27 - Tudo meu

1507 Words
Lívia Narrando Continuação... O clima ainda tava pesado naquele lugar, todo mundo reunido, cada um com uma cara, um pensamento, uma intenção diferente. Eu tava quieta, observando, sentindo o peso de cada olhar em cima de mim, mas sem abaixar a cabeça. Eu já tinha passado por coisa demais pra me encolher agora. Foi quando a Jordana pediu a palavra. — Quero falar. Ela disse, cruzando os braços, já com aquele tom atravessado. O Imperador olhou pra ela por alguns segundos e fez um gesto com a mão. — Fala. Ela nem pensou duas vezes. — Não é justo. Falou direto, me olhando com aquele olhar cheio de veneno. — Se ela tá sendo beneficiada, eu também tenho que ser. Respirei fundo, já entendendo onde aquilo ia dar. — A Jade é filha do Juca. Ela continuou. — Tem DNA, tem tudo. Tá registrada no nome dele. Naquela hora eu ri. Não consegui segurar. Uma risada curta, mas cheia de ironia. Todo mundo olhou pra mim. — Qual foi a graça? Ela perguntou, já irritada. Eu levantei o olhar pra ela, calma. — Eu só queria entender uma coisa. — Falei, cruzando as pernas. — Por que tua filha tem exame de DNA? Inclinei a cabeça de leve. — Ele tava desconfiando que o filho não era dele? O silêncio caiu na hora. O rosto dela fechou na mesma hora. — Fica na tua! Ela retrucou, já nervosa. Mas eu não parei. Olhei de canto pro Imperador, que tava me observando, deixando eu falar. — Engraçado. — Continuei. — Eu nunca precisei fazer exame nenhum do Noah. Minha voz saiu firme. — Ele nunca duvidou da paternidade do meu filho. Aquilo bateu, deu pra ver. Ela abriu a boca pra rebater, já pronta pra explodir. — Você… Mas antes que ela continuasse, o Imperador levantou a mão. Na hora, Silêncio. Ninguém ousou falar mais nada. Ele olhou direto pra ela. — Tu não exige nada aqui não, garota. A voz dele saiu calma, mas pesada. — Tenho certeza que tu não é surda. Deu uma pausa. — Tu ouviu quando eu falei que a casa e o carro ficam com a Lívia. Ele apontou de leve na minha direção. — É presente meu pra ela. Aquilo foi direto. Sem espaço pra discussão. Mas a mãe do Juca resolveu se meter. — Mas a Jordana também tem direito! Ela falou, já exaltada. — O salário do Juca tem que ser da Jade. Já que essa daí vai ficar com casa e carro! Eu só observei. Quieta. O Imperador virou o rosto devagar pra ela. — Que salário? Perguntou, seco. Ela travou por um segundo. E ele continuou. — Teu filho morreu sendo um traidor. — A voz dele ficou mais dura. — Foi julgado e executado. O ambiente gelou. — Aqui não tem essa parada de mordomia pra traíra não. Falou sem dó. Ninguém respirava direito. — Eu chamei geral aqui pra dar a letra. Ele olhou ao redor, um por um. — E vou falar uma vez só. O silêncio ficou mais pesado ainda. — Deixem a Lívia e o filho dela em paz. Meu coração bateu mais forte, mas eu mantive a postura. — Porque da próxima vez que ela se queixar. Ele deu uma pausa. E finalizou: — Geral vai rodar nas ideia. Aquilo não era aviso, era sentença. E todo mundo ali sabia disso. Eu fiquei quieta, só observando, mas por dentro, eu tá me achando mesmo. Ele bateu a mão na mesa com força, fazendo todo mundo se calar na hora. — Acabou. Foi só isso que ele disse, mas foi o suficiente pra geral entender que a conversa tinha terminado ali. Ninguém ousou retrucar, um por um foram se levantando e saindo. Eu fiquei por último. Me levantei devagar, olhei pra ele, e mesmo com tudo aquilo, senti que precisava reconhecer. — Obrigada. Falei firme. Ele me olhou por alguns segundos, sem mudar a expressão. — Vai na paz. Assenti com a cabeça, dei um sorrisinho de leve e virei as costas, saindo dali com o coração mais leve do que quando entrei. Fui andando até o carro, sentindo o ar bater no rosto, como se eu tivesse tirado um peso das costas. Quando cheguei, botei a mão na maçaneta, pronta pra entrar. — Tá feliz, né garota? A voz veio carregada de veneno. Fechei os olhos por um segundo, respirei fundo e virei devagar. Jordana. Parada atrás de mim, com aquele olhar atravessado de sempre. — Tá dando pro Imperador? Ela soltou, sem vergonha nenhuma. — Cuidado… se a Clara te pega, ela não vai alisar. Por dentro, aquilo me deu um leve incômodo, mas por fora? Eu sorri, bem debochada. — Aproveita que a gente tá aqui. — Falei, tranquila. — E ele tá lá dentro. Dei um passo na direção dela. — Vai lá e pergunta pra ele. Inclinei a cabeça, mantendo o sorriso. — Ele vai adorar te responder. Ela fechou a cara na hora, e eu ri. Virei de novo pra abrir o carro, como se ela nem existisse mais. Foi quando o Bial apareceu. — Tá tudo certo aqui? Ele perguntou, olhando de mim pra ela. — Tá sim. Respondi de boa, já entrando no carro. Nem dei espaço pra mais conversa. Mas enquanto eu ligava o carro, aquele nome ficou rodando na minha cabeça. — Clara. — Quem será? Murmurei baixo. Deve ser alguma coisa do Imperador. Mulher, ex, amante, sei lá. Suspirei. — Tomara que não venha querer confusão comigo. Falei comigo mesma. — Porque agora eu só quero paz. Olhei pra frente, firme. — Quero viver com meu filho, e com a minha mãe. Chega de guerra, chega de problema que não é meu. Liguei o carro, e na mesma hora já botei um funk estourando. Daqueles bem pesados, só pra sentir o grave bater no peito. Engatei a marcha, passei devagar por elas, e não olhei nem pro lado. Mas o sorriso no meu rosto dizia tudo. Não sou muito de fazer isso não, mas às vezes é necessário. — É bom mostrar que tá mandando. Falei baixo, comigo mesma, enquanto acelerava. Abaixei o som do carro antes mesmo de virar na rua de casa. O grave ainda vibrava baixo, mas eu já fui diminuindo até quase sumir. Meu filho já devia estar dormindo, e eu não gosto de perturbar o soninho dele por nada nesse mundo. Entrei com o carro devagar, botei pra dentro, desliguei tudo e fiquei alguns segundos ali parada, respirando fundo. Era como se eu ainda estivesse digerindo tudo que tinha acontecido. Desci, fechei a porta com cuidado e entrei em casa. Assim que passei pela porta, já vi minha mãe sentada no sofá, com o prato na mão, jantando na frente da televisão. Costume dela desde sempre. Um programa passando, o volume baixo, aquela cena de rotina que, depois de tudo, até me acalmou. — Chegou, filha? Ela perguntou, sem tirar os olhos da TV. — Cheguei. Respondi, indo até ela e me jogando no sofá ao lado. Ela abaixou o garfo e virou o rosto pra mim. — E aí, como foi? Respirei fundo e fui direto. — O Imperador vai passar essa casa pro meu nome. Ela arregalou levemente os olhos. — E o carro também. Completei. — E por sinal, nem era do Juca. Dei um sorrisinho de canto. — É do Imperador. Tudo aqui. Minha mãe sorriu, daquele jeitinho dela, meio satisfeita. — Eu sabia… Ela murmurou. Balancei a cabeça, rindo de leve. — E o cara ainda dizia que era dele. Revirei os olhos. — Mentiroso. Fui contando tudo pra ela, desde a discussão, a Jordana, o que falaram, o que o Imperador decidiu. Minha mãe ficou quieta, só me olhando, prestando atenção em cada detalhe. Quando terminei, ela ficou alguns segundos em silêncio, me analisando de um jeito que já me deixou meio desconfiada. — Lívia… Ela começou. — Toma cuidado com esse Imperador. Franzi a testa na hora. — Cuidado por quê, mãe? Perguntei, virando o corpo pra ela. — Esse homem tem intenção com você. Na hora eu dei uma risada curta, desacreditada. — Intenção em quê? Perguntei. — Olha pra mim, mãe. Mãe atípica, pobre, o que ele ia querer comigo? Ela não riu. Pelo contrário, ficou séria. — Assim você é mãe atípica e pobre. Ela disse devagar. — Mas você é linda. Aquilo me pegou desprevenida. — É talentosa, caprichosa, companheira, leal. Fui ficando quieta. — Suas qualidades superam seus defeitos. Ela continuou. — E ele já deve ter notado isso. Deu uma pausa, me olhando firme. — Por isso eu te digo, filha, abre o olho. Fiquei encarando ela, sem saber o que responder na hora. Um arrepio subiu pela minha nuca. — Pronto. Falei, soltando o ar devagar. — Falando desse jeito até dá medo. Ela deu um sorrisinho de canto, mas não tirou a seriedade do olhar. E eu fiquei ali, pensativa. Porque no fundo… Eu sabia que minha mãe raramente se enganava.
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