Capitulo 3

801 Words
O salão principal do L'Étoile estava entupido até o teto, uma verdadeira panela de pressão psiquiátrica prestes a explodir e respingar caviar e hipocrisia para todo lado. O barulho era insuportável, uma cacofonia escrota de conversas cruzadas sobre mercado financeiro, dividendos milionários e viagens de iate para as Maldivas, enquanto eu passava mentalmente a p***a da minha planilha de gastos para ver se o pacote de macarrão durava até sexta-feira. Talheres pesados de prata autêntica batiam com agressividade contra pratos de porcelana caríssima, e as malditas taças de cristal tilintavam em brindes fúteis que ecoavam alto, perfurando os meus tímpanos sem a menor piedade. O ar condicionado central estava no máximo, na temperatura exata de um necrotério, lançando jatos gélidos que faziam os pelos dos meus braços arrepiarem sob o tecido fino da camisa do uniforme. Mas, ainda assim, o restaurante parecia um formigueiro enlouquecido, fervendo com a arrogância desenfreada e o perfume sufocante e enjoativo de pessoas podres de ricas que tinham a absoluta certeza de que o sol nascia exclusivamente para iluminar o próprio umbigo delas. E a formiga operária aqui não parava um único e maldito segundo. Os músculos das minhas costas, dos meus ombros e dos meus braços queimavam em brasa, sustentando bandejas gigantescas pesando quilos de comida fútil e bebida importada que eu levaria meses de suor, sangue e humilhação para conseguir pagar. Pedidos entrando e saindo em um fluxo frenético, caótico e destrutivo. Comandas de papel se amontoando sem fim no balcão de aço inox da cozinha, sob os gritos histéricos, as panelas voando e os xingamentos do chef executivo que se achava a reencarnação de um deus francês. — Bom dia, senhor. O que vai desejar? — eu recitava, forçando as minhas cordas vocais a soarem aveludadas, engolindo a humilhação diária junto com a saliva que já tinha gosto de bile. Deseja um pouco de noção ou vai só de filé mignon hoje, seu parasita? eu pensava, mantendo o sorriso plástico irretocável. — Deseja mais alguma coisa? Uma água com gás, talvez? — curvando a espinha para executivos de terno que não se davam ao trabalho de levantar os olhos do celular para olhar na minha cara. — Já providencio, senhora, sem problemas. — submissão enlatada, vendida a troco de um salário mínimo para não morrer de inanição debaixo de um viaduto. — Claro, senhor, vou pedir para o chef trocar o prato imediatamente. — paciência mastigada, digerida e cuspida no ralo, porque o infeliz achava que o salmão estava um milímetro fora do ponto. — Obrigada. — a mentira mais cínica, asquerosa e repetida de todo o meu dia. Eu caminhava de um lado para o outro de forma incessante, feito um robô programado para sofrer, equilibrando bandejas de metal brilhante e engolindo sapos do tamanho de pedras pontiagudas, sem parar nem para puxar o oxigênio direito para os pulmões. Quando finalmente consegui desviar o olhar periférico para o relógio enorme, espalhafatoso e ridículo incrustado na parede de espelho do salão, o ponteiro marcava apenas nove e meia da manhã. Puta que pariu. Nove e meia. O desespero bateu forte no fundo do estômago, um buraco n***o se abrindo. Parecia que eu já estava ralando naquele piso encerado havia três encarnações seguidas. Os meus pés já latejavam de forma crônica, os calcanhares esfolados em carne viva, esmagados dentro daquele sapato fechado, sintético e barato que me castigava como lâminas cegas a cada passo que eu dava. E então, como se o universo fosse um sádico filho da p**a querendo testar o meu limite para o homicídio doloso, a primeira humilhação do dia tomou forma. Uma criança mimada da mesa seis, um pequeno hiperativo vestido com roupas de grife que custavam mais que o meu aluguel anual, bateu a mão de propósito e derrubou um copo inteiro de suco de laranja importado bem em cima de mim. Não foi um esbarrão acidental. O pequeno olhou no fundo do meu olho, sorriu com os dentes sujos de croissant e empurrou o vidro. O líquido gelado, absurdamente doce e pegajoso respingou no meu pescoço, sujando a minha camisa branca impecável e colando o tecido úmido diretamente na minha pele e no meu sutiã, escorrendo por dentro da roupa como um lembrete gelado da minha miséria. A mãe da praga. Uma perua esticada, com tanto botox, ácido hialurônico e preenchimento que a pele da testa parecia plastificada, morta e clinicamente incapaz de demonstrar qualquer traço de emoção humana, não abriu a boca para repreender o filho. Ela não esboçou um único e mísero pedido de desculpas. A desgraçada apenas levantou os olhos pesadamente maquiados e olhou para mim com o mais puro, destilado e tóxico nojo, como se eu fosse um pedaço de esterco radioativo que ousou sujar o ar purificado ao redor da mesa impecável dela.
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