Sorri. Um sorriso largo, treinado e vazio. Fechei a cara por dentro, a minha mente doente fantasiando detalhadamente em virar uma jarra inteira de café fervendo na cabeça oca daquela infeliz e afogar o filhote de cruz credo no balde de gelo do champanhe, mas por fora eu segurei a onda. Ameaça de demissão era um luxo que a minha conta bancária zerada e as minhas faturas vencidas não permitiam. Fui até a copa marchando a passos duros, quase rachando o piso, limpei a mancha grudenta do jeito torto que deu, esfregando papel toalha com violência no peito até a pele ficar vermelha e ardendo. Voltei, passei um pano na mesa deles com a postura absolutamente rígida, o maxilar travado, e continuei o meu calvário.
Dez minutos depois, o inferno simplesmente mudou de código postal e foi parar na mesa quatro. Um casal de velhos ricos, prepotentes e com um pé e meio na cova começou a bater boca comigo de forma completamente agressiva. O velho apontava o dedo enrugado e manchado de manchas senis para a minha cara, esbravejando aos quatro ventos que o café expresso gourmet estava supostamente "gelado". O detalhe sutil? A p***a da fumaça espessa e quente estava literalmente subindo da xícara, embaçando o ar entre nós e quase queimando a minha retina. Mas a verdade e as leis da termodinâmica não importavam para aquela corja. Eles só queriam exercer o seu poder miserável sobre alguém que eles consideravam inferior, só para sentirem o sangue bombear naquelas veias entupidas antes do infarto fulminante chegar. Troquei a merda do café fervendo por outro vulcão em ebulição sem discutir uma única vírgula. Continuei o m******e.
Em seguida, a bomba estourou na mesa dez. Um empresário engravatado, com o colarinho apertando o pescoço gordo e o rosto vermelho e inchado de pura presunção, começou a gritar e fazer um escândalo digno de uma criança de quatro anos no meio do salão. O motivo do colapso? O arrombado tinha feito a reserva e exigia sentar perto da janela com vista panorâmica, mas a mesa já estava ocupada por outros clientes que tinham chegado antes. A saliva voava da boca dele enquanto ele ameaçava comprar o prédio inteiro e demitir até as paredes. Chamei o Mauro. O gerente inútil, que adorava bancar o ditador com os funcionários, mas que abanava o r**o e lambia o chão, os sapatos e a sola de quem quer que tivesse um limite alto no cartão de crédito. Ele ajeitou a confusão, tirando os outros clientes de forma humilhante, colocou o cara escroto na mesa exigida, pediu perdão umas dez vezes e resolveu. Continuei andando.
Era sempre assim. O corre era insano, uma verdadeira máquina de moer carne, dignidade e esperança. A fadiga física batia de forma implacável, drenando as energias até a última gota de glicose, me secando por dentro até não sobrar absolutamente nada além de pura exaustão e ódio engarrafado.
Mas a real? O papo mais obscuro e podre de toda essa loucura? O pior daquele maldito trabalho nunca era o esforço físico. Nunca era a bandeja pesada cortando a carne das mãos, a correria alucinante que destruía a minha lombar, ou as horas seguidas sem poder ir ao banheiro. A dor no corpo a gente dopa com relaxante muscular barato, toma um banho quente e resolve apagando num colchão duro de mola vencida.
O que fodia a minha mente de verdade, o que destruía a minha sanidade mental aos poucos e estragava o meu dia de forma permanente e irreparável, eram algumas pessoas. Especificamente um tipo nojento, rasteiro e asqueroso de cliente que nunca, em hipótese alguma, enxergava uma mulher vestida de uniforme como uma profissional prestando um serviço honesto e digno. Enxergavam a gente como um objeto utilitário. Como propriedade comprada. Como um pedaço de carne descartável listado no cardápio de sobremesas, que eles acreditavam fielmente que podiam comprar, assediar, usar e humilhar só porque tinham a p***a de um cartão black sem limite enfiado no bolso do paletó Armani. O olhar predatório descendo pelos meus p****s descaradamente, a invasão de espaço covarde quando eu me inclinava para servir o vinho, a superioridade nojenta pingando de cada palavra mascarada de "educação". Aquilo me causava uma ânsia de vômito tão visceral que a minha garganta fechava.
A manhã se arrastou dolorosamente até eu quase perder a sensibilidade nervosa das minhas pernas. Eu estava cruzando o centro do salão principal, equilibrando uma bandeja enorme de metal maciço lotada de pratos sujos com restos de molhos franceses caros, talheres pesados e taças babadas de vinho tinto, caminhando em direção às portas vaivém da cozinha. Eu estava desesperada por trinta segundos de silêncio absoluto, oxigênio puro e um mísero copo de água da torneira.
Foi quando o meu sangue simplesmente congelou nas veias. Parecia que alguém tinha injetado nitrogênio líquido direto na minha espinha dorsal.
Ouvi o barulho que mais me dava ódio no mundo inteiro. O som universal da arrogância e da falta de berço. O gatilho perfeito que acendia a fúria mais violenta, irracional e instintiva dentro do meu peito.
Estalo de dedos.
Travei a mandíbula com tanta força que os meus dentes molares doeram na raiz. Ignorei. Uma p**a falta de educação do c*****o. Eu não sou nenhum cachorro de madame para ser chamada no estalo. Não sou animal de estimação de burguês, não sou escrava e não atendo por código Morse. Continuei andando, mantendo a cabeça erguida, o pescoço duro e o olhar milimetricamente focado na fresta da madeira da porta à minha frente.
Outro estalo. Muito mais alto. Agudo. Exigente. Carregado com aquela impaciência insuportável, mimada e irritadiça de quem não está acostumado a ouvir um "não" ou a ser sumariamente ignorado na vida.
Continuei caminhando, sentindo a alça do avental repuxar na minha nuca, uma gota de suor frio escorrendo pela minha têmpora. Faltavam só cinco passos para a porta da cozinha. Só cinco passos para eu sumir dali e fugir daquele gatilho antes que eu fizesse uma merda irreparável.
E depois... veio outro estalo. Seco, absurdamente agressivo, cortando o ar pesado do restaurante. E foi seguido imediatamente por um assobio fino e estridente.
O exato tipo de assobio humilhante, baixo e nojento que um desgraçado qualquer usa para chamar um vira-lata sarnento no meio da sarjeta para chutar as costelas dele logo em seguida.
— Ei. Você aí. Garçonete.
O mundo ao meu redor simplesmente parou de girar. A orquestra ridícula de música clássica que tocava no fundo sumiu. O barulho de centenas de talheres e taças desapareceu engolido em um vácuo surdo e denso. Parei estática no meio do salão. Os meus pés cravaram no piso encerado como se tivessem sido brutalmente chumbados no concreto armado. A raiva subiu pela minha espinha como uma labareda de fogo incontrolável, queimando cada terminação nervosa do meu corpo, incendiando o meu cérebro. Apertei as bordas metálicas da bandeja com tanta força, mas com tanta fúria cega contida, que os nós dos meus dedos ficaram completamente brancos, sem circulação, e a chapa grossa de metal chegou a ranger contra a palma da minha mão.
A minha vontade visceral, instintiva e animalesca era virar nos calcanhares e arremessar todo aquele peso brutal, junto com a porcelana e o vidro sujo, diretamente no meio da cara do infeliz. Deixar o instinto assassino tomar o volante. Quebrar o nariz de cartilagem dele, afundar aquele sorriso prepotente para dentro do crânio e deixá-lo sangrando, berrando e engasgando com o próprio dente quebrado no meio daquele salão imaculado. f**a-se as consequências. f**a-se a delegacia. f**a-se o aluguel atrasado.
Respirei fundo. O ar entrou cortando e rasgando os meus pulmões como se eu estivesse inalando cacos de vidro moído. Contei mentalmente até três, lutando uma guerra sangrenta e silenciosa dentro da minha própria cabeça, focando todas as minhas células apenas em não perder a linha ali mesmo. Em não cometer um homicídio doloso com requintes de crueldade usando um prato de porcelana e acabar presa ou morando na sarjeta de vez.
Engoli o meu orgulho. Engoli o nojo absoluto que revirava as minhas tripas e me dava vontade de vomitar.
Soltei a respiração pela boca de forma extremamente lenta e controlada. Afrouxei minimamente a pressão assassina dos meus dedos trêmulos na bandeja e me virei devagar. Apaguei a chama do ódio dos meus olhos e cobri a minha fúria fervente e letal com a minha mais fria, cínica e impenetrável máscara de simpatia corporativa.