capítulo 19

1094 Words
Gustavo Dormir foi impossível. Não por medo. Não por vigilância. Mas porque o silêncio tinha mudado de textura. O abrigo nunca foi um lugar de descanso — era um ponto de contenção, uma pausa estratégica. Ainda assim, naquela noite, algo estava diferente. Não era o eco distante da guerra que me mantinha desperto. Era a consciência incômoda de que, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava sozinho dentro da minha própria cabeça. Selena estava ali. Não no quarto ao lado. Não no mesmo espaço físico. Mas presente de um jeito que não obedecia às regras antigas. Levantei antes do amanhecer. Caminhei pelo corredor em silêncio, observando os detalhes que sempre me escapavam quando tudo era urgência. As paredes grossas, pensadas para resistir a explosões. As câmeras discretas. O cheiro metálico constante, mistura de concreto, óleo e algo que só existe em lugares onde decisões difíceis são tomadas. Passei pela sala de comando. Viktor dormia ali mesmo, cabeça apoiada nos braços, o mapa do clã ainda aberto diante dele. Não o acordei. Ele merecia aquelas poucas horas de inconsciência. Fui até a cozinha do abrigo — um espaço funcional demais para ser chamado assim. Preparei café, mais por hábito do que necessidade. Quando me virei, ela estava ali. Selena encostada na porta, braços cruzados, cabelo solto caindo de forma desordenada sobre os ombros. Os olhos atentos, já acordados há algum tempo. — Você anda como se o chão fosse te atacar — ela comentou. — Você aparece como se sempre tivesse estado ali — respondi. Ela inclinou a cabeça. — Talvez eu esteja. Servi uma xícara e deslizei na direção dela sem perguntar. Selena aceitou. Nossos dedos quase se tocaram — quase — e o breve choque de proximidade foi suficiente para acender algo silencioso entre nós. Ela tomou um gole, fez uma careta. — h******l. — Funciona. — É o tipo de coisa que você diz sobre muita coisa, não é? Sorri de lado. — Sobre quase tudo. Ficamos ali, lado a lado, sem pressa. O céu do lado de fora começava a clarear em tons pálidos. Nenhum de nós comentou sobre a noite anterior. Algumas coisas precisavam assentar antes de serem tocadas. — Viktor vai acordar em breve — ela disse. — E quando acordar, vai querer planos. Estratégias. Nomes. — E você? — perguntei. Ela demorou a responder. — Eu quero entender onde eu fico nisso tudo — disse por fim. — Não como peça. Mas como escolha. Virei o corpo para encará-la de frente. — Então vamos falar claro. Ela sustentou meu olhar. — O clã Galanis vai entrar em reorganização forçada — comecei. — Alguns vão resistir. Outros vão tentar barganhar. Seu pai… — parei por um instante — Ariston vai falar. Mas não tudo. Não de uma vez. — Eu sei — ela disse. — Ele só entrega verdades quando não tem mais utilidade escondê-las. — Exato. — Inspirei fundo. — E você não deve nada a esse processo. Pode ir embora quando quiser. As sobrancelhas dela se ergueram levemente. — Você realmente acha isso? — Acho — respondi. — E se não achasse, não valeria a pena continuar. Ela me observou como quem testa a firmeza de um terreno novo. — E se eu ficar? — perguntou. — Então fica por você. Não por mim. Não por vingança. Não por ele. O silêncio que veio depois não foi pesado. Foi denso. Como algo sendo cuidadosamente colocado no lugar certo. — Você mudou — ela disse de repente. — Não — respondi. — Eu parei de fingir que não precisava mudar. Ela sorriu de leve. Um sorriso que não prometia nada, mas também não fugia. — Isso é perigoso — comentou. — Eu sei. Ela apoiou a xícara na bancada e se aproximou um pouco mais. Não o suficiente para tocar. O suficiente para que o espaço entre nós se tornasse consciente demais para ser ignorado. — Eu não sou boa em coisas leves, Gustavo — disse em voz baixa. — Não sei brincar de começo. Tudo em mim vai fundo… mesmo quando eu não quero. — Eu não estou procurando algo leve — respondi. Os olhos dela escureceram levemente. Não de desejo explícito. De entendimento. — E se isso nos destruir? — ela perguntou. Inclinei o rosto na direção dela, sem invadir. — Então que seja depois de termos escolhido entrar — disse. — Não por acidente. Não por carência. Ela fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, havia algo novo ali. Aceitação. Não romântica. Não idealizada. Real. — Eu preciso de tempo — ela disse. — Eu sei. — E espaço. — Eu também. Ela respirou fundo, como se algo pesado tivesse sido retirado do peito. — Então começamos assim — concluiu. — Começamos. O rádio de Viktor apitou naquele momento, quebrando o instante com precisão c***l. — Temos movimento — a voz dele soou pelo comunicador. — Não é ataque. É… repercussão. Selena e eu trocamos um olhar rápido. — O mundo acordou — ela murmurou. — E não gostou do que sonhou — completei. Horas depois, o abrigo estava em atividade total. Mensagens cifradas, pedidos de reunião, ameaças veladas. O nome Galanis tinha voltado a circular — não como autoridade absoluta, mas como um território em disputa. Selena observava tudo de perto. Não interferia. Não opinava sem ser chamada. Mas via tudo. E aprendia rápido. No fim da tarde, quando o caos diminuiu para algo administrável, ela se aproximou de mim novamente. — Você percebeu uma coisa? — perguntou. — Sempre percebo tarde demais — respondi. — Eles não sabem como lidar comigo — disse. — Não sabem se sou fraqueza ou ameaça. — Nem eu sei — admiti. Ela sorriu. — Isso é bom. À noite, quando tudo finalmente desacelerou, voltamos ao terraço interno. O mesmo lugar. A mesma vista limitada do céu. Desta vez, ela sentou-se mais perto. Não encostou. Mas não manteve distância. — Quando isso acabar — ela disse — eu não quero desaparecer. — Nem eu quero que desapareça. Ela virou o rosto lentamente. — Não estou prometendo nada. — Nem eu — respondi. O vento passou entre nós, frio e constante. — Mas estou ficando — ela concluiu. Olhei para frente, para o céu fragmentado pelas paredes do abrigo. — Então ficamos — disse. E, pela primeira vez desde que tudo começou, o futuro não parecia um campo de batalha. Parecia um território difícil. Cheio de riscos. Cheio de escolhas. Mas possível. E isso, para pessoas como nós, já era quase um final feliz em construção.
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