Lívia Narrando
Desde que o Juca morreu, eu sabia que não ia ser fácil, mas também não imaginava que ia virar esse inferno todo. A família dele começou a aparecer, como urubu em cima de carniça, achando que eu sou fraca, que vão me pressionar e eu vou abaixar a cabeça.
Primeiro foi a irmã dele.
Mensagem atrás de mensagem.
— Tu acha que vai ficar com tudo?
— Vagabünda, interesseira.
— Tu vai pagar por isso.
Fiquei olhando a tela do celular sem reação no começo. Eu quase nunca tive contato com ela, só via de longe, na rua, e olhe lá. Nem sabia que ela tinha meu número.
Respirei fundo e fiz o que achei melhor.
Bloqueei.
— Não vou perder meu tempo com isso. — murmurei pra mim mesma, jogando o celular de lado.
Achei que ia parar ali.
Mas não parou.
Começou a piorar.
Ela começou a aparecer na frente da escola do Noah.
Na primeira vez, achei que era coincidência. Na segunda, meu coração já apertou. Na terceira, eu tive certeza.
Ela não tava ali por acaso.
E não tava sozinha.
A Jordana tava com ela.
As duas juntas.
Rindo, cochichando, me olhando.
Meu corpo gelou na hora.
Segurei a mão do Noah mais forte, sentindo ele se mexer incomodado.
— Vamos, filho, vamos embora.
Ele me olhou, sem entender, mas veio.
Cheguei em casa tremendo.
Não pensei duas vezes.
Peguei o celular e mandei mensagem pra diretora.
— Meu filho não vai essa semana, depois eu explico melhor.
Ela respondeu com preocupação, mas aceitou.
Joguei o celular de lado e passei a mão no rosto, tentando me acalmar.
— É melhor assim. — falei baixo.
Eu sei que isso prejudica o Noah. Rotina pra ele é tudo.
Mas segurança é mais.
Prefiro ele fora da rotina do que correndo risco por causa dessas duas.
Porque eu sei muito bem o que elas querem.
A casa.
O carro.
O dinheiro.
Mas dessa vez não vão conseguir.
— O Imperador falou que é meu… — murmurei, olhando em volta.
E depois de tudo que eu passei?
Ainda é pouco.
Tinha almoçado, arrumado a cozinha, deixado tudo no lugar. A casa tava silenciosa, só o som da televisão preenchendo o ambiente.
Eu tava deitada no sofá, com o Noah encostado em mim, assistindo desenho.
Ele prestava atenção total, concentrado, como sempre.
Eu, às vezes, nem prestava no desenho, mas gosto de ficar com ele.
É um momento de paz.
Raro, mas necessário.
Passei a mão no cabelinho dele, sentindo ele relaxado, tranquilo e isso me acalma também.
Até que…
TOC TOC TOC.
O barulho no portão veio seco, alto.
Meu corpo travou na hora.
Olhei pro Noah.
Ele nem percebeu.
Respirei fundo, me levantando devagar.
— Fica aqui, filho, a mamãe já volta.
Ele nem respondeu, vidrado no desenho.
Caminhei até a porta com o coração acelerado, cada passo pesado.
Quando cheguei perto do portão, olhei pela grade.
E foi ali que meu estômago revirou.
A mãe e a irmã do Juca.
Paradas ali.
Me olhando.
A irmã com aquele olhar cheio de veneno.
A mãe, fria. Avaliando.
Meu corpo inteiro ficou em alerta. Abri só um pouco, sem dar espaço.
— O que vocês querem?
A irmã deu um sorriso torto.
— A gente veio buscar o que é nosso.
Senti o sangue ferver na hora.
— Aqui não tem nada de vocês.
A mãe dele deu um passo à frente.
— Essa casa é do meu filho.
— Era — respondi, firme. — Agora não é mais.
O clima pesou.
— Tu acha mesmo que vai ficar com tudo? — a irmã falou, já alterada.
Cruzei os braços, sustentando o olhar.
— Acho não, eu tenho certeza.
Ela deu um passo como se fosse avançar, mas eu não recuei.
Por dentro, eu tava tremendo.
Mas por fora? Eu não ia mostrar fraqueza.
Não mais.
Porque agora não era só por mim. Era pelo meu filho.
E por ele, eu enfrento qualquer inferno.
A mãe do Juca me olhou de cima a baixo, com aquele ar de superioridade que me dava nojo, como se eu fosse nada ali na frente dela. Eu já tava com o coração acelerado, mas não abaixei a cabeça.
— Tu vai sair daqui, garota. — ela falou fria — Por bem ou por mäl.
Senti um arrepio subir pela minha espinha, mas fiquei firme.
— Eu não vou sair de lugar nenhum.
A irmã dele soltou uma risadinha debochada, cruzando os braços.
— Melhor sair por bem, a gente tá te dando 24 horas.
— Vinte e quatro horas pra tu sumir com esse moleque — a mãe completou, apontando na direção da casa — E deixar tudo. Isso tudo aqui pertence à família do meu filho.
Aquilo me fez ferver por dentro.
Respirei fundo e encarei ela sem piscar.
— Eu era casada com ele. Mesmo seu filho não valendo nada, a senhora sempre soube disso.
Ela não gostou. Deu pra ver no olhar.
— E o meu filho — continuei, sentindo a voz ficar mais firme — é o herdeiro.
Foi aí que ela deu um sorriso daqueles que cortam.
— Quem te garante que esse moleque é filho do Juca?
Aquilo foi como um tapa na minha cara.
Fiquei sem reação por um segundo.
— Meu filho era saudável.— ela continuou, com desprezo — igual a minha neta, a Jade. Aquela sim é minha neta.
Senti o sangue ferver.
— Já esse aí… — ela olhou na direção da sala, como se estivesse vendo o Noah — eu desconheço.
Meu corpo inteiro travou.
Meu filho. Ela tava falando do meu filho.
Do Noah.
Por ele ser diferente.
Por ele ser autista.
Aquilo me deu um ódio que eu nunca senti na vida.
Olhei bem na cara dela, sentindo os olhos arderem, mas sem deixar lágrima cair.
— Vamos ver então. — falei, com a voz baixa e cheia de raiva — quem vai ficar com a casa, com o carro e com tudo que tem aqui.
Dei um passo pra trás, abrindo mais o portão só o suficiente pra encarar as duas.
— O meu filho, ou a sua neta.
A irmã dele começou a falar alguma coisa, mas eu nem deixei.
— Agora dá licença.
Bati o portão com força na cara das duas.
O barulho ecoou alto, seco.
Elas começaram a gritar do lado de fora, xingando, ameaçando, mas eu nem ouvi direito.
Meu coração tava disparado.
Entrei pra dentro e encostei na porta por um segundo, tentando respirar.
— Calma… calma…
Fui até o sofá e me joguei ali, sentindo as mãos tremerem.
Olhei pro Noah.
Ele continuava assistindo desenho, tranquilo, alheio a tudo.
Ainda bem.
— Graças a Deus. — murmurei.
Peguei o celular com a mão trêmula.
Sem pensar duas vezes, disquei.
Chamou.
Chamou.
Até que atendeu.
— Fala, minha de fé…
— Bial… — minha voz saiu falha — me ajuda.
Não demorou nem dez minutos.
Eu ainda tava sentada no sofá, tentando me acalmar, quando ouvi a buzina da moto do lado de fora. Meu coração deu um pulo na hora.
— É o Bial. — falei baixo, levantando rápido.
Fui até o portão e abri. Ele entrou já olhando pra mim com atenção, como se estivesse conferindo se eu tava inteira.
— E aí, o que aconteceu? — perguntou direto.
Respirei fundo, ainda sentindo o corpo tenso.
— A mãe e a irmã do Juca vieram aqui. — comecei, a voz saindo meio falha — Me ameaçaram. Disseram que eu tenho vinte e quatro horas pra sair daqui com o Noah e deixar tudo pra elas.
O olhar dele mudou na hora. Ficou sério.
— Elas vieram aqui mesmo?
— Vieram, ficaram gritando no portão.
Ele não falou mais nada. Só puxou o celular do bolso e discou rápido, como se já soubesse exatamente o que fazer.
— Fica tranquila — murmurou.
Ele colocou no viva voz.
Chamou uma vez… duas…
Até que a ligação foi atendida.
— Fala.
A voz do Imperador veio do outro lado, pesada, firme. Só de ouvir já dava pra sentir a diferença.
Bial foi direto.
— Chefe, a família do Juca veio aqui na casa da Lívia, ameaçaram ela. Disseram que ela tem vinte e quatro horas pra sair com o garoto.
Teve um silêncio curto.
— Manda a Lívia subir aqui.
Olhei pro Bial na hora, já negando com a cabeça.
— Eu não posso. — falei, me aproximando — Eu não posso levar o Noah. Ele vai ficar assustado, e minha mãe já voltou pra casa dela.
Bial olhou pra mim e respondeu pro telefone.
— Chefe, ela não tem como sair de casa por causa do garoto.
Outro silêncio.
Meu coração começou a bater mais forte.
Até que a resposta veio.
— Tô descendo.
E desligou.
Fiquei parada, olhando pro celular como se não tivesse escutado direito.
— Ele… ele disse que tá vindo? — perguntei, ainda meio sem acreditar.
Bial guardou o celular no bolso, tranquilo.
— Se ele disse que tá, é porque tá.
Meu estômago virou na hora.
— Meu Deus…
Passei a mão no cabelo, andando de um lado pro outro na sala.
— O Imperador tá vindo pra minha casa.
Aquilo parecia surreal.
O dono do morro, na minha casa.
Por minha causa.
Olhei pro Noah, que continuava no sofá, assistindo desenho, completamente alheio a tudo. Aquilo me deu um misto de alívio e desespero.
— Ele nem imagina. — murmurei.
— Fica tranquila — Bial falou, encostando na parede — Se o chefe tá vindo, é porque ele já decidiu resolver.
Assenti devagar, mas por dentro eu tava a mil.
Ansiedade, Medo.
E, ao mesmo tempo. Uma sensação estranha de proteção.
Como se, pela primeira vez em muito tempo. Alguém realmente fosse me defender.
Fui até a janela e olhei pra rua, tentando ver se já tinha algum movimento diferente.
Meu coração não desacelerava.
— Isso não tá acontecendo. — sussurrei.
Mas tava.
E alguma coisa me diz
Que depois de hoje. Nada mais vai ser como antes.