo você saiu, hein? — murmurei.
— E por que veio parar no meu?
Tinha alguma coisa nela que incomodava.
A beleza, sim, era gritante.
Mas era mais que isso.
Era o jeito como mesmo desacordada, o corpo dela tava em posição de defesa.
A mão direita fechada em punho. A perna levemente dobrada.
Como se pronta pra lutar mesmo em coma.
A p*****a que tinha ido comigo pra reunião apareceu, tentando encostar.
— Que foi, Sombra?
Tá com pena das indiazinha agora?
— Some da minha frente.
— Fala sério... elas nem são daqui... e tu nem sabe da história de vida delas.
— Tô mandando sair.
Ela entendeu e vazou.
Não era hora pra futilidade.
Ali o bagulho era outro.
Urso voltou com um lençol e cobriu as duas.
— Se elas acordarem, vão se assustar.
disse ele.
— A gente não fala a língua delas. E elas, provavelmente, não falam a nossa.
— Vai dar um jeito. Tradutor, professor de faculdade, sei lá.
— Tu vai manter elas aqui?
— Ainda não sei.
— Primeiro quero ouvir o que elas têm pra dizer.
Urso se encostou ao meu lado, cruzou os braços.
— Nunca vi tu assim, não.
— Assim como?
— Curioso. Tu sempre cagou pra mulher desconhecida.
— Isso aqui não é mulher qualquer.
— Isso aqui é mistério. E eu gosto de saber o que entra no meu território.
— Vai fazer o quê com elas?
— Se forem inocentes, eu protejo.
— Se forem perigo... tu já sabe.
Ele assentiu em silêncio.
Me afastei um pouco e encostei na parede.
A noite ainda não tinha acabado, e o céu da favela tava carregado.
Mas lá dentro, naquela salinha gelada, alguma coisa tinha mudado.
O que quer que aquelas meninas fossem, elas estavam marcadas.
E agora... estavam no meu mundo.
E meu mundo não perdoa ninguém.