14 - No Alto do Morro

1186 Words
Lívia Narrando Tudo ainda girava e doía como se meu corpo inteiro tivesse sido esmagado. Minha mãe me ajudou a sentar devagar, segurando meu braço com cuidado, como se eu fosse quebrar só de encostar. — Devagar, filha, devagar… Eu gemi baixo, sentindo cada parte do meu corpo latejar. Respirei fundo, tentando me manter consciente, tentando entender o que tava acontecendo. Foi quando eu vi, uma faca, em cima do sofá. Olhei para aquilo por alguns segundos, confusa, até virar o rosto pra minha mãe. — Mãe, o que significa isso? Ela seguiu meu olhar e apertou os lábios, ainda com os olhos vermelhos de tanto chorar. — Eu ia matar ele. Meu coração falhou uma batida. — O quê? — Eu ia matar aquele desgraçado — ela repetiu, com a voz tremendo de raiva — Mas ele correu quando me viu com a faca. Covarde. Engoli seco, sentindo um misto de choque e dor. — Ele foi embora? — Foi. Sumiu. Respirei fundo, tentando processar tudo, mas uma coisa veio na minha cabeça na hora. — E o Noah? Meu coração disparou. — Mãe, cadê o Noah? Ela levantou rápido. — Tá no quarto, calma, vou buscar ele. Fiquei ali, sentada no sofá, com o corpo todo doendo, cada respiração sendo um esforço. O silêncio da casa parecia pesado demais depois de tudo que tinha acontecido. Segundos depois, ouvi os passinhos. E então ele apareceu. Assim que o meu filho me viu, foi como se o mundo dele desmoronasse. Meu filho ali, me vendo toda machucada. Quebrada por dentro e por fora. — Mamãe! A voz dele saiu alta, desesperada. Ele começou a chorar na mesma hora, um choro forte, intenso, daqueles que vêm do fundo. O corpinho dele começou a tremer, as mãos indo direto pros ouvidos. — Não… não… não… Ele repetia, se agitando, completamente desorganizado. Era uma crise, das fortes. Levantei com dificuldade, ignorando a dor, e fui até ele. — Calma, meu amor… mamãe tá aqui… Ele se agarrou em mim com força, chorando, o rosto afundado no meu peito. Sentia ele tremendo inteiro. — Shhh… tá tudo bem… acabou… acabou… Passei a mão nas costas dele, fazendo movimentos lentos, repetitivos, como ele precisava. Meu coração tava despedaçado, mas ali… eu precisava ser forte. Ele respirava descompassado, o choro alto, os ombros subindo e descendo rápido. — Olha pra mamãe… respira comigo… Mas ele não conseguia. Continuei ali, abraçando, falando baixo, criando aquele espaço seguro pra ele. Aos poucos, bem devagar, o choro foi diminuindo. Os tremores também. Até que ele ficou só fungando, ainda agarrado em mim. — Isso… meu amor… já passou… Eu mesma já tava chorando de novo, mas em silêncio. Olhei pra minha mãe. — Pega o remédio dele, por favor. Ela assentiu na hora e foi buscar. Quando voltou, me entregou, e eu dei com cuidado pro Noah, ajudando ele a tomar. — Pronto, vai ficar melhor, tá? Ele só assentiu de leve, já mais quietinho. Sentei no sofá com ele no colo, segurando firme, como se o mundo lá fora não existisse mais. Aos poucos, o corpo dele foi relaxando. A respiração ficou calma. Até que ele dormiu, ali mesmo, no meu colo. Olhei pro rostinho dele, tranquilo depois de tudo, e não consegui segurar. As lágrimas começaram a cair sem controle. Desespero puro, dor. Cansaço. Eu abracei meu filho com mais força, como se fosse a única coisa que me mantinha de pé. Porque, no meio desse inferno todo. Ele ainda é a minha razão de continuar. Eu fiquei ali por mais alguns minutos, só olhando pra ele, tentando acalmar meu próprio coração. Quando tive certeza que ele tava num sono mais profundo, levantei com cuidado e levei ele pro quarto. Coloquei ele na caminha dele devagar, ajeitei o travesseiro, cobri com o cobertorzinho que ele gosta. Desliguei a luz principal e liguei o abajur, do jeitinho que ele precisa. Tudo dentro da rotina dele. Tudo no lugar certo. — Dorme bem, meu amor… Passei a mão no cabelo dele e fiquei alguns segundos ali, só observando. Como se aquilo fosse me dar força pra continuar. Saí do quarto e fechei a porta com cuidado. Minha mãe tava na cozinha, encostada na pia, me esperando. Assim que me viu, ela não perdeu tempo. — Já decidiu, Lívia? Eu parei no meio da sala, sentindo o corpo doer, mas a cabeça, funcionando mais do que nunca. — Decidir o quê? — Vai falar com o tal chefe, ou vai esperar eu falar? Engoli seco. Ela deu um passo na minha direção, com o olhar sério. — Eu conheço um cabo. Ele é caveira. Se eu contar o que aconteceu, vai ter inferno nesse morro. Meu coração apertou. — Mãe… — E por você, minha filha. — ela continuou, a voz firme — Eu entro no inferno de cabeça. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Eu sabia que ela era capaz. Mas eu também sabia o que isso podia causar. Respirei fundo. — Eu vou. Ela me olhou, esperando eu continuar. — Mas o Juca não pode saber. Ela assentiu devagar. — Não vai saber. Então ela virou o celular pra mim. — Olha isso aqui. Olhei pra tela. Era uma foto. Juca e a Beatriz. Juntos de mãos dadas. Como se nada tivesse acontecendo. Meu estômago virou. — A Marisa acabou de mandar — minha mãe disse — Ele tá no asfalto com ela. Senti o sangue ferver. — A cachorra fez questão de ir na lanchonete da mãe da Marisa. Respirei fundo, com dificuldade. Minha visão ficou turva por um segundo. Virei as costas e fui pro banheiro. Tomei um banho rápido, a água batendo nos machucados e ardendo, mas eu nem liguei. Precisava limpar o corpo, e a mente. Saí, me sequei e escolhi a roupa sem pensar muito. Um cropped. Um shortinho. Deixando todos os machucados à mostra. Eu queria que vissem. Queria que ninguém tivesse dúvida do que tava acontecendo. Voltei pra sala, peguei a chave do carro e olhei pra minha mãe. — Eu vou atrás dele agora. Ela franziu a testa, e perguntou onde ele mora. — Lá em cima, O Imperador mora lá, no alto do morro. Ela me olhou por alguns segundos. — Cuidado. Assenti. Saí de casa e entrei no carro. Dirigir com um olho só não era fácil, minha cabeça doía, meu corpo gritava, mas eu não parei. Eu precisava fazer aquilo. Subi o morro direto, sem olhar pra trás. Sem pensar. Só parei quando cheguei na frente da casa dele, do chefe. Do Imperador. Antes mesmo de eu abrir a porta, um cara apareceu do lado do carro e bateu no vidro. Outro já veio logo atrás, com o fuzil apontado. Meu coração disparou, mas eu não recuei. Abaixei o vidro devagar. — Tá perdida, dona? — o garoto perguntou, olhando pro meu rosto machucado. Respirei fundo. — Não. Olhei direto pra ele. — Eu tô no lugar certo. Ele me encarou, esperando. — Eu vim falar com o Imperador. Minha voz saiu firme, mesmo com tudo doendo. — Eu preciso da ajuda dele.
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