capítulo 12

777 Words
Gustavo O som dos passos inimigos ecoava pelo concreto como tambores de guerra. Cada degrau que eu descia parecia pulsar com a mesma fúria que latejava no meu sangue desde que vi a assinatura do meu pai naquelas ordens de execução. Selena vinha logo atrás de mim — silenciosa, mas não calma. Havia algo diferente no olhar dela agora. Algo quebrado. Algo perigoso. Algo que eu ainda não entendia — mas que reconhecia. Dor. Uma dor tão antiga quanto a minha. — Três sinais térmicos — Viktor repetiu atrás. — Dois na entrada, um se movendo pelo corredor lateral. — Estão sondando — murmurei. — Testando defesas. — Eles não esperavam que você estivesse aqui — Selena completou, a voz baixa, mas firme. — Não esperavam que você soubesse. Soubesse. Sim. A traição. Meu pai. E agora… o passado dela também. Eu ainda conseguia ver o brilho daquela carta amassada na mão dela enquanto descíamos. Algo dentro dela tinha quebrado. E eu não sabia se aquilo a faria mais vulnerável… ou mortal. Quando chegamos ao patamar inferior, o corredor se dividiu em dois. Esquerda — entrada. Direita — armazenamento e ventilação. Um corredor estreito. Piso polido. Iluminação fraca. Perfeito para m***r. — Viktor — ordenei — luzes no modo sombra. Ele apertou o controle que trazia no colete. PLOP. Todas as lâmpadas do subsolo apagaram-se ao mesmo tempo, exceto por fitas discretas de emergência no chão, iluminando só o suficiente para ver sombras e silhuetas. Selena sorriu na escuridão. Ela gostava disso. — Eles vão tentar invadir pela fumaça — Viktor sussurrou. — Forçar vocês a sair. — Eles acham que estou em vantagem lá dentro — rebati. — Mas esse lugar foi construído para me proteger. Eles só estão apressando o próprio funeral. Três passos à frente. Silêncio. Mais dois passos… E então, da esquerda, ouvi o clique suave de um carregador sendo encaixado. Idiota. Apontei a arma e atirei no escuro. PÁ! Um grito abafado. Um corpo caiu. — Um — murmurou Selena, como se estivesse contando comigo. Viktor varreu a lateral com o sensor portátil. — Outro está vindo… rápido. Eu girei para o lado quando vi uma sombra se aproximando. O homem avançou com uma submetralhadora, mas antes que pudesse disparar, Selena saltou à minha frente. Um movimento seco. Uma lâmina brilhando. CRACK. A faca dela entrou na base do pescoço do invasor como se fosse manteiga. Ele caiu sem sequer entender o que o matou. — Dois — ela disse, limpando a lâmina na camisa do homem. Eu a observei por um segundo. A Selena que descia comigo aquelas escadas… …não era a mesma que matava agora. Havia algo novo. Algo que eu ainda não conseguia nomear. Dor? Fúria? Libertação? Ela olhou para mim — e eu vi a resposta. Tudo isso ao mesmo tempo. — Falta um — Viktor avisou. — Ele está atrás da cortina de ventilação — Selena completou antes que Viktor pudesse terminar. — Eu escuto a respiração. Eu virei o rosto para ela. — Como diabos você— Ela ignorou. Caminhou em direção à parede. Puxou a grade metálica com a ponta da faca. A arrancou. E então se inclinou para dentro do vão escuro. — Se eu fosse você, sairia devagar — ela disse num tom quase suave. — Porque se eu entrar aí… você não sai. Nada. Silêncio. E então, de dentro da escuridão: — Eu… eu tenho informação! Típico. Selena riu. Riu de um jeito que fez até meu sangue gelar. — Todos eles dizem isso — ela murmurou. Eu coloquei a mão no ombro dela. Ela não se mexeu. — Deixe ele sair — ordenei. — Quero ouvir o que tem a dizer. Selena respirou fundo, guardou a faca e deu um passo para trás. Um homem rastejou para fora, tremendo. Sujo. Jovem. Completamente aterrorizado. — Eu… eu não sabia que você… que vocês estavam aqui — ele gaguejou. — Eu só sigo ordens! — As de quem? — perguntei, a arma apontada. Ele engoliu seco. Seu olhar tremeu entre mim e Selena. — A… a ordem veio diretamente… diretamente do— Ele não terminou a frase. Porque a cabeça dele explodiu. Um tiro silencioso, vindo de fora. Um sniper. Viktor se jogou para trás. Selena puxou minha camisa, me arrastando para a cobertura. Eu encostei as costas na parede. Porra. — Gustavo — Selena sussurrou, os olhos arregalados. — Isso não é uma equipe de sondagem. — Não — confirmei, respirando fundo. A mão dela apertou meu braço. — Isso é execução. Meu pai não mandara três homens para m***r. Mandara três para abrir caminho. E agora… Agora o resto estava chegando.
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