15 - Imperador

1225 Words
Imperador Narrando Tava largadão no sofá, de boa, só eu e o silêncio da casa. Na mesa de centro, uma carreira de pó bem alinhada, coisa fina, do jeito que eu gosto. Hoje a mente tava lenta, pesada, precisava dar uma bagunçada nessa pörra pra voltar pro eixo. — Hoje o bagulho é acelerar essa mente. Me inclinei pra frente, puxei com vontade. O pó subiu queimando, ardendo o nariz, descendo rasgando por dentro. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o efeito vindo rápido, tomando conta. O coração começou a bater mais forte. O corpo despertou. A mente clareou num estalo. — Aí, agora sim. Passei a mão no rosto, puxei o ar fundo, deixando aquela sensação subir, dominar. O mundo parecia mais nítido, mais rápido, do jeito que eu gosto de funcionar. Tava curtindo a lombra, recostado, quando o rádio chiou. — Imperador… Revirei os olhos, pegando o rádio na mesa. — Fala. — Tem uma mulher aqui querendo falar contigo. Franzi a testa na hora. — Que mulher? — Moradora… Fiquei em silêncio por um segundo. — E? — Tá toda machucada, um olho estourado. Na hora, o sangue ferveu. — Quem é essa pörra? Olhei pro nada, já sentindo a irritação subir. — E ela veio até aqui? — Veio, chefe. Tá aqui fora, disse que veio pedir sua ajuda. Soltei um riso sem humor. Olha a ousadia dessa. Ninguém nunca fez isso. Ninguém nunca teve coragem de bater na minha porta assim, do nada. — Segura ela aí. Já vou. Joguei o rádio no sofá e levantei. Fui direto pro banheiro da cozinha mesmo, abri a torneira e joguei água fria no rosto. A água escorreu gelada, ajudando a baixar o calor da droga e da raiva. Me encarei no espelho por um segundo. Olhar frio. Ligado. — Vamos ver qual é dessa mulher. Sequei o rosto de qualquer jeito e saí. Assim que pisei pra fora, já vi a cena. Uma garota escorada no carro. Pequena, corpuda. Mas Parecia mais uma adolescente do que qualquer outra coisa. Mas o que chamou atenção, foi o estado dela. Rosto machucado, Um olho inchado, praticamente fechado. Marcas pelo corpo. Na hora, minha expressão fechou. — Que pörra é essa… Os moleque já tavam em volta, atentos, um com o fuzil ainda na mão. Olhei pra eles e assobiei. — Libera. Eles hesitaram um segundo, mas obedeceram. Abriram espaço. Eu fui chegando devagar, encarando ela de cima a baixo. O sangue ainda fervendo dentro de mim. Mas agora não era só raiva. Era curiosidade, e algo mais. — Tu tem coragem, hein. Parei na frente dela, cruzando os braços. — Vir bater na minha porta desse jeito. Inclinei a cabeça de leve, analisando cada detalhe. — Agora fala. Minha voz saiu firme, pesada. — Quem fez isso contigo? Ela me olhou, mesmo com um olho praticamente fechado, roxo, inchado. Mas o outro, tava firme. Sem medo. — Gostaria de falar a sós com o senhor, se o senhor me permitir. Aquilo me pegou de um jeito diferente. Não foi pedido de ajuda desesperado. Foi direto. Seguro. Encarei ela por mais alguns segundos, avaliando. — Me acompanha. Virei as costas sem esperar resposta e saí andando. Já senti ela vindo atrás, passos mais lentos, mas decididos. Passei pelos moleque, e fomos até a varanda da casa. Fica na lateral. Lugar mais reservado, longe dos ouvidos curiosos. Parei e virei pra ela. — Só até aqui, mina. Ninguém entra na minha goma. Ela assentiu na hora, sem questionar. — Tudo bem. Apontei pra uma cadeira. — Senta. Ela sentou com cuidado, visivelmente sentindo dor. Eu puxei outra cadeira e me joguei nela, de frente pra ela, apoiando os braços nas pernas. — Fala teu nome. — Lívia, e tenho um filho, o Noah, vim pedir ajuda em nosso nome. — De onde tu é? — Parte baixa. Assenti devagar. — E quem fez isso contigo, Lívia? Ela respirou fundo, mas antes de responder, me encarou mais firme. — Eu sou casada com ele. Franzi a testa na hora. — Com quem? — Com o Juca. Meu maxilar travou. — Que Juca? — Seu gerente. Pronto. O sangue já começou a esquentar, mas ela não parou. — Isso começou há quatro anos, quando eu fiz dezesseis. Fiquei em silêncio, prestando atenção. — Eu fui pra um baile, com duas pessoas que eu confiava, uma delas eu achava que era minha amiga. A voz dela começou a pesar. Senti o punho fechar sozinho — Ela batizou minha bebida… eu não sabia. No outro dia eu acordei pelada na cama dele, sem nem conhecer ele. Meu peito travou. — Eu não lembro de nada daquela noite, nada. Ela desviou o olhar por um segundo, mas continuou. — Eu acredito que ele abusou de mim, porque eu tava dopada, eu era muito boba. Novinha, nunca tinha ido embora um baile, nunca tinha ficado com ninguém. Eu era virgem. Pronto, ali já não era mais só raiva. Era ódio puro. Mas eu fiquei quieto, deixando ela falar. — No começo, ele foi perfeito. Disse que queria me assumir, que ia cuidar de mim, fazia de tudo. Balancei a cabeça devagar, já entendendo o padrão. — Parecia um príncipe. — Ela deu um riso sem humor. — Mas depois de alguns meses, tudo virou um inferno. Agora sim. — Ele me tirou de casa, me trouxe pra morar com ele. Ela falava baixo, mas firme. — No começo parecia cuidado, depois virou prisão. Levantei da cadeira num impulso, andando de um lado pro outro. — Esse filho da püta… — Não podia sair, não podia falar com ninguém. Minha respiração já tava pesada. — Ele me batia, me empurrava, depois começou... Fechei os olhos por um segundo. — Começou o que? Ela engoliu seco. — A me estüprar. Acabou, Perdi o resto de controle que ainda tinha. Dei um soco na parede do lado, o barulho seco ecoou pela garagem. — FILHO DA PÜTA! Passei a mão no rosto, tentando conter a explosão, mas não dava. — No meu morro… Minha voz saiu baixa agora, carregada de ameaça. — No meu morro esse verme tá fazendo isso! Voltei a olhar pra ela. — E teu filho? O olhar dela mudou na hora. — Ele tem três anos, é autista. Meu peito apertou de leve, mas segurei. — E ele? — Tem medo do pai. Ele grita, liga som alto, faz de propósito pra irritar ele. Balancei a cabeça, sentindo o ódio crescer mais ainda. — E eu, não sabia de nada. Passei a mão no cabelo, andando de um lado pro outro, completamente transtornado. — NINGUÉM me falou essa pörra. Respirei fundo, tentando me controlar, mas a cabeça já tava decidida. — Quatro anos, quatro anos esse lixo fazendo isso, e tu não veio me procurar antes. Parei na frente dela de novo, encarando. — Tu veio no lugar certo, Lívia. Minha voz saiu firme, fria. — Muito certo. Me inclinei um pouco pra frente. — Porque eu não aceito isso. Apontei pro chão. — Não na minha área. Endireitei o corpo, sentindo o sangue ainda fervendo. — Esse mërda esqueceu onde ele tá. Olhei pra ela mais uma vez, e ali já não tinha dúvida nenhuma. Só uma coisa dentro de mim. Ódio. — E eu vou fazer ele lembrar.
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