13 - Imperador

1129 Words
Imperador Narrando Fala, seus pïca, meu nome é Igor. Mas aqui no morro, no asfalto e no submundo, eu sou o Imperador do Crime. — Isso mesmo, Carälho. O Imperador. Tenho quarenta e três anos, dois metros de altura e mais de cento e vinte quilos de músculo. Meu corpo é fechado de tatuagem, braço, peito, costas, pescoço, até no rosto eu tenho. Cada desenho aqui tem uma história, tipo um gibi, mas só entende quem sabe ler de verdade. — E não, não tem tattoo em tudo não, tem lugar que é só meu. Agora, não vem achando que eu nasci nessa vida, não. Eu escolhi o crime. Também não nasci no morro. Eu vim pro morro. Eu morava em Vila Isabel, vida tranquila até certo ponto. Meu pai é dono de transportadora. Minha mãe sempre foi guerreira, mas nunca cuidou de nós. Ela vivia pro meu pai e a empresa dele, então eu cresci meio solto, aprendendo com a rua. Foi ali que eu conheci o Nando, um moleque do morro que virou meu irmão de vida. — Esse aí é diferente de mim, escolheu o caminho certo. O cara é trabalhador, acorda cedo, rala o dia inteiro e sustenta a família dele com dignidade. E eu faço questão de proteger ele e os dele. Ninguém encosta. Ninguém mexe. — Lealdade é lei pra mim. Foi com ele que eu comecei a subir o Santo Amaro. No começo era só pra dar rolé, trocar ideia, ver como funcionava. Mas ali eu vi algo que mexeu comigo de verdade. Os moleque tudo de fuzil na mão, rádio na cintura, respeito no olhar de todo mundo que passava. Não era só medo, era presença. Era poder. — Eu olhava aquilo e pensava: é isso que eu quero. Não era só dinheiro, não. Era ser alguém que ninguém pisa, alguém que decide, que manda, que é ouvido. E eu fui me chegando devagar. Sem fazer barulho, sem chamar atenção. — No crime, quem fala demais, roda cedo. Comecei como aviãozinho. Correndo pra lá e pra cá, levando recado, fazendo entrega, aprendendo tudo no silêncio. Observando cada detalhe, cada movimento. Porque eu sempre soube onde queria chegar. — Eu não nasci pra ser qualquer um. Fui crescendo dentro do sistema. Mostrando serviço, ganhando confiança. Nunca vacilei, nunca traí, nunca deixei ninguém na mão. E isso pesa. Isso conta. Passei de aviãozinho pra vapor, depois pra frente, e quando eu vi, já tava no meio dos caras grandes. Já tava vivendo o jogo de verdade. — E aí o bagulho ficou sério. Confronto direto, polícia subindo, invasão de morro rival, bala comendo solta e eu ali no meio. Mas eu nunca corri. Nunca abaixei a cabeça. — Quem corre não chega no topo. Até que chegou o dia que mudou tudo. O chefe caiu. Morreu. E quando um rei cai, alguém precisa assumir o trono. Veio a ordem do comando lá de cima. Direto, sem enrolação. — O Imperador assume. Naquele momento, eu só respirei fundo. Porque, no fundo, eu já sabia. Aquilo já era meu. Sempre foi. Assumi sem medo, sem dúvida, sem olhar pra trás. E tô aqui até hoje. No comando. No controle. — No meu Santo Amaro. Aqui dentro, quem dá a palavra final sou eu. Eu organizo, eu cobro, eu resolvo. Quem fecha comigo vive bem, tem apoio, tem proteção. Quem vacila já sabe o destino. Mas não é só violência, não. Eu cuido do meu morro. Ajudo quem precisa, pago remédio, cesta básica, vejo quem tá passando dificuldade. Aqui ninguém passa fome se eu souber. — Respeito não vem só do medo, vem da atitude também. Só que não se engana, não. Eu não sou herói. Não sou exemplo. Eu sou o que muita gente teme, o problema que ninguém quer enfrentar. — E eu não n**o isso. Escolhi essa vida sabendo de tudo. Sabendo que pode acabar a qualquer momento. Bala, cadeia ou traição, qualquer um dos três pode me levar. Mas enquanto eu tiver de pé, enquanto meu nome ainda pesar. — Eu sou o Imperador. E nesse morro… — Quem manda sou eu. Eu já fui casado. Pouca gente sabe disso. E quem sabe, não comenta. — Tem coisa que é melhor deixar quieta. Ela era tudo pra mim. Diferente de tudo que eu já tinha vivido, de tudo que eu já tinha visto. Com ela eu era outro cara. Mais leve, mais tranquilo, até pensei que dava pra sair dessa vida. — Pensei errado. Ela engravidou, e eu fiquei feliz de um jeito que nem sei explicar. Era meu filho, meu sangue. Eu já imaginava tudo, ele correndo pela casa, crescendo, aprendendo comigo. Mas o destino é Crüel pra Carälho. No dia do parto, deu tudo errado. Ela não tinha condições de ter parto normal. Todo mundo sabia disso. Era arriscado. Tinha que ser cesárea. Mas os médicos forçaram. Forçaram. — E eu não tava lá. Essa é a pior parte. Eu não tava lá pra impedir. Não tava lá pra proteger. Não tava lá pra nada. Quando eu cheguei, já era tarde. Meu filho morreu dentro dela, Sem conseguir sair. Sem respirar. E ela, não resistiu. Perdi os dois no mesmo dia. Ali, eu morri junto. — Só esqueceram de enterrar. A dor que eu senti naquele dia, não tem nome. Não tem explicação. Eu virei um bicho. Um animal ferido. E eu fui atrás de quem fez aquilo. — Um por um. Entrei naquele hospital e não pensei duas vezes. O médico, e duas enfermeiras. Eles pagaram, ali mesmo. — Eu fiz questão de olhar no olho de cada um. Não me arrependo. Nunca me arrependi. — Sofri igual um cachorro, e eles também sentiram. Desde então, eu sou caçado. Até hoje. Polícia, justiça, tudo atrás de mim. — Föda-se. Nada disso traz eles de volta. Depois disso, eu nunca mais fui o mesmo. Nunca mais quis amar ninguém, nunca mais quis me apegar. Eu fechei meu coração. — Fiz uma cobertura de pedra nele. E assim eu vivo, Sozinho. Tenho meu morro, tenho meu comando, e isso basta. Não preciso de mais nada. Não quero mais nada. Mas tem uma coisa que eu não aceito. Nunca aceitei. Violência contra mulher. — Isso, pra mim, é covardia. Aqui no meu morro, não tem isso. Não tem homem batendo em mulher achando que vai ficar por isso mesmo. — Não fica. Se uma mulher chega na minha porta, machucada, chorando, pedindo ajuda. — Eu resolvo. E resolvo bonito. — Pessoalmente. Porque eu sei o que é perder alguém que você ama. Sei o que é sentir dor de verdade. E homem que levanta a mão pra mulher. — Não é homem, é lixo, e lixo. Eu sei muito bem como tratar.
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