Gustavo
O som dos passos inimigos ecoava pelo concreto como tambores de guerra.
Cada degrau que eu descia parecia pulsar com a mesma fúria que latejava no meu sangue desde que vi a assinatura do meu pai naquelas ordens de execução.
Selena vinha logo atrás de mim — silenciosa, mas não calma.
Havia algo diferente no olhar dela agora.
Algo quebrado.
Algo perigoso.
Algo que eu ainda não entendia — mas que reconhecia.
Dor.
Uma dor tão antiga quanto a minha.
— Três sinais térmicos — Viktor repetiu atrás. — Dois na entrada, um se movendo pelo corredor lateral.
— Estão sondando — murmurei. — Testando defesas.
— Eles não esperavam que você estivesse aqui — Selena completou, a voz baixa, mas firme. — Não esperavam que você soubesse.
Soubesse.
Sim. A traição. Meu pai.
E agora… o passado dela também.
Eu ainda conseguia ver o brilho daquela carta amassada na mão dela enquanto descíamos.
Algo dentro dela tinha quebrado. E eu não sabia se aquilo a faria mais vulnerável… ou mortal.
Quando chegamos ao patamar inferior, o corredor se dividiu em dois.
Esquerda — entrada.
Direita — armazenamento e ventilação.
Um corredor estreito. Piso polido.
Iluminação fraca.
Perfeito para m***r.
— Viktor — ordenei — luzes no modo sombra.
Ele apertou o controle que trazia no colete.
PLOP.
Todas as lâmpadas do subsolo apagaram-se ao mesmo tempo, exceto por fitas discretas de emergência no chão, iluminando só o suficiente para ver sombras e silhuetas.
Selena sorriu na escuridão.
Ela gostava disso.
— Eles vão tentar invadir pela fumaça — Viktor sussurrou. — Forçar vocês a sair.
— Eles acham que estou em vantagem lá dentro — rebati. — Mas esse lugar foi construído para me proteger. Eles só estão apressando o próprio funeral.
Três passos à frente.
Silêncio.
Mais dois passos…
E então, da esquerda, ouvi o clique suave de um carregador sendo encaixado.
Idiota.
Apontei a arma e atirei no escuro.
PÁ!
Um grito abafado.
Um corpo caiu.
— Um — murmurou Selena, como se estivesse contando comigo.
Viktor varreu a lateral com o sensor portátil.
— Outro está vindo… rápido.
Eu girei para o lado quando vi uma sombra se aproximando.
O homem avançou com uma submetralhadora, mas antes que pudesse disparar, Selena saltou à minha frente.
Um movimento seco.
Uma lâmina brilhando.
CRACK.
A faca dela entrou na base do pescoço do invasor como se fosse manteiga.
Ele caiu sem sequer entender o que o matou.
— Dois — ela disse, limpando a lâmina na camisa do homem.
Eu a observei por um segundo.
A Selena que descia comigo aquelas escadas…
…não era a mesma que matava agora.
Havia algo novo.
Algo que eu ainda não conseguia nomear.
Dor?
Fúria?
Libertação?
Ela olhou para mim — e eu vi a resposta.
Tudo isso ao mesmo tempo.
— Falta um — Viktor avisou.
— Ele está atrás da cortina de ventilação — Selena completou antes que Viktor pudesse terminar. — Eu escuto a respiração.
Eu virei o rosto para ela.
— Como diabos você—
Ela ignorou.
Caminhou em direção à parede.
Puxou a grade metálica com a ponta da faca.
A arrancou.
E então se inclinou para dentro do vão escuro.
— Se eu fosse você, sairia devagar — ela disse num tom quase suave. — Porque se eu entrar aí… você não sai.
Nada.
Silêncio.
E então, de dentro da escuridão:
— Eu… eu tenho informação!
Típico.
Selena riu.
Riu de um jeito que fez até meu sangue gelar.
— Todos eles dizem isso — ela murmurou.
Eu coloquei a mão no ombro dela.
Ela não se mexeu.
— Deixe ele sair — ordenei. — Quero ouvir o que tem a dizer.
Selena respirou fundo, guardou a faca e deu um passo para trás.
Um homem rastejou para fora, tremendo.
Sujo.
Jovem.
Completamente aterrorizado.
— Eu… eu não sabia que você… que vocês estavam aqui — ele gaguejou. — Eu só sigo ordens!
— As de quem? — perguntei, a arma apontada.
Ele engoliu seco.
Seu olhar tremeu entre mim e Selena.
— A… a ordem veio diretamente… diretamente do—
Ele não terminou a frase.
Porque a cabeça dele explodiu.
Um tiro silencioso, vindo de fora.
Um sniper.
Viktor se jogou para trás.
Selena puxou minha camisa, me arrastando para a cobertura.
Eu encostei as costas na parede.
Porra.
— Gustavo — Selena sussurrou, os olhos arregalados. — Isso não é uma equipe de sondagem.
— Não — confirmei, respirando fundo.
A mão dela apertou meu braço.
— Isso é execução.
Meu pai não mandara três homens para m***r.
Mandara três para abrir caminho.
E agora…
Agora o resto estava chegando.