NARRADO POR MARINA GOUVEIA Assim que o cano da Glock foi arrancado de dentro da minha roupa, a minha respiração voltou num arquejo curto, sufocado e desregulado. Eu cambaleei para a frente, as pernas bambas, parecendo que tinham virado gelatina pura. O meu corpo inteiro tremia, mas não era mais só pelo pavor do ferro gelado ou pela fúria cega da tentativa de fuga que tinha acabado de ir pelo ralo. Era o choque bruto, a ressaca absurda de uma voltagem que eu nunca, em toda a minha vida de miséria e corre na favela, tinha sentido passar pelas minhas veias. Os capangas tinham sumido da nossa frente como fantasmas, recuando para o breu do corredor por uma ordem muda dele, e o silêncio pesado do escritório caiu sobre mim como uma laje de cimento. Mas eu m*l conseguia processar onde estava. E

