12 - A última Surra

1102 Words
Lívia Narrando O Juca chegou e a cena tava um caos completo. A filha dele ainda tava na garagem, berrando sem parar, segurando a mochilinha com força, o rosto vermelho de tanto chorar. O Noah, dentro de casa, também já tava em crise, tremendo, com as mãos nos ouvidos, chorando desesperado com aquele barulho todo. Meu peito apertou na hora. E, logo atrás do Juca, minha mãe chegou, ofegante, claramente preocupada. — Cadê o Noah? — ela perguntou, olhando em volta. Eu fui direto até meu filho, peguei ele no colo e senti o corpinho dele tremendo. — Vem, meu amor, tá tudo bem… Entreguei ele pra minha mãe, com cuidado. — Leva ele pro quarto, mãe. Por favor. Ela assentiu na hora, já tentando acalmar ele. — Calma, meu príncipe, a vovó tá aqui. Antes de entrar, ela ainda olhou pra mim. — Lívia, entra também. Deixa ele resolver isso com a filha dele. Balancei a cabeça, firme. — Não. Quando ele tirar essa menina daqui, eu entro. Ela me encarou por um segundo, mas não insistiu. Só entrou com o Noah, fechando a porta do quarto. Voltei pra garagem e cruzei os braços, olhando pro Juca. — Leva tua filha de volta. Ele olhou pra mim, irritado. — Pra onde a Jordana foi? Dei de ombros, fria. — Não faço ideia. Ela não é minha püta pra me dar satisfação. Na mesma hora ele puxou o celular, colocando no ouvido. Ficou em silêncio por alguns segundos, e então explodiu. — Tu tá de sacänagem, Jordana? A voz dele ecoou pela garagem. — Vem buscar tua filha agora. Ele começou a andar de um lado pro outro, nervoso. — Eu não tô brincando contigo! Fechei ainda mais a expressão, só observando. — Se tu não aparecer aqui, eu vou botar essa menina lá fora da contenção. Meu estômago virou, mas eu não falei nada. Ele continuou gritando. — Eu não quero saber de filho nenhum! Quem pariu foi tu, então tu que cuida, Já deixei isso bem claro, pörra. A raiva na voz dele era absurda. E eu ali, parada, de braços cruzados, esperando. O tempo foi passando devagar. A menina foi chorando cada vez mais baixo, até que, depois de muito tempo, ela se calou. Sentou numa cadeirinha do Noah, com a carinha emburrada, segurando a mochila, quietinha. Aquilo me deu um incômodo estranho. Mas eu ignorei. Fiquei ali, firme. Até que, finalmente, um carro parou em frente ao portão. A Jordana desceu. Assim que ela passou pelo portão. O Juca avançou. Segurou o cabelo dela com força, puxando sem dó. — Tu tá achando que eu sou o quê? — ele gritou. E começou a bater. Sem pensar duas vezes. Sem se importar. Ela tentou se soltar, gritou, mas ele não parava. Eu fiquei olhando por um segundo. Sem reação. Sem vontade de interferir. Sem nada. Então virei as costas, e entrei pra dentro de casa. E fechei a porta. O som abafado dos gritos ainda dava pra ouvir lá fora. Mas eu não voltei. Não fui ver. Não quis saber. Ela não queria tanto esse presente de Deus? Então agora que aguente. Porque, no fim das contas. Cada um colhe o que planta. Depois que a Jordana foi embora com a menina, o silêncio não durou nem dois minutos. Logo em seguida, começaram as batidas na porta. Fortes. Agressivas. — Abre essa pörra, Lívia! A voz do Juca vinha carregada de raiva, ecoando pela casa. Respirei fundo, sentindo meu corpo ainda tenso com tudo que tinha acabado de acontecer. Caminhei até a porta e abri. — Para de gritar — falei, tentando manter a voz firme — sabe que isso assusta o Noah. Ele nem deixou eu terminar. Entrou como um furacão, passando por mim. — Eu não posso nem falar dentro da minha própria casa por causa daquele doido! Aquilo foi como uma facada. Na hora, senti o ódio subir quente, queimando tudo dentro de mim. — Quem tu tá chamando de doido? — perguntei, dando um passo na direção dele. Ele virou o rosto devagar, com aquele olhar cheio de desprezo. — O moleque. Meu coração disparou. — Repete. — O doidinho tá tendo crise. O doidinho. Eu não pensei, não respirei. Não raciocinei. Eu simplesmente fui. Avancei em cima dele, com tudo. — Tu não fala assim do meu filho, seu babaca nojento. Mas eu não tive chance. O primeiro soco veio tão forte que eu nem vi. Só senti. Minha cabeça virou com o impacto, e antes que eu pudesse reagir, veio outro. E outro. — Tu tá achando que é quem, pörra? — ele gritava. Eu tentei me defender, levantar os braços, empurrar ele, mas era inútil. Ele é mais forte. Muito mais forte. Caí no chão com o gosto de sangue na boca, o corpo já sem força. E mesmo assim, ele não parou. Senti o chute. Depois outro. Meu corpo se movia no chão como se eu não tivesse controle nenhum, como se eu fosse leve, como se eu não fosse nada. — Aprende a ficar na tua! Outro chute, na barriga. Nas costas. Eu só conseguia gemer de dor. O chão frio contra meu rosto. O gosto metálico na boca. A respiração falhando. E, aos poucos, tudo foi ficando distante. Escuro. Silencioso. Até que eu apaguei. Quando acordei, a primeira coisa que senti foi dor. Uma dor absurda, em todo o corpo. Depois veio o som. — Lívia! — a voz da minha mãe, desesperada — Minha filha, acorda. Tentei me mexer, mas não consegui. Tudo doía. Tentei abrir os olhos, mas um deles simplesmente não abria. Tava inchado demais. Pesado. O outro abriu só um pouco, embaçado. E eu vi ela. Minha mãe, Chorando. Desesperada. — Meu Deus, o que ele fez contigo? Eu comecei a chorar ali mesmo, no chão. Sem força. Sem reação. Ela me puxou com cuidado, colocando minha cabeça no colo dela. A mão dela tremia enquanto passava pelo meu cabelo. — Calma, filha, calma… Mas não tinha calma. Só dor, Só vergonha. Só desespero. — Eu vou acabar com isso — ela disse, com a voz firme no meio do choro. Olhei pra ela com dificuldade. — Mãe… — Se você não for falar com o Dono do Morro, eu vou. Meu coração acelerou. — Não… — Eu vou sim! — ela interrompeu — E faço pior, Lívia. A voz dela mudou, ficou dura. Decidida. — Eu vou na polícia. O ar faltou por um segundo. Mesmo toda machucada, o medo veio. Porque eu sei, Se isso acontecer. As coisas podem ficar ainda piores.
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