16 - Na minha proteção

1120 Words
Imperador Narrando Fiquei encarando ela por alguns segundos depois que terminou de falar. Minha cabeça ainda tava fervendo, o sangue quente correndo nas veia, mas eu precisava pensar também. Não era só sair quebrando tudo tenho que fazer certo. Respirei fundo e voltei a olhar pra ela. — Tu já foi no médico? Ela negou com a cabeça, devagar. — Não, eu vim direto pra cá. Balancei a cabeça, já me irritando de novo. — Tá toda arrebentada e não foi ver isso? Ela deu de ombros de leve, com dor. — Não deu tempo… Passei a mão no rosto, puxando o ar. — Então escuta, tu vai pro hospital agora. Na hora ela travou. — Não… Franzi a testa. — Como assim não? — Se eu sair, ele pode vir atrás de mim. Dei um passo mais perto, olhando firme pra ela. — Não vai. Ela ficou em silêncio, mas ainda dava pra ver o medo ali. — Pode confiar em mim — falei, mais sério — A partir de agora tu tá na minha proteção. Aquilo não era promessa jogada ao vento. Era ordem. Virei pro lado e chamei um dos meus. — Ô, menor! Ele veio na hora. — Fala, chefe. Apontei pra ela. — Vai levar ela no hospital. Agora. Ele assentiu. — Certo. — E presta atenção — continuei, firme — Tu vai fazer a segurança dela. Ninguém chega perto. Ninguém encosta. Ele já entendeu o tom. — Pode deixar. — E não é pra ir de qualquer jeito não — completei — Leva no meu carro. Ele arregalou o olho de leve, mas só confirmou. — Tá bom, chefe. Voltei o olhar pra ela. — Vai tranquila. Mas ela ainda tava tensa. — E se ele chegar em casa e eu não tiver. Ele pode machucar meu filho, e a minha mãe. — Ela hesitou, a voz mais baixa agora. Aquilo bateu diferente. Senti o maxilar travar na hora. — Não vai. — Falei seco. — Eu vou botar segurança lá. Ela me olhou, tentando acreditar. — Ele não entra. Deixei bem claro. — Nem perto ele chega. Fiz um sinal com a cabeça pro moleque. — Já aciona dois lá na casa dela. Agora. — Já é. — ele respondeu, pegando o rádio na hora. Voltei pra ela. — Resolve isso aí e fica tranquila. Ela respirou fundo, como se finalmente estivesse soltando um pouco do peso que carregava. — Obrigada… Assenti de leve. Mas antes de sair, ela me olhou mais uma vez. — Se o senhor matar ele. Parei, esperando. — É um favor que faz pra humanidade. Fiquei alguns segundos em silêncio, e depois soltei um sorriso de canto. — Não tenha dúvida disso. Ela virou e foi, acompanhada do meu homem. Entraram no carro, vi eles saindo. Fiquei ali parado, olhando até sumirem. O silêncio voltou, mas dentro de mim, tava longe de estar calmo. Passei a mão na cabeça, respirando fundo. — Carälho… Senti o sangue pulsar forte de novo. A imagem dela toda machucada, o olho inchado, a voz tentando se manter firme. Aquilo não saía da minha cabeça. — Tu tá na minha proteção agora, garota. — Falei baixo, mais pra mim mesmo. Olhei pro nada por um segundo, e senti aquela certeza fria subindo. — E esse babaca. Meu maxilar travou de novo. — Já era. Fiquei parado ali por alguns minutos depois que ela saiu. A cabeça trabalhando, mas o sangue ainda quente, pulsando forte. Eu não vou fazer alarde agora, não. Mas tenho certeza de uma coisa. — Muita gente vai afundar nessa lama junto com esse filho da püta. Passei a mão no rosto, respirando fundo. Isso não era só um erro. Não era só uma vacilada. Era coisa repetida. Suja. — E eu deixei passar. Balancei a cabeça, irritado comigo mesmo. O Juca já tinha sido chamado atenção antes. Por causa de mulher. Lembrei na hora. Só que, na época, eu achei que era outra história, outra confusão qualquer. — Carälho. Passei a mão na barba, pensativo. — Eu achava que aquela outra era a mulher dele. A tal da Jordana. A que ele vivia exibindo pra todo mundo, subindo e descendo com ela, como se fosse dona do pedaço. — Nem sabia da existência dessa garota. A imagem da Lívia veio na minha cabeça de novo. Pequena, machucada, olhando firme. — A mina podia ser minha filha. Aquilo bateu estranho dentro de mim. Fechei o semblante na hora. — E esse verme fazendo isso dentro da minha área. Peguei o rádio na mesa e apertei o botão. — Atenção. Na mesma hora, silêncio do outro lado. — Assim que o Juca der as caras, manda ele subir pra boca. — Parei um segundo, deixando bem claro. — Sem erro. — Copiado, chefe. Soltei o rádio devagar. Agora era só esperar. Virei as costas e subi. Fui direto pro banheiro. Abri o chuveiro e deixei a água cair quente, forte, batendo no corpo. Fiquei ali, de cabeça baixa, deixando a água levar um pouco daquela tensão, mas não levava o principal. O ódio tava ali, quieto. Crescendo. — Hoje tu se födeu, parceiro. Desliguei o chuveiro, me enxuguei rápido e me arrumei. Roupa simples, mas no padrão. Quem manda não precisa de muito pra impor respeito. Saí do quarto e já fui dando ordem. — O carro da mina, bota na minha garagem. Um dos moleques assentiu. — Já é, chefe. Assenti e segui meu caminho. Desci pra boca. O movimento tava normal, como sempre. Gente indo e vindo, dinheiro rodando, vapor trabalhando, mas quando eu cheguei, o clima mudou. Silêncio, Respeito. — Fica suave — falei, passando — Segue o corre de vocês. Mas todo mundo sabia. Tinha alguma coisa pra acontecer. Me encostei numa cadeira, acendi um cigarro e puxei devagar, soltando a fumaça no ar. — Hoje vai ter julgamento. Falei baixo, mais pra mim mesmo. Aqui não é tribunal de papel, não. Aqui é o meu júri. Onde eu sou o juiz. O promotor. Traguei mais uma vez. — E o corpo de jurados. Soltei a fumaça devagar, olhando pro nada. — E nesse júri. Ele já tá sentenciado. — Dei um meio sorriso, frio. Não tinha defesa. Não tinha desculpa. Não tinha saída. A decisão já tá tomada desde o momento que eu vi aquela garota daquele jeito. — Condenado. Passei a língua nos dentes, sentindo a raiva voltar a subir. — E quem vai executar a sentença. Apaguei o cigarro no chão, esmagando com o pé. Levantei devagar. — Sou eu mesmo. Olhei em volta, o morro vivo, funcionando, e pensei em uma coisa só. — Aqui tem lei. — E quem quebra. — Paga.
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