capítulo 18

719 Words
Gustavo Fiquei no terraço mais tempo do que o necessário. Não por estratégia. Por inércia. Quando a porta se fechou atrás de Selena, algo no ar mudou — como se a noite tivesse perdido uma âncora. Eu conhecia aquele tipo de silêncio. Não era solidão. Era contenção. A pausa entre duas decisões grandes demais para serem tomadas de uma vez. Voltei para dentro quando o frio começou a morder. O abrigo estava em estado de vigília permanente: passos baixos, vozes murmuradas, o som distante de teclas e armas sendo desmontadas e remontadas. A guerra tinha entrado numa fase diferente. Menos explosões. Mais cálculo. Passei pelo corredor dos quartos quase sem perceber que parei diante do dela. A porta estava entreaberta. Não ouvi música. Não ouvi choro. Só o som regular da respiração dela. Selena estava sentada na beira da cama, cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar fixo no nada. A luz do abajur desenhava sombras suaves no rosto — linhas que o dia tinha aprofundado. Ela percebeu minha presença sem se virar. — Você anda silencioso demais para alguém que passou a vida fazendo barulho — disse. Entrei. — Aprendi a escolher quando aparecer. Ela inclinou a cabeça, um meio sorriso breve surgindo e desaparecendo como se não tivesse certeza se ainda tinha direito a ele. — Veio me vigiar? — perguntou. — Vim ver se você ainda estava aqui. Ela finalmente me olhou. Havia cansaço. Mas também algo firme. A mesma firmeza que a manteve de pé quando tudo desabou. — E estou — respondeu. — Não inteira. Mas aqui. Assenti. Não me aproximei de imediato. Respeitei o espaço como se fosse uma linha invisível — porque era. Selena não precisava de alguém invadindo. Precisava de alguém que soubesse ficar. — Ele falou mais do que queria — eu disse. — Sempre falam — ela respondeu. — Quando percebem que não estão mais no controle. Silêncio. Ela passou a mão pelo próprio antebraço, um gesto pequeno, inconsciente. Não era frio. Era excesso de coisas que ainda não tinham onde repousar. — Você vai me perguntar se estou bem? — ela provocou, sem dureza. — Não — respondi. — Porque não está. E fingir isso seria insulto. Ela me encarou por um segundo mais longo. Depois soltou uma risada curta. Sem humor. Mas real. — Obrigada. Dei dois passos à frente. Parei a uma distância segura — perto o suficiente para sentir o calor dela, longe o suficiente para não confundir presença com posse. — O que você sente agora? — perguntei. Ela pensou. — Raiva — disse. — Mas não a que destrói. A que organiza. Fez uma pausa. — E você? — Alívio — respondi. — O tipo perigoso. O que faz a gente baixar a guarda cedo demais. Ela se levantou então. Não de forma brusca. Não com intenção clara. Só ficou de pé diante de mim. A proximidade mudou o ar. Sempre mudava. Não havia toque, mas havia consciência. Do espaço. Do risco. Do que não estava sendo dito. — Isso não vai ser simples, Gustavo — ela disse em voz baixa. — Não comigo. Não com o que eu sou agora. — Eu sei — respondi. — Se fosse simples, não estaria aqui. Os olhos dela buscaram os meus. Avaliando. Medindo se aquilo era promessa ou só retórica. — E se eu for difícil demais? — perguntou. Inclinei a cabeça de leve. — Eu não sobrevivi a tudo isso para procurar algo fácil. Por um instante, achei que ela fosse recuar. Em vez disso, ela ficou. Ficou ali, firme, como se estivesse testando o quanto aquele espaço entre nós aguentava antes de explodir. — Boa noite, Gustavo — disse por fim. — Boa noite, Selena. Ela virou de costas, caminhou até a cama. Sentou-se. Não me pediu para sair. Eu fui mesmo assim. Porque fogo e gasolina não precisam se tocar para serem perigosos. Basta estarem no mesmo ambiente. Fechei a porta com cuidado. Do lado de fora, encostei a testa na parede por um segundo — apenas um — e respirei fundo. A guerra tinha mudado de forma. E algo entre nós dois tinha começado a se mover. Não como promessa. Não como fuga. Mas como uma força que exigiria escolha todos os dias. E, pela primeira vez, eu estava disposto a escolher.
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