Capitulo 2

1050 Words
A única lembrança física que consegui salvar depois do acidente coberto de destroços, metal retorcido e sangue que os arrancou da minha vida em uma noite de chuva torrencial. Passei o polegar sobre o sorriso congelado da minha mãe no papel brilhante. O peito apertou instantaneamente, como se uma prensa de ferro esmagasse as minhas costelas. A saudade é uma doença crônica que nunca diminui. O luto não passa, não ameniza e não te dá trégua. Você apenas aprende a respirar enquanto carrega um buraco n***o devorador no meio do peito. — Mais um dia para o abate... — murmurei para a cozinha vazia, a voz saindo rouca pela falta de uso. — E eu não vou quebrar hoje. Peguei a minha mochila com as alças esgarçadas, vesti um casaco grosso sobre a camiseta desbotada, tranquei a porta com duas voltas na chave e enfrentei a escuridão da rua. O sol ainda não tinha nascido. Para chegar ao restaurante, eu precisava sobreviver a dois ônibus superlotados, sendo esmagada contra pessoas tão miseravelmente exaustas quanto eu, e caminhar quatro quarteirões intermináveis sob uma garoa fina que cortava o rosto. O restaurante ficava numa das regiões mais obscenamente caras da cidade. Um lugar onde um único apartamento custava mais do que eu conseguiria juntar trabalhando arduamente em três encarnações seguidas. Era outro universo. Uma realidade paralela e intocável, construída sobre a ostentação e o egoísmo. Carros importados que custavam milhões paravam na entrada brilhante, enquanto os donos jogavam a chave no peito do manobrista sem sequer olhar para o rosto dele, tratando o funcionário como se ele fosse apenas uma extensão inútil da calçada. Executivos de terno fechavam contratos sujos de corrupção durante o almoço. Mulheres cobertas de diamantes reclamavam com repulsa e histeria porque o vinho francês de mil dólares estava um grau acima da temperatura ideal. E, enquanto isso, eu contava moedas no bolso do casaco para decidir se comprava um pacote de arroz ou se pagava o gás. Era uma piada de mau gosto. Mas eu não tinha tempo para me afogar em autopiedade. Assim que atravessei a pesada porta de serviço, a entrada dos mortais, o cheiro forte de produtos de limpeza industriais misturado ao perfume denso e caro da alta gastronomia tomou conta do ambiente. Não tive tempo nem de registrar a minha digital no ponto biométrico. A voz aguda, autoritária e insuportável do gerente já ecoou pelo corredor de azulejos brancos. — Marina! p***a, você tem relógio?! Nem precisei me virar imediatamente. Sabia que aquele ataque covarde era para mim. Mauro adorava agir como se fosse o dono do restaurante, mas na verdade não passava de um cão de guarda da diretoria, descontando as suas próprias frustrações em quem ele julgava ser inferior e indefeso. — A mesa oito reclamou da p***a do café! A doze quer trocar o vinho porque a safra não agradou! A quinze está esperando atendimento há cinco minutos! Anda logo, garota! Virei-me devagar. Meus sapatos gastos fizeram um ruído surdo e deliberado no chão molhado. Olhei friamente para o relógio da parede, com a lentidão calculada de quem não sente o menor impacto com gritos, e depois cruzei o meu olhar com o dele. Meu turno tinha começado fazia exatos três minutos. Eu ainda nem tinha tirado o meu casaco úmido da garoa. Respirei fundo, sentindo a raiva pulsar nas minhas têmporas, as engrenagens da minha mente girando rápido. Mantive a minha postura absolutamente ereta e o queixo erguido. Eu não iria abaixar a cabeça para um verme arrogante. — Bom dia para você também, Mauro — a minha voz saiu perfeitamente controlada, baixa, mas com um corte afiado e letal que o fez piscar e recuar um milímetro. — O meu turno começou há três minutos. Eu não sou a salvadora da pátria para consertar os erros deixados pela equipe da madrugada e, honestamente, eu sugiro que você diminua o seu tom de voz para falar comigo. Eu não sou surda, não sou a sua propriedade e, principalmente, não sou a sua válvula de escape para o fato de você odiar a própria vida. O rosto dele foi de pálido para um vermelho escuro e manchado na mesma hora, as veias do pescoço saltando em um ódio cego pela afronta direta. Ele odiava, com todas as forças, o fato de eu não me encolher. Ele apontou um dedo curto e trêmulo na minha direção, cuspindo as palavras. — Depois você reclama quando eu digo que você é insubordinada! Você é só uma garçonete, Marina! Coloca a p***a desse avental e vai trabalhar agora, antes que eu te dê uma advertência e te mande para o olho da rua para você morrer de fome! Dei um sorriso. Um sorriso milimetricamente desenhado, que não alcançou os meus olhos, carregado de uma insanidade fria que sempre deixava as pessoas profundamente desconfortáveis. Sustentei o olhar furioso dele, dissecando a covardia que se escondia por trás daquela gritaria. — Me colocar no olho da rua? — Tombei a cabeça ligeiramente para o lado, analisando a figura patética dele. — Mauro, nós dois sabemos muito bem que você não tem autoridade, nem coragem, para demitir o aprendiz da cozinha. Vá procurar um alvo mais fácil para latir e me deixe trabalhar antes que eu perca a paciência que eu não tenho. Sem esperar por uma resposta, virei as costas de vez, deixando-o engasgado com a própria raiva no meio do corredor. Fui até o vestiário úmido, joguei a minha mochila dentro do armário de metal amassado, peguei o meu bloco de pedidos e amarrei o avental preto com força na cintura. Prendi o crachá no peito. Marina Gouveia. Garçonete. Olhei para o meu reflexo no pequeno espelho rachado do vestiário. Olheiras profundas marcavam o meu rosto pálido e cansado. Meus olhos escuros carregavam o peso do mundo, mas também transbordavam uma fúria silenciosa e inabalável. Eu precisava desesperadamente daquele emprego. Precisava dele para não morrer de fome e não acabar dormindo em uma calçada imunda. Mas isso não dava a ninguém o direito de colocar uma bota no meu pescoço. Endireitei os ombros como quem veste uma armadura de chumbo para a guerra. Empurrei a porta vai-e-vem com firmeza e mergulhei de cabeça no caos brutal e elitista do salão principal. Estava na hora do show.
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