Lívia Narrando
Assim que o Imperador e o Bial foram embora, eu fiquei parada por alguns segundos na sala, tentando processar tudo. Meu coração ainda tava acelerado, mas, pela primeira vez em muito tempo, não era só medo, tinha um pouco de esperança no meio disso tudo.
Peguei o celular e liguei pra minha mãe.
Chamou uma vez… duas…
— Oi, minha filha? — a voz dela veio rápida, preocupada.
— Mãe, aconteceu uma coisa.
— O que foi, Lívia?
Respirei fundo antes de responder.
— A família do Juca veio aqui, me ameaçar. Disseram que eu tenho vinte e quatro horas pra sair de casa com o Noah.
Do outro lado ficou um silêncio pesado.
— Eu sabia. — ela murmurou, a voz já embargada.
— Mas calma — continuei rápido — O Imperador veio aqui em casa.
— Ele foi aí? — ela perguntou, surpresa.
— Veio. Ele disse pra eu subir hoje à noite, que vai resolver isso.
Ela ficou em silêncio de novo, como se estivesse processando.
— Mãe, a senhora pode vir ficar com o Noah enquanto eu vou?
— Posso sim, minha filha. — ela respondeu na hora — Inclusive, eu ia te pedir uma coisa.
— O que foi?
— A dona da quitinete vendeu tudo pra uma construtora, deram ordem de despejo hoje.
Meu coração apertou.
— Como assim, mãe?
— É isso mesmo, eu tenho que sair de lá.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo.
— Então vem pra cá. Pode vir, traz tudo que for seu.
Ela soltou um suspiro.
— Não é muita coisa, filha, só minhas roupas e uns utensílios.
— Não importa — falei firme — Aqui é sua casa também.
— Eu vou arrumar tudo e subo.
— Tá bom, mãe.
Desliguei e fiquei olhando pro celular por alguns segundos.
Mais um problema.
Mas, dessa vez, eu tinha como resolver.
Fui pra cozinha, fiz a janta com calma, tentando manter a cabeça no lugar. Depois fui até a sala e chamei o Noah.
— Filho, vem tomar banho.
Ele nem olhou.
Só balançou a cabeça, negando.
Sorri de leve.
— Tem que ficar cheiroso, a vovó tá chegando.
Na hora ele virou o rosto pra mim.
— Vovó?
— Sim.
Ele levantou rapidinho do sofá, aquilo me fez sorrir de verdade.
Ele é apaixonado pela minha mãe, e ela por ele.
Dei banho nele com calma, respeitando o jeitinho dele, sem pressa. Depois vesti um pijama confortável, sequei o cabelinho dele e levei pra mesa.
— Vem jantar.
Ele comeu tudo direitinho.
Sem dificuldade.
Sem crise, Graças a Deus.
Pouco tempo depois, ouvi o barulho no portão.
— Deve ser a vovó — falei, indo abrir.
Era ela.
Cansada, mas ali.
Abri o portão e abracei forte.
— Entra, mãe.
Ajudei ela com as coisas, levei tudo pra dentro. Não era muita coisa mesmo, e aquilo doeu um pouco.
— Não se preocupa com isso — falei, fechando a porta.
Ela me olhou, ainda preocupada.
— A gente resolve.
— Hoje não — completei — Hoje eu vou ter que subir lá em cima, mas amanhã a gente senta e conversa.
Ela franziu a testa.
— Conversar o quê?
Sorri de leve.
— Sobre a senhora abrir um salão aqui no morro.
Ela arregalou os olhos.
— Eu? Tá maluca, Lívia? Eu não tenho dinheiro pra isso.
Olhei firme pra ela.
— Eu tenho.
Ela ficou em silêncio, me encarando.
Mas eu sei, que dessa vez eu posso fazer algo por nós.
Deixei ela com o Noah e fui pro meu quarto. Tomei um banho demorado, deixando a água cair pelo corpo, levando embora um pouco do peso.
Me arrumei com calma.
Calça jeans cintura alta.
Um cropped simples.
Rasteirinha.
Passei creme no corpo, perfume leve, e só um batom.
Meu rosto ainda tá machucado.
Mas minha alma, essa tá em paz.
Entrei no galpão com o coração acelerado, mas com a cabeça erguida, porque essa noite não era mais sobre medo, era sobre resposta, sobre colocar tudo na mesa e acabar de vez com essa perseguição.
Meus passos ecoavam no chão frio enquanto o Bial abria a porta e eu via aquela cena montada como se fosse um tribunal de verdade, o Imperador sentado na ponta da mesa, imponente, dono de tudo ali, e do outro lado a mãe do Juca, a irmã dele e a Jordana sentadas juntas, como se ainda tivessem alguma força, como se ainda pudessem me intimidar.
Me sentei ao lado do Bial, de frente pra elas, sustentei o olhar da Jordana por alguns segundos e ela tentou manter aquela pose de deboche, mas eu vi o incômodo, vi que ela não tava tão segura quanto queria parecer, então virei o rosto e olhei direto pro Imperador, que já me encarava firme, sério, como se quisesse medir cada detalhe meu antes de falar.
— Quero te ouvir, Lívia — ele disse, com a voz calma, mas carregada de autoridade — Conta tudo.
Respirei fundo, organizei os pensamentos e comecei a falar, sem abaixar a cabeça, sem deixar a voz falhar.
— Hoje mais cedo, a mãe do Juca foi lá em casa com a filha dele — falei, olhando direto — Me deram 24 horas pra sair de lá com o meu filho, disseram que tudo pertence à família deles.
A irmã do Juca tentou abrir a boca, mas antes que qualquer palavra saísse, o Imperador levantou a mão sem nem olhar pra ela.
— Cala a boca.
Na mesma hora ela se encolheu, abaixou a cabeça e ficou quieta, e aquilo me deu ainda mais força pra continuar.
— Disseram também que o meu filho não é neto dela, que ele não é saudável, que a outra criança sim é a neta de verdade.
Senti meu peito apertar, mas não parei, porque eu não ia fraquejar ali.
— Eu entrei pra dentro, liguei pro Bial e pedi ajuda, foi isso que aconteceu.
Quando terminei, o silêncio tomou conta do lugar, pesado, sufocante, e eu fiquei encarando o Imperador esperando a reação dele, porque no fundo tudo dependia daquela resposta.
Ele ficou alguns segundos me olhando, como se estivesse analisando cada palavra, cada detalhe, até que se recostou na cadeira, cruzou as mãos na mesa e começou a falar com uma calma que dava mais medo do que grito.
— Primeiro…
A voz dele ficou firme, dominante.
— O Juca não tem pörra nenhuma.
Na mesma hora eu olhei pras três, a mãe dele levantou o rosto indignada, mas não teve coragem de falar nada.
— A casa é minha — ele continuou, batendo o dedo na mesa — A casa era do comando.
O silêncio ficou ainda mais pesado.
— O carro também é meu, já que aquele verme nunca me pagou um centavo.
A Jordana arregalou os olhos, a irmã dele se mexeu desconfortável na cadeira.
— E eu dei pra Lívia — ele falou, olhando direto pra mim — É um presente meu, pra ela e pro filho dela. Inclusive já mandei passar a casa para o nome dela.
Meu coração disparou naquele instante, mas eu mantive o olhar firme.
Ele então se inclinou pra frente, passando o olhar devagar por cada uma delas, como se estivesse marcando território.
— Agora eu quero saber, quem aqui vai tirar isso dela?
Ninguém respondeu.
Ninguém teve coragem.
A mãe do Juca desviou o olhar, a irmã ficou parada sem reação e a Jordana engoliu seco, perdendo totalmente aquela postura de antes.
Foi naquele momento que eu senti tudo virar dentro de mim, senti , senti que pela primeira vez em muito tempo eu não tô mais sozinha, não tô mais sendo esmagada.
E então eu sorri.
Um sorriso aberto, sem medo, sem vergonha, mostrando tudo.
Um sorriso de vitória.
Porque ali, naquela mesa, na frente de todo mundo, eu entendi de vez que ninguém mais vai me tirar nada.
O Imperador é meu protetor.
Continua...