CAPÍTULO 20 A noite desceu quente, abafada. O céu, carregado de nuvens sem chuva, parecia esconder o peso que caía sobre aquela casa desde o dia em que tudo desabou. As luzes já estavam apagadas nos quartos quando Dona Sandra saiu da cozinha, enxugando as mãos no pano de prato. Escutava o silêncio com a experiência de quem já criou filhos, enterrou marido e sobreviveu à guerra que é ser mulher. Na varanda, os quatro estavam lá. Sombra encostado na pilastra, Mamute fumando calado, Urso com cara de quem queria sumir, e o outro, Cegueta, fingindo que nem existia. Dona Sandra parou na porta, cruzou os braços e encarou cada um. — Vocês acham que tão espertos, né? Os quatro se mexeram, tensos. Mamute engoliu seco. Urso tirou o cigarro da boca, mas nem teve coragem de falar nada. — Eu vi —

