Capitulo 05

1170 Words
NARRADO POR MARINA GOUVEIA Um homem de aproximadamente cinquenta anos sorria de forma cínica, asquerosamente relaxado na cadeira estofada de veludo escuro. Ele vestia um terno sob medida de um tecido italiano impecável, do tipo que devia custar, no mínimo, o triplo do meu aluguel anual somado com todas as minhas dívidas no Serasa. O cabelo era grisalho, perfeitamente alinhado e cortado em algum salão onde só servem champanhe, exalando um perfume amadeirado caríssimo que tentava, em vão, mascarar a podridão absoluta do seu caráter. Ele ostentava aquela postura prepotente, esparramado no assento com as pernas abertas, ocupando espaço demais, possuindo a aura insuportável de quem tem a certeza patológica de que o mundo inteiro gira única e exclusivamente ao redor do seu próprio umbigo financeiro. Ao lado dele, compondo o cenário deprimente, estavam outros três engravatados. Todos compartilhando a mesma cara de playboys envelhecidos, uma mistura patética de crise de meia-idade com arrogância herdada. Eles exibiam aquelas peles ressecadas e bronzeadas de lanchas, dentes brancos demais de porcelana falsa, e os olhares vazios de quem nunca precisou lutar por um prato de comida ou pegar um ônibus lotado na vida. Todos eles bebendo uísque importado, em dose dupla, com o gelo estalando nos copos de cristal, antes mesmo do horário do almoço começar oficialmente. Um bando de alcoólatras de luxo que a sociedade chama de "investidores". Respirei fundo, engolindo o gosto amargo da exaustão e a vontade de cuspir dentro daquela garrafa de Blue Label, e caminhei até a mesa com a coluna rigidamente ereta. — Pois não, senhor? Em que posso ajudar? — perguntei, mantendo a minha voz em um tom neutro, polido e estritamente profissional. A máscara perfeita de quem é paga para não ter alma. Ele não respondeu imediatamente. O silêncio que se instalou na mesa foi intencional, denso e carregado de uma malícia nojenta. Primeiro, ele me olhou. Mas ele não olhou para o meu rosto. Ele não procurou os meus olhos para estabelecer a comunicação básica entre dois seres humanos. O olhar escroto e predatório dele desceu da minha cabeça como uma lesma imunda e gosmenta rastejando sobre a minha pele. Passou lentamente, de forma deliberada e doentia, pelos meus s***s sob o tecido fino da camisa branca do uniforme. Demorou-se ali por segundos que pareceram horas torturantes, desceu até a curva da minha cintura, avaliou os meus quadris como quem mede o peso da carne em um açougue e, só então, voltou a subir rastejando até o meu rosto. Tudo isso sem a menor vergonha. Sem o menor traço de pudor. Na cara de p*u mais absoluta, cínica e perversa que alguém poderia ter. Ele me dissecou publicamente como se estivesse caminhando em um mercado de escravos a céu aberto, avaliando uma mercadoria na vitrine para decidir se valia a pena o investimento de levá-la para casa, usá-la até o talo e descartar no lixo na manhã seguinte. Aquilo fez o meu estômago embrulhar violentamente. Uma ânsia de vômito ácida, misturada com um ódio tão profundo e obscuro que fez os meus dentes trincarem na raiz, tomou conta de cada célula do meu corpo. A humilhação era física, palpável e sufocante. — Você é nova aqui, princesa? — ele perguntou finalmente, a voz rouca e arrastada de quem fuma charuto cubano, enquanto girava o copo de uísque com uma mão adornada por um relógio suíço e anéis de ouro maciço que batiam contra o vidro do cristal. Mantive a minha expressão completamente congelada. Se ele queria me ver corar ou tremer de vergonha, o desgraçado ia morrer de fome. A minha voz saiu plana, gélida, cortante como uma lâmina de barbear recém-afiada. — Trabalho aqui há quase três anos, senhor. Ele deu um sorriso malicioso, os lábios finos se curvando em uma diversão sádica. Encostou de vez no espaldar da cadeira, abrindo ainda mais as pernas, e me mediu de cima a baixo mais uma vez. — Estranho... Eu com certeza absoluta teria me lembrado de uma coisinha linda e apetitosa como você circulando por aqui, servindo as minhas mesas. Os amigos dele riram. Uma risadinha baixa, rasgada e nojenta. Aquele exato som de hiena no cio que sempre acompanha os babacas corporativos que andam em bando para se sentirem mais homens do que a biologia realmente permitiu. O som reverberou nos meus ouvidos como um insulto direto. Ignorei a provocação rasteira, travei o maxilar até a musculatura doer, e cortei o papo furado da forma mais fria e robótica que o meu autocontrole permitiu. — O senhor deseja fazer algum pedido do cardápio ou prefere pedir a conta? Ele ignorou solenemente a minha tentativa de encerrar a interação. Em vez disso, inclinou o tronco pesado sobre a mesa, apoiando os cotovelos e cruzando os braços sobre a toalha de linho branco. Os olhos dele escureceram, transbordando intenções tão sujas, tão perversas, que eu quase podia sentir o cheiro do esgoto destampado saindo da boca dele. — Talvez. Depende muito do que tem no menu hoje. — Ele umedeceu os lábios. — Você faz atendimento completo? Eu travei. Todos os músculos do meu corpo enrijeceram ao mesmo tempo, como se eu tivesse sido atingida por um raio. Olhei diretamente no fundo dos olhos dele, segurando a bandeja de metal vazia contra o meu estômago com tanta força que os meus braços tremeram e os meus dedos ficaram brancos. Eu estava usando aquele objeto como se fosse o meu único escudo de metal contra aquela escória radioativa. Eu não sou burra. Eu não nasci ontem. Eu conhecia o submundo daquela elite podre que frequentava o L'Étoile. Eu já estava sabendo perfeitamente qual era a daquele lixo desde o estalo de dedos infame. Sabia exatamente para qual esgoto aquela conversa escrota iria escorrer, mas eu queria, eu exigia silenciosamente, que ele tivesse a ousadia, a coragem maldita de verbalizar a merda criminosa que estava insinuando. Eu queria ver até onde a prepotência e a sensação de impunidade dele iam. — Não entendi o que o senhor quer dizer com isso — respondi, o tom de voz perigosamente baixo, quase rasgando a garganta. Ele abriu ainda mais o sorriso asqueroso, mostrando os dentes impecavelmente clareados por procedimentos estéticos caros. A confiança inabalável de um homem branco, rico e nojento que nunca ouviu um "não" na vida inteira e acha que o próprio pênis é um presente de Deus para a humanidade. — Você entendeu perfeitamente, gracinha. Não se faça de desentendida agora, não combina com você. Fica parecendo sonsa. Ele olhou de relance para o meu crachá de plástico vagabundo preso no peito. Depois, desceu o olhar novamente, de forma brutalmente intencional, descarada e agonizantemente lenta, diretamente para o decote discreto da camisa do meu uniforme, despindo-me mentalmente na frente de todos os seus amigos babões. — Eu não tô com fome de comida. Quanto custa para você largar essa bandeja de merda aí no canto e vir sentar aqui na minha perna por cinco minutinhos? A gente negocia o seu "serviço" lá atrás, no particular.
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