Gustavo
Fiquei no terraço mais tempo do que o necessário.
Não por estratégia.
Por inércia.
Quando a porta se fechou atrás de Selena, algo no ar mudou — como se a noite tivesse perdido uma âncora. Eu conhecia aquele tipo de silêncio. Não era solidão. Era contenção. A pausa entre duas decisões grandes demais para serem tomadas de uma vez.
Voltei para dentro quando o frio começou a morder.
O abrigo estava em estado de vigília permanente: passos baixos, vozes murmuradas, o som distante de teclas e armas sendo desmontadas e remontadas. A guerra tinha entrado numa fase diferente. Menos explosões. Mais cálculo.
Passei pelo corredor dos quartos quase sem perceber que parei diante do dela.
A porta estava entreaberta.
Não ouvi música.
Não ouvi choro.
Só o som regular da respiração dela.
Selena estava sentada na beira da cama, cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar fixo no nada. A luz do abajur desenhava sombras suaves no rosto — linhas que o dia tinha aprofundado.
Ela percebeu minha presença sem se virar.
— Você anda silencioso demais para alguém que passou a vida fazendo barulho — disse.
Entrei.
— Aprendi a escolher quando aparecer.
Ela inclinou a cabeça, um meio sorriso breve surgindo e desaparecendo como se não tivesse certeza se ainda tinha direito a ele.
— Veio me vigiar? — perguntou.
— Vim ver se você ainda estava aqui.
Ela finalmente me olhou.
Havia cansaço.
Mas também algo firme. A mesma firmeza que a manteve de pé quando tudo desabou.
— E estou — respondeu. — Não inteira. Mas aqui.
Assenti.
Não me aproximei de imediato. Respeitei o espaço como se fosse uma linha invisível — porque era. Selena não precisava de alguém invadindo. Precisava de alguém que soubesse ficar.
— Ele falou mais do que queria — eu disse.
— Sempre falam — ela respondeu. — Quando percebem que não estão mais no controle.
Silêncio.
Ela passou a mão pelo próprio antebraço, um gesto pequeno, inconsciente. Não era frio. Era excesso de coisas que ainda não tinham onde repousar.
— Você vai me perguntar se estou bem? — ela provocou, sem dureza.
— Não — respondi. — Porque não está. E fingir isso seria insulto.
Ela me encarou por um segundo mais longo.
Depois soltou uma risada curta. Sem humor. Mas real.
— Obrigada.
Dei dois passos à frente. Parei a uma distância segura — perto o suficiente para sentir o calor dela, longe o suficiente para não confundir presença com posse.
— O que você sente agora? — perguntei.
Ela pensou.
— Raiva — disse. — Mas não a que destrói. A que organiza.
Fez uma pausa.
— E você?
— Alívio — respondi. — O tipo perigoso. O que faz a gente baixar a guarda cedo demais.
Ela se levantou então.
Não de forma brusca.
Não com intenção clara.
Só ficou de pé diante de mim.
A proximidade mudou o ar. Sempre mudava. Não havia toque, mas havia consciência. Do espaço. Do risco. Do que não estava sendo dito.
— Isso não vai ser simples, Gustavo — ela disse em voz baixa. — Não comigo. Não com o que eu sou agora.
— Eu sei — respondi. — Se fosse simples, não estaria aqui.
Os olhos dela buscaram os meus. Avaliando. Medindo se aquilo era promessa ou só retórica.
— E se eu for difícil demais? — perguntou.
Inclinei a cabeça de leve.
— Eu não sobrevivi a tudo isso para procurar algo fácil.
Por um instante, achei que ela fosse recuar.
Em vez disso, ela ficou.
Ficou ali, firme, como se estivesse testando o quanto aquele espaço entre nós aguentava antes de explodir.
— Boa noite, Gustavo — disse por fim.
— Boa noite, Selena.
Ela virou de costas, caminhou até a cama. Sentou-se. Não me pediu para sair.
Eu fui mesmo assim.
Porque fogo e gasolina não precisam se tocar para serem perigosos.
Basta estarem no mesmo ambiente.
Fechei a porta com cuidado.
Do lado de fora, encostei a testa na parede por um segundo — apenas um — e respirei fundo.
A guerra tinha mudado de forma.
E algo entre nós dois tinha começado a se mover.
Não como promessa.
Não como fuga.
Mas como uma força que exigiria escolha todos os dias.
E, pela primeira vez,
eu estava disposto a escolher.