Imperador Narrando
Já tem uma semana que o Juca foi de arrasta, e o morro seguiu como sempre segue, como se nada tivesse acontecido, mas eu sei que certas coisas deixam marca, mesmo quando ninguém fala sobre elas. A Lívia não sai da minha cabeça, e eu nem tento fingir muito que saiu. Não é comum isso comigo, eu sempre fui frio pra essas paradas, mas essa mina, ela é diferente.
— E aí, Bial, alguma coisa dela?
Ele tava encostado ali perto, mexendo no celular, e respondeu na mesma hora.
— Tá tranquila, chefe, ficando mais em casa, cuidando do filho.
Assenti devagar, olhando pro movimento do galpão.
— Não sai muito?
— Quase nada, só o básico mesmo.
Fiquei em silêncio por uns segundos, processando.
— Qualquer coisa tu me fala.
— Pode deixar.
Voltei a prestar atenção no corre, mas a verdade é que minha cabeça não tava cem por cento ali. Eu fico acompanhando de longe, sem aparecer, sem pressionar, deixando ela respirar depois de tudo que passou.
Mas isso não quer dizer que ela tá livre do resto do mundo.
Fiquei encostado na pia, com a xícara de café na mão, olhando pro nada enquanto a cabeça trabalhava. Porque uma coisa eu aprendi nesse corre: problema nunca vem sozinho.
— Isso ainda vai dar mërda.
— Falei baixo, mais pra mim mesmo.
Conheço a família do Juca.
Sei bem o tipo.
— A mãe dele é neurótica.
Balancei a cabeça, lembrando das poucas vezes que vi aquela mulher. Sempre com aquele olhar atravessado, cheia de veneno guardado.
— E aquela marmita dele então. — Soltei um riso curto, sem humor. — Aquilo ali não presta.
Jordana, é problema puro. Do tipo que gosta de confusão, de provocar, de cutucar ferida aberta.
— Essa pörra vai dar B.O.
Apoiei as mãos na pia, respirando fundo.
E no fundo, eu queria que desse mesmo.
Ri de leve, meio incrédulo comigo mesmo.
— Que pensamento födido do Carälho.
Mas era verdade.
Eu queria que desse problema.
Queria que ela viesse atrás de mim de novo.
Queria ver ela entrando naquela garagem, com aquele olhar firme, mesmo quebrada, me pedindo ajuda.
E mais que isso.
Queria resolver.
Queria mostrar que eu resolvo.
Passei a mão no rosto, soltando o ar devagar.
— Tá maluco, pörra.
A mina tem idade pra ser minha filha.
Acabou de ficar viúva de um lixo daquele, saiu de um inferno que durou anos.
E eu aqui pensando mërda.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquilo.
— Se liga, Carälho
Mas não adianta muito.
A imagem dela não saí da minha cabeça.
O olho roxo, o corpo machucado, e mesmo assim, a postura firme. Sem pedir arrego. Sem se fazer de vítima.
Isso não é comum.
— A mina é diferente. — Murmurei, pensativo.
E foi aí que outra coisa me bateu.
— Pra ela, isso foi um presente.
Ficar livre daquele cara.
Foi a melhor coisa que podia ter acontecido.
Mesmo que do jeito mais pesado possível.
Terminei o café num gole só, deixando a xícara na pia com um leve barulho.
Não dava pra ficar ali pensando nisso.
— Bora trabalhar.
Falei comigo mesmo, já saindo da cozinha.
Peguei o caminho do galpão, onde a vida real do morro acontecia. Onde as decisões eram tomadas, onde o corre não parava nunca.
O sol já tava alto, iluminando tudo, trazendo aquele calor que não perdoa.
Os moleques já estavam por lá, cada um na sua função, tudo rodando como tinha que rodar.
E eu precisava focar nisso.
Porque no meu mundo. Se tu vacila na cabeça, tu se perde.
E eu não posso me dar esse luxo.
Mas mesmo andando, mesmo entrando no meio do movimento, mesmo dando ordem, olhando tudo.
Uma coisa continuava ali.
Quietinha.
No fundo da minha mente.
— Lívia…
Soltei o nome baixo, quase sem perceber.
E segui. Tentando trabalhar.
Pra ver se isso saía da minha cabeça.
Tava lá na boca, resolvendo umas paradas, quando o Bial apareceu com uma sacola na mão. Já senti o cheiro de longe, forte, tempero bom, comida de verdade, daquela que bate diferente no estômago.
— Que pörra é essa aí? — perguntei, já curioso.
Ele deu um sorriso de canto, levantando a sacola.
— Passei lá na casa da Lívia, fui ver ela e o moleque. Ela mandou isso aqui pra nós. Disse que é especialista.
— Especialista? — ri, já puxando uma cadeira. — Vamo ver então se essa fama é tudo isso mesmo.
Ele abriu a sacola, tirou uma vasilha, quando levantou a tampa, subiu aquele vapor com cheiro de comida caseira, era panqueca de carne moída, bem recheada, molho vermelho por cima, bem feita.
— Carälho. — falei baixo, já pegando um garfo. — Isso aqui tá bonito, hein.
— Eu falei — Bial respondeu, já se servindo também.
A gente nem ficou de muita conversa não no começo, porque quando a fome bate e a comida é boa, o respeito vem primeiro. Dei a primeira garfada, e foi ali que eu já senti.
— Püta que pariu… — balancei a cabeça, mastigando devagar. — Tá bom pra carälho.
— Né não?
— Se essa mulher tivesse botado veneno aqui. — continuei, puxando mais um pedaço — eu morria feliz, sem reclamar.
Bial caiu na risada.
— Tu é doente, chefe.
— Doente nada, isso aqui é talento.
A gente acabou com a comida em poucos minutos. Não sobrou nada. Nem molho. Passei o garfo até no fundo da vasilha.
— Respeita. — falei, jogando o garfo de lado. — A mina manda bem mesmo.
Depois disso a gente ficou ali trocando ideia, clima mais leve. Coisa rara. Mas durou pouco.
— Ceifador já fez contato — Bial soltou, ficando mais sério. — Tá tudo certo pro resgate.
Endireitei o corpo na hora.
— Quando?
— Amanhã cedo. Na hora da transferência.
Senti aquele negócio subir dentro de mim, adrenalina pura.
— Então é amanhã. — falei, passando a mão na barba. — Ninguém vai me segurar.
— Já tá tudo alinhado. Só chegar e fazer.
Assenti devagar, a mente já trabalhando em mil coisas ao mesmo tempo. Estratégia, risco, saída, tudo.
— Quero todo mundo pronto — falei firme. — Sem erro.
— Pode deixar.
O clima mudou completamente. De comida boa pra guerra em segundos. Normal pra nós.
Foi quando o celular do Bial começou a tocar.
Ele olhou pra tela e levantou a sobrancelha.
— É a Lívia.
Olhei pra ele na hora.
— Atende.
Ele atendeu e já colocou no viva voz.
— Fala, minha de fé.
Do outro lado, a voz dela veio diferente. Não era tranquila como antes. Tava carregada.
— Bial, me ajuda.
Na hora o ar mudou.
Endireitei na cadeira, o olhar travando.
— O que aconteceu? — Bial perguntou, já sério.
Teve um silêncio curto… daqueles que dizem muito mais do que qualquer palavra.
Apertei o punho devagar, sentindo aquele velho conhecido subir de novo.
Problema.
E, pelo jeito…
Problema grande.