Capítulo 12 Narrado por Mamute No morro, tudo é sobre território. De espaço, de poder, de corpo. Quem invade demais, morre cedo. Quem recua demais, é engolido. Acordei com esse pensamento girando na cabeça, ouvindo os tiros lá embaixo na favela. Era troca entre os nossos e uma quadrinha ousada que andava rondando de longe. Nada preocupante ainda, mas o alerta subia feito fumaça. Levantei cedo, joguei água no rosto, encostei na janela e vi Clara no quintal da mansão. Sentada de costas, pernas dobradas, o cabelo loiro bagunçado no topo da cabeça. Tava lendo, sozinha, num canto onde a luz da manhã batia de leve. Ela parecia alheia ao barulho dos tiros, como se tivesse encontrado um jeito de desligar. Aquilo mexeu comigo. Porque eu conheço esse olhar. O dela e o meu não são tão diferentes.

