Imperador Narrando
Fiquei encarando ela por alguns segundos depois que terminou de falar. Minha cabeça ainda tava fervendo, o sangue quente correndo nas veia, mas eu precisava pensar também. Não era só sair quebrando tudo tenho que fazer certo.
Respirei fundo e voltei a olhar pra ela.
— Tu já foi no médico?
Ela negou com a cabeça, devagar.
— Não, eu vim direto pra cá.
Balancei a cabeça, já me irritando de novo.
— Tá toda arrebentada e não foi ver isso?
Ela deu de ombros de leve, com dor.
— Não deu tempo…
Passei a mão no rosto, puxando o ar.
— Então escuta, tu vai pro hospital agora.
Na hora ela travou.
— Não…
Franzi a testa.
— Como assim não?
— Se eu sair, ele pode vir atrás de mim.
Dei um passo mais perto, olhando firme pra ela.
— Não vai.
Ela ficou em silêncio, mas ainda dava pra ver o medo ali.
— Pode confiar em mim — falei, mais sério — A partir de agora tu tá na minha proteção.
Aquilo não era promessa jogada ao vento. Era ordem.
Virei pro lado e chamei um dos meus.
— Ô, menor!
Ele veio na hora.
— Fala, chefe.
Apontei pra ela.
— Vai levar ela no hospital. Agora.
Ele assentiu.
— Certo.
— E presta atenção — continuei, firme — Tu vai fazer a segurança dela. Ninguém chega perto. Ninguém encosta.
Ele já entendeu o tom.
— Pode deixar.
— E não é pra ir de qualquer jeito não — completei — Leva no meu carro.
Ele arregalou o olho de leve, mas só confirmou.
— Tá bom, chefe.
Voltei o olhar pra ela.
— Vai tranquila.
Mas ela ainda tava tensa.
— E se ele chegar em casa e eu não tiver. Ele pode machucar meu filho, e a minha mãe. — Ela hesitou, a voz mais baixa agora.
Aquilo bateu diferente.
Senti o maxilar travar na hora.
— Não vai. — Falei seco.
— Eu vou botar segurança lá.
Ela me olhou, tentando acreditar.
— Ele não entra.
Deixei bem claro.
— Nem perto ele chega.
Fiz um sinal com a cabeça pro moleque.
— Já aciona dois lá na casa dela. Agora.
— Já é. — ele respondeu, pegando o rádio na hora.
Voltei pra ela.
— Resolve isso aí e fica tranquila.
Ela respirou fundo, como se finalmente estivesse soltando um pouco do peso que carregava.
— Obrigada…
Assenti de leve.
Mas antes de sair, ela me olhou mais uma vez.
— Se o senhor matar ele.
Parei, esperando.
— É um favor que faz pra humanidade.
Fiquei alguns segundos em silêncio, e depois soltei um sorriso de canto.
— Não tenha dúvida disso.
Ela virou e foi, acompanhada do meu homem. Entraram no carro, vi eles saindo.
Fiquei ali parado, olhando até sumirem. O silêncio voltou, mas dentro de mim, tava longe de estar calmo.
Passei a mão na cabeça, respirando fundo.
— Carälho…
Senti o sangue pulsar forte de novo. A imagem dela toda machucada, o olho inchado, a voz tentando se manter firme.
Aquilo não saía da minha cabeça.
— Tu tá na minha proteção agora, garota. — Falei baixo, mais pra mim mesmo.
Olhei pro nada por um segundo, e senti aquela certeza fria subindo.
— E esse babaca.
Meu maxilar travou de novo.
— Já era.
Fiquei parado ali por alguns minutos depois que ela saiu. A cabeça trabalhando, mas o sangue ainda quente, pulsando forte. Eu não vou fazer alarde agora, não. Mas tenho certeza de uma coisa.
— Muita gente vai afundar nessa lama junto com esse filho da püta.
Passei a mão no rosto, respirando fundo. Isso não era só um erro. Não era só uma vacilada. Era coisa repetida. Suja.
— E eu deixei passar.
Balancei a cabeça, irritado comigo mesmo.
O Juca já tinha sido chamado atenção antes. Por causa de mulher. Lembrei na hora. Só que, na época, eu achei que era outra história, outra confusão qualquer.
— Carälho.
Passei a mão na barba, pensativo.
— Eu achava que aquela outra era a mulher dele.
A tal da Jordana. A que ele vivia exibindo pra todo mundo, subindo e descendo com ela, como se fosse dona do pedaço.
— Nem sabia da existência dessa garota.
A imagem da Lívia veio na minha cabeça de novo. Pequena, machucada, olhando firme.
— A mina podia ser minha filha.
Aquilo bateu estranho dentro de mim.
Fechei o semblante na hora.
— E esse verme fazendo isso dentro da minha área.
Peguei o rádio na mesa e apertei o botão.
— Atenção.
Na mesma hora, silêncio do outro lado.
— Assim que o Juca der as caras, manda ele subir pra boca. — Parei um segundo, deixando bem claro. — Sem erro.
— Copiado, chefe.
Soltei o rádio devagar.
Agora era só esperar.
Virei as costas e subi. Fui direto pro banheiro. Abri o chuveiro e deixei a água cair quente, forte, batendo no corpo.
Fiquei ali, de cabeça baixa, deixando a água levar um pouco daquela tensão, mas não levava o principal.
O ódio tava ali, quieto.
Crescendo.
— Hoje tu se födeu, parceiro.
Desliguei o chuveiro, me enxuguei rápido e me arrumei. Roupa simples, mas no padrão. Quem manda não precisa de muito pra impor respeito.
Saí do quarto e já fui dando ordem.
— O carro da mina, bota na minha garagem.
Um dos moleques assentiu.
— Já é, chefe.
Assenti e segui meu caminho.
Desci pra boca.
O movimento tava normal, como sempre. Gente indo e vindo, dinheiro rodando, vapor trabalhando, mas quando eu cheguei, o clima mudou.
Silêncio, Respeito.
— Fica suave — falei, passando — Segue o corre de vocês.
Mas todo mundo sabia.
Tinha alguma coisa pra acontecer. Me encostei numa cadeira, acendi um cigarro e puxei devagar, soltando a fumaça no ar.
— Hoje vai ter julgamento.
Falei baixo, mais pra mim mesmo. Aqui não é tribunal de papel, não.
Aqui é o meu júri.
Onde eu sou o juiz.
O promotor.
Traguei mais uma vez.
— E o corpo de jurados.
Soltei a fumaça devagar, olhando pro nada.
— E nesse júri. Ele já tá sentenciado. — Dei um meio sorriso, frio.
Não tinha defesa.
Não tinha desculpa.
Não tinha saída.
A decisão já tá tomada desde o momento que eu vi aquela garota daquele jeito.
— Condenado.
Passei a língua nos dentes, sentindo a raiva voltar a subir.
— E quem vai executar a sentença.
Apaguei o cigarro no chão, esmagando com o pé.
Levantei devagar.
— Sou eu mesmo.
Olhei em volta, o morro vivo, funcionando, e pensei em uma coisa só.
— Aqui tem lei. — E quem quebra. — Paga.