Gustavo
A manhã avançava sem cerimônia, como se não tivesse testemunhado nada.
O mundo não parou porque quase desmoronamos por dentro.
Esse sempre foi o maior insulto da sobrevivência.
Viktor começou a trabalhar antes mesmo de o sol terminar de subir. Comunicações criptografadas, varreduras de risco, listas de aliados e traidores sendo reescritas em tempo real. O clã Galanis não tinha sido decapitado — mas estava em choque. E isso era perigoso.
Um animal ferido não foge.
Ataca.
Ariston permanecia em contenção, monitorado por duas câmeras e três camadas de segurança que eu mesmo desenhei anos atrás… para me proteger dele. A ironia não passou despercebida.
Mas o verdadeiro campo minado não estava nas paredes.
Estava nos quartos fechados.
Nos silêncios.
Nas decisões que ainda não tinham sido verbalizadas.
Eu senti antes de ouvir.
Selena saiu do quarto pouco depois do meio-dia. Não mudou de roupa. Não amarrou o cabelo. Não tentou se recompor para ninguém. Caminhou pelo corredor como alguém que atravessa um território novo — cautelosa, mas determinada a não pedir permissão.
Ela parou na porta da sala de comando.
— Você prometeu escolher comigo — disse.
Não foi um pedido.
Foi uma convocação.
Fechei o tablet. Levantei.
— Ainda prometo.
Ela entrou e se sentou à mesa como se aquele lugar também lhe pertencesse agora. E talvez pertencesse. Quem sobrevive a uma guerra ganha espaço — mesmo que ninguém conceda.
— Ele vai falar — ela disse. — Mas não do jeito que você espera.
— Por quê?
— Porque homens como ele não confessam. — Seus olhos eram claros, atentos. — Eles reorganizam a narrativa para ainda parecerem necessários.
Eu considerei aquilo.
— Então como você quer fazer?
Ela respirou fundo.
— Quero ouvir tudo. Inclusive o que ele acha que está escondendo. Depois… — ela hesitou — depois eu quero confrontá-lo sozinha.
Viktor levantou o olhar, alarmado.
— Sozinha não é...
— Necessário — ela completou. — Eu preciso saber quem ele foi quando não estava fingindo ser meu salvador.
O silêncio que caiu não foi de discordância.
Foi de reconhecimento.
— Eu vou estar observando — eu disse. — Qualquer sinal...
— Eu sei — ela interrompeu. — Você não vai me abandonar.
Não era cobrança.
Era constatação.
Quando Ariston entrou na sala de interrogatório, não veio algemado. Não porque estivesse livre — mas porque algemas davam a ele algo para culpar. Eu não daria isso.
Ele sentou-se diante de Selena com uma calma quase respeitosa.
— Você cresceu — ele disse.
— Você encolheu — ela respondeu.
Foi o suficiente para desequilibrá-lo.
O interrogatório durou horas. Não em gritos. Não em violência. Em lapsos. Em pausas. Em verdades que escapavam quando ele tentava justificar escolhas imperdoáveis.
Selena não chorou.
Não gritou.
Não pediu explicações emocionais.
Ela fez perguntas estratégicas.
E cada resposta retirava um tijolo da imagem que ele construiu de si mesmo.
Quando terminou, levantou-se sem olhar para trás.
— Você não me salvou — disse na porta. — Você me adiou.
A porta se fechou.
Eu fiquei ali mais alguns segundos, encarando o homem que foi meu pai e o dela de maneiras diferentes… e falhou com nós dois.
— Você perdeu — eu disse. — Não porque caiu. Mas porque ela não precisa mais de você para entender quem é.
Ele não respondeu.
E pela primeira vez… parecia velho.
Naquela noite, Selena e eu ficamos no terraço interno. Não próximos. Não distantes. Apenas ali. Compartilhando o mesmo silêncio consciente.
— Não vai ser rápido — ela disse.
— Nada que valha a pena é.
— E o final feliz? — Ela virou o rosto para mim, um desafio contido no olhar. — Você ainda acredita nisso?
Eu pensei antes de responder.
— Acredito em finais honestos — disse. — Às vezes eles são felizes. Às vezes são calmos. Às vezes só… inteiros.
Ela assentiu.
— Eu posso viver com isso.
Ficamos ali até o frio começar a incomodar. Antes de entrar, ela falou:
— Gustavo?
— Sim.
— Obrigada por não tentar me salvar.
Eu a encarei.
— Obrigado por não me pedir isso.
Ela entrou.
Eu fiquei mais um pouco.
Porque agora eu sabia:
A guerra não tinha terminado.
Mas tinha mudado de forma.
E, pela primeira vez,
eu não estava lutando para sobreviver.
Estava lutando para escolher o que construir depois.