22 - Finalmente Livre

1195 Words
Lívia Narrando Quando eu cheguei em casa, a porta já tava só encostada, como minha mãe sempre deixava quando sabia que eu tava pra chegar. Empurrei devagar e entrei, sentindo o corpo cansado, a alma então nem se fala. Ela tava na sala, sentada no sofá, me esperando. Não perguntou nada. Não correu pra cima de mim. Só me olhou. E aquele olhar dizia tudo. Eu não falei nada também. Não tinha força. Não tinha voz. Só caminhei até ela e sentei do lado, devagar, sentindo cada dor no corpo. E então eu deitei a cabeça no colo dela. Foi automático. Como se eu voltasse a ser aquela menina de antes, antes de tudo desandar. E aí eu chorei. Chorei como eu não chorava há muito tempo. Um choro preso, engasgado, que saiu de uma vez só. Meu corpo tremia, meu peito apertava, parecia que eu tava colocando pra fora quatro anos de dor. Minha mãe não falou nada. Só começou a passar a mão no meu cabelo, devagar, com aquele carinho de sempre. Silenciosa. Respeitando meu tempo. E aquilo me desmontou ainda mais. Fiquei ali por um tempo que eu nem sei medir. Só chorando, sentindo o colo dela, tentando respirar no meio daquele turbilhão. Até que, aos poucos, fui me acalmando. Levantei a cabeça, ainda com o rosto molhado, e olhei pra ela. Minha voz saiu falha. — Me perdoa, mãe. Ela franziu levemente a testa, mas ficou em silêncio, me deixando continuar. — Me perdoa pela filha inconsequente, desobediente que eu fui. Engoli seco, sentindo o nó na garganta apertar de novo. — Eu não ouvi a senhora, não segui seus conselhos. — Balancei a cabeça, deixando mais lágrimas caírem. — E olha no que a minha vida se tornou. Uma verdadeira mërda. Respirei fundo, quase sem ar Ela não deixou eu afundar nisso. Na mesma hora, segurou meu rosto com as duas mãos, firme, me fazendo olhar pra ela. — Ei… A voz dela saiu forte, mas cheia de amor. — Eu não tenho o que te perdoar. Porque eu nunca guardei mágoa de você, minha filha. O olhar dela era tão sincero, que doeu. — Você foi sim inconsequente, foi desobediente. Ela suspirou fundo. — Mas você já pagou por tudo isso. A mão dela desceu devagar, tocando meu rosto machucado, com um cuidado que parecia pedir desculpa por mim. — Olha o que aquele homem fez com você. — A voz dela falhou um pouco. — Ele te quebrou inteira, Lívia. Por dentro e por fora. Fechei os olhos por um segundo, sentindo o peso daquelas palavras. Ela respirou fundo, tentando se manter firme. — Eu espero que esse chefe resolva. Abri os olhos de novo, olhando pra ela. — Só assim, minha filha, você vai conseguir viver de verdade com seu filho. O silêncio ficou pesado por alguns segundos. E então eu falei. Baixo, mas firme. — Ele resolveu. Minha mãe me olhou, atenta. — O Juca Foi condenado. Ela arregalou levemente os olhos. — Condenado a quê? Engoli seco, mas não desviei. — À tortura, e à morte. Porque é isso que ele merece. O silêncio caiu sobre a sala. Pesado. Denso. Mas diferente. Não era mais o silêncio do medo. Era o silêncio do fim. Minha mãe me puxou pra ela na hora, me abraçando forte. E eu abracei de volta. Choramos juntas. Mas dessa vez, era diferente. Não era só dor. Tinha alívio. Tinha um pedaço de liberdade ali, nascendo no meio de tudo aquilo. — Acabou. — ela sussurrou no meu ouvido. Apertei ela mais forte. — Acabou, mãe. Fechei os olhos, respirando fundo. Pela primeira vez em muito tempo, eu senti que talvez. A minha vida pudesse recomeçar. Minha mãe foi se deitar, mas eu não consegui. Fiquei ali na sala, sentada no sofá, olhando pro nada. O silêncio da casa parecia gritar dentro da minha cabeça. Cada segundo que passava, a ansiedade só aumentava. Eu precisava saber. Precisava de notícia. Precisava de confirmação. Será que tinha acabado mesmo? Será que, finalmente, eu estou livre? Olhei pela janela e vi o céu clareando aos poucos. O dia amanhecendo, e eu ainda ali, acordada, com o coração inquieto. Não dava mais pra esperar. Levantei, peguei a chave do carro e saí. Subi o morro dirigindo, com a mão firme no volante, mas o peito acelerado. Quando cheguei na casa do Imperador, já percebi que os vapores não eram os mesmos daquela noite. Outros rostos, outros olhares, mas a tensão no ar era a mesma. Parei o carro e desci. — O Imperador tá aí? — perguntei. Um dos meninos me olhou de cima a baixo, avaliando. — Tá. Quer o quê? — Falar com ele. Ele não discutiu. Só pegou o radinho na cintura e chamou. — Chefe, tem uma mina aqui querendo ideia com o senhor. Do outro lado, veio aquela voz rouca, firme, que eu já reconhecia. — Quem é? O menino olhou pra mim. — Qual teu nome? Respondi na hora, sem hesitar. — Lívia. Ele voltou pro rádio. — É a Lívia, patrão. Ficou um pequeno silêncio, e então veio a resposta. — Libera. O portão abriu. Meu coração acelerou. Entrei, passando por eles, sentindo o olhar de cada um nas minhas costas. Caminhei até a garagem. Ele tava lá. De pé. Imponente como sempre. Respirei fundo e me aproximei. — Me desculpa, por vir de novo sem avisar. Ele me olhou, tranquilo. — Fala. Engoli seco. — Eu passei a noite acordada. — Minha voz falhou por um segundo. — Eu preciso de notícia. Olhei direto pra ele. — Eu preciso saber. Ele ficou me encarando por um instante, e então deu um sorriso de lado. Aquele sorriso que não era de felicidade. Era de certeza. — Pode dormir tranquila. Meu coração parou por um segundo. — Aquele lá… Ele inclinou levemente a cabeça. — Nem o espírito de porco sobrou pra contar história. Senti o ar voltar com força pros meus pulmões. — Eu cumpro o que eu prometo. E foi ali. Que eu respirei de verdade. Como se tivessem tirado toneladas das minhas costas. Como se, finalmente eu pudesse existir sem medo. Uma lágrima desceu pelo meu rosto sem que eu conseguisse impedir. — Muito obrigada… Minha voz saiu baixa, carregada de tudo que eu tava sentindo. Olhei pra ele, com sinceridade. — Eu espero um dia poder fazer alguma coisa pelo senhor. Engoli seco. — Como forma de gratidão. Ele balançou a cabeça de leve, simples. — Só vai viver tua vida. A voz dele saiu firme. — Cuida do teu filho. Assenti, sentindo o peito apertar, mas de alívio dessa vez. Ele continuou: — E não deixa de me procurar se precisar de alguma coisa. Olhei pra ele por mais um segundo e sorri. Um sorriso de verdade. Depois de tanto tempo. — Pode me procurar também.— Falei, com um leve tom de gratidão na voz. — Se precisar de mim pra alguma coisa. Ele não respondeu. Só me olhou. Mas eu entendi. Virei, caminhei de volta pro carro e entrei. — Eu estou livre, finalmente. Livre... Encostei a testa no volante e chorei.
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