11 - Lívia

1345 Words
Lívia Narrando Meu nome é Lívia Gomes, tenho vinte anos, sou morena, cabelo liso, olhos cor de mel e 1,60 de altura. Sou mãe do Noah, meu filho de três anos, e ele é tudo pra mim. Tudo mesmo. O Noah tem transtorno do espectro autista nível 1 de suporte. Ele fala, conversa, entende tudo e é inteligente de um jeito que me impressiona todos os dias. Meu príncipe. Minha vida. Sou filha da Vanusa, a melhor manicure do asfalto, como ela mesma diz. Minha mãe me criou sozinha, veio do Maranhão pro Rio de Janeiro sem nada, só com fé e coragem. Aqui ela conheceu o encosto que me fez, e ele sumiu no mundo. Mas ela nunca precisou dele. — Nenhum homem faz falta quando a gente é mulher, o suficiente. E minha mãe é forte. Sempre foi. Ela me criou com pouco, mas nunca deixou faltar nada. Tudo regrado, contado, mas eu tinha. Tinha amor, tinha cuidado. Até os meus dezesseis anos. Foi quando tudo desandou. Eu fui comemorar meu aniversário com minhas amigas. Ou melhor, uma amiga e uma traíra. Naquela noite, sem eu saber, colocaram alguma coisa na minha bebida. Eu não lembro de quase nada. Só do começo. E do fim. Porque eu acordei nüa na cama de um desconhecido. — Já acordou? A voz dele parecia normal demais pra situação. E foi ali que minha vida virou de cabeça pra baixo. O desconhecido virou presença constante. Virou rotina. Virou algo que eu nem sei explicar direito quando aconteceu. Virou meu marido. Pai do meu filho. E a pior coisa que podia ter acontecido na minha vida. — Tu é minha agora. Ele disse isso uma vez, segurando meu rosto com força. E eu acreditei. Hoje eu sei que aquilo nunca foi amor. Foi prisão, Foi controle. Foi inferno. Eu vivo um inferno dentro de casa. O Juca é o demônio em forma de gente. Nosso filho tem medo dele. — Sai daqui. Ele fala isso pro Noah como se estivesse falando com um Cachorro Sem carinho. Sem paciência. Meu coração dói toda vez. — Ele é só uma criança, Juca! — Criança nada, esse moleque é doente. Aquilo me corta por dentro. — Não fala assim dele! Mas não adianta. Ele faz questão de me provocar. De mexer comigo. Liga o som alto sabendo que o Noah não suporta barulho. Bate porta, grita, cria um caos dentro de casa. E eu fico ali, tentando proteger meu menino. — Calma, meu amor, mamãe tá aqui. Seguro meu filho enquanto ele tapa os ouvidos e chora. E ainda tem ela, a amante desgraçada a Jordana. E a filha que ele teve com ela. — Tu achou que era a única? Ele disse isso rindo. Ela não dá paz. Colocou a filha na mesma escola do Noah. E um dia, a gente se encontrou lá. — Tá se achando muito, né? — Ela disse, quando me viu saindo da escola. — Vai cuidar da tua vida. Mas não ficou só nas palavras, a discussão virou briga. Na frente de todo mundo. — Vem então! Ela gritou, e eu fui. A gente se pegou de porrada ali mesmo. Até que ele apareceu. — Tu tá maluca? E, como sempre, veio pra cima de mim. — Me larga! Ele me arrastou pra moto, e me levou pra Casa. Entramos gritando, brigando e ele veio pra cima de mim, me bater. Peguei a primeira coisa que vi. Uma faca de pão. — Não encosta em mim. Ele veio, meti a faca no braço dele e abriu na hora, O sangue desceu. Ele me olhou com ódio. E eu não senti medo, eu senti raiva. — Eu te odeio. E eu odeio mesmo. Mas, mesmo assim, eu continuo ali. Porque eu não tenho escolha. Sou obrigada. — Tira a roupa. — Ele manda. E eu tiro. Fico parada. Deixo ele fazer o que quiser. Pra não apanhar. Pra ele não descontar no meu filho, não ameaçar a minha mãe. Meu corpo tá ali, mas eu não tô. Eu me desligo. Olho pro nada, e espero acabar. Depois, eu só respiro. E sigo. Todas as noites, antes de dormir, eu faço a mesma oração. — Deus, me livra dele. — Peço baixo. Peço chorando. — Protege meu filho, me dá uma saída. Mas, lá no fundo, sempre vem o mesmo pensamento. Um que eu nem tenho coragem de falar em voz alta. — Ou então tira ele do meu caminho. Eu não tenho coragem de fazer nada. Mas se um dia alguém fizer. Eu sei que não vou chorar. Porque, pra mim, a morte do Juca é minha liberdade. Chegou a notícia, o Juca tá com a Beatriz. Minha ex amiga. A mesma que acabou com a minha vida. E, dessa vez, não foi por acaso. Foi planejado. A Marisa fez exatamente o que a gente combinou. Chegou na Beatriz, falou do Juca como se ele fosse um príncipe, como se eu vivesse num conto de fadas. Jogou a isca e a cobra mordeu. Eu soube do jeito mais absurdo possível. Minha mãe viu os dois juntos. Ela me ligou na hora, nervosa, tremendo de raiva. — Lívia, tu não vai acreditar no que eu acabei de ver! — O que foi, mãe? — Aquela desgraçada da Beatriz com o nojento do Juca. Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. — Eu já sabia. — Como assim tu já sabia? — ela praticamente gritou — E tu tá calma desse jeito? — Mãe, fica tranquila. — Tranquila nada! Essa garota ainda teve a cara de paü de ir no salão debochar. Senti o sangue ferver, mas segurei. — Não liga pra isso, mãe. — Como não ligar, Lívia? Suspirei, cansada. — Quando ele tá com brinquedo novo, ele me esquece por um tempo. Ficou silêncio do outro lado. — Tu tá falando sério? — Tô. E quem sabe ela não me faz um favor. — Que Favor? — De fazer ele sair de casa. Ou me deixar ir embora com o Noah. Minha mãe não respondeu na hora. Eu sabia que ela entendi. Pra mim, qualquer brecha era uma chance. Só que hoje, passou dos limites. Eu tava em casa, tentando acalmar o Noah depois de uma manhã difícil, quando bateram na porta. Abri. Era a Jordana. Com a filha no colo. Meu corpo travou na hora. — O que tu quer? Ela nem respondeu direito, só foi entrando. — Tô ocupada, preciso que o pai dela fique com a menina. Olhei pra criança, depois pra ela, sentindo a irritação subir. — Aqui não é creche, não. Ela bufou. — Para de graça, Lívia. — A garota não vai ficar aqui. — Vai sim, ele é o pai dela, essa casa também é dela. — O Juca não cuida nem dele mesmo, Jordana. Vai cuidar de criança? Ela revirou os olhos, claramente sem paciência. — Problema teu. E, antes que eu pudesse impedir, ela colocou a menina no chão. A criança começou a chorar na mesma hora. — Ei! — chamei — Volta aqui! Mas ela já tava indo embora. Entrou no carro como se nada tivesse acontecido e foi embora. Me deixou ali, Com uma criança chorando. E o meu filho já ficando agitado com o barulho. — Calma, meu amor. — falei pro Noah, tentando acalmar ele enquanto a menina chorava mais alto. Meu coração acelerou. Aquilo tava virando um caos. Peguei o celular na hora e liguei pro Juca. Chamou algumas vezes até ele atender. — Fala. — A voz dele tava irritada. — Vem pra casa agora. — Pra quê? — A tua amante deixou tua filha aqui! Silêncio. — E eu não quero essa garota aqui. — Tá maluca? — Não tô! Vem buscar tua filha. — Segura essa pörra aí até eu chegar. — Eu não vou segurar nada. Ele desligou na minha cara. Olhei pra menina chorando. Olhei pro Noah, já tapando os ouvidos, nervoso. E senti uma mistura de raiva, cansaço e desespero subir de uma vez.
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