Quando o relógio de ponto finalmente apitou, marcando o fim do meu calvário, eu me arrastei até o vestiário úmido dos funcionários. Arranquei o uniforme manchado e com cheiro de gordura e suor, vestindo a minha calça jeans desbotada e o casaco grosso. Apertei a mochila contra o corpo com uma força possessiva e ganhei a rua. A madrugada já engolia a cidade quando eu pisei na calçada. O ar estava cortante, carregado com aquela garoa fina, gelada e nojenta que penetra nos ossos e transforma o asfalto em um espelho escuro. O contraste entre o bairro nobre onde o restaurante ficava e o lugar para onde eu estava voltando era um soco diário na boca do estômago. Aqui, as ruas eram ladeadas por árvores perfeitamente podadas, câmeras de segurança ostensivas e carros blindados. Caminhei de cabeça

