CAPÍTULO 4
Narrado pelo Autor
A mata fechava sobre elas como se quisesse esconder o que restava.
Selena e Luara corriam sem saber pra onde, só sabiam que precisavam fugir.
A floresta, que antes era casa, agora era uma prisão que gritava morte em cada canto.
O ar cortava o peito.
O sangue dos pés descalços marcava o chão da terra.
Os cabelos longos, antes enfeitados por miçangas e flores, agora estavam embaraçados, cheios de folhas e poeira.
Luara chorava em silêncio, com a mão apertada à de Selena.
Nenhuma queria soltar a outra.
A única coisa que restava era o laço que tinham.
— Segura firme, Lu... não solta por nada, dizia Selena, com o rosto suado e arranhado.
Atrás delas, a fumaça subia densa e escura. A tribo estava sendo devorada.
O cheiro de sangue e queimado pairava no ar como um aviso c***l: ali não restava mais nada.
Elas cortaram caminho por dentro de riachos, atravessaram troncos caídos, escorregaram em pedras, beberam água das nascente com as mãos.
Fugiram até o dia nascer, depois até o sol queimar.
E seguiram.
A mata parecia não ter fim. Mas mesmo com os corpos no limite, não pararam.
A exaustão já fazia os olhos pesarem.
As pernas tremiam, os joelhos falhavam.
Mas o medo ainda era maior do que a dor.
— Acha que... que eles estão atrás da gente? perguntou Luara, com a voz falhada.
— Não sei... Mas mesmo que não estejam, a gente precisa sair daqui.
— Selena... eu não aguento mais...
— Só mais um pouco. Eu prometo. Se a gente seguir esse rio, ele vai nos levar pra algum lugar.
Caminharam por mais horas.
Passaram por uma cachoeira escondida, onde mergulharam pra se limpar, tentando ao menos tirar a dor da pele.
Choraram abraçadas, sem trocar palavra.
Elas sabiam que eram as últimas.
A noite chegou de novo, e com ela, os barulhos da floresta.
Selena acendeu uma tocha improvisada, e seguiram, mesmo no escuro.
Na terceira madrugada desde a fuga, os passos começaram a falhar.
Elas m*l sentiam os pés.
A pele estava coberta de picadas de mosquito, cortes e hematomas.
Mas então…
A mata começou a abrir.
— Luara... olha... ali! apontou Selena, com a pouca força que restava.
Era uma cerca enferrujada, e além dela, o chão reto. Cinzento.
Uma rodovia.
Os olhos das duas se arregalaram.
O som dos pneus ao longe parecia música.
Tinham escapado da selva. Mas não do destino.
Com o alívio, veio a distração.
Elas se deram as mãos, deram os primeiros passos no asfalto n***o da estrada...
E não viram.
Não ouviram a tempo.
O carro veio rasgando o silêncio da madrugada.
Uma Blazer blindada preta, farol alto, tocando funk baixo no som.
— OLHA AÍ, CHEFE! — gritou o Urso.
O Sombra m*l teve tempo.
Pisou no freio com tudo.
O carro derrapou, mas não evitou.
As duas foram atingidas em cheio.
Corpos arremessados, girando no ar, batendo com força no chão do asfalto .
Tudo foi rápido, seco, brutal.
A poeira levantou.
O silêncio voltou.
Sombra desceu do carro com raiva, com a pistola na mão, achando que podia ser uma emboscada.
Mas quando se aproximou dos corpos caídos, viu que eram duas meninas.
Novas. Machucadas. Despidas de tudo, menos da vida.
— Que p***a é essa...? — murmurou ele, abaixando ao lado da que estava desacordada.
Luara tentava se mexer, chorando de dor.
— Sel... Selena... — sussurrou, engasgando.
O Urso se ajoelhou ao lado da outra.
— Tá viva, mas bateu forte a cabeça... olha o corte aqui...
— Pega as duas e bota no carro. Leva pro postinho da Maré.
— Mas, chefia, e se for cilada?
— TU TÁ VENDO ALGUM FUZIL?
— Tô vendo duas moleca, fodida, desmaiada... olha pra cara delas. Isso aqui é o quê? Fugitiva de manicômio? Traficada?
— Seja o que for... caiu no nosso colo. E a gente não mata uma pessoa sem arma na mão.
O Urso obedeceu.
Com cuidado, os soldados pegaram os corpos e botaram no banco de trás.
Sombra acendeu um cigarro, olhando pras duas.
Havia algo estranho naquela menina,desacordada. Um jeito selvagem... ferido...
mas que mesmo na dor, era selvagem.
Elas não eram do Rio.
Não eram do mundo dele.
Mas estavam ali agora.
E o destino acabava de unir duas realidades que nunca deveriam se cruzar.