Capítulo 13

688 Words
Gustavo O sangue ainda respingava no chão quando o impacto do tiro silencioso chegou ao meu ouvido como um sussurro mortal. Podia sentir a vibração dele na parede atrás de mim, uma assinatura invisível, limpa, precisa. Um sniper experiente. Não um mercenário qualquer. Selena estava pressionada ao meu lado, a respiração dela quente contra minha mandíbula. Ela não estava com medo. Ela estava calculando. E isso, paradoxalmente, me deixou ainda mais alerta. — Eles já sabiam da ventilação — ela murmurou, tão baixo que só eu e o concreto ouvimos. — Não vieram às cegas. Alguém mapeou isso. Viktor engoliu seco. — Isso não faz sentido… o acesso aos subterrâneos é restrito. Gustavo, só quarenta pessoas têm as plantas daqui e— — Menos — eu cortei. — Três têm as plantas verdadeiras. Duas têm as modificadas. A maioria nem sabe que esses túneis existem. Selena virou o rosto para mim. — Então alguém da sua lista curta está vendendo informações. Eu fechei a mão em punho. O gosto amargo da traição subiu pela garganta como ferro quente. — Não agora — murmurei. — Agora a gente precisa sobreviver. Um segundo tiro atingiu a quina da parede, arrancando um pedaço de concreto a centímetros do braço de Viktor. — Sniper na diagonal superior — Selena disse imediatamente. — Talvez no duto de manutenção do andar térreo. Distância: uns trinta metros. Ângulo: quarenta graus. Arma com supressor. Viktor piscou. — Como você sabe isso? — Ele parecia genuinamente assustado. Selena não respondeu. Ela apenas sabia. E eu comecei a entender que o que haviam feito com ela… não era só condicionamento psicológico. Era algo mais profundo. Físico. Treinado até o osso. — Eles vão descer — continuei. — O sniper está só prendendo a gente aqui. Querem nos forçar a recuar para o corredor interno. Selena franziu o cenho. — E por que fariam isso? — Porque lá só tem uma porta — respondi. — Uma porta… e uma granada sonora seria suficiente para cegar, atordoar e— Explosão. Não onde eu esperava. Mas acima de nós. O teto tremeu como se algo tivesse sido arrancado à força. Poeira caiu sobre nossas cabeças. Viktor quase perdeu o equilíbrio. — Eles estão entrando pelo nível intermediário! — ele gritou. — COMO ELES— — Cúmplice interno — Selena sussurrou. — Alguém abriu o acesso. Eu puxei ela e Viktor mais para dentro da sombra, enquanto outra explosão abriu uma rachadura vertical na parede lateral. Dessa vez, a voz que ecoou não era de um dos homens. Era uma voz amplificada por alto-falante. Mas pessoal. Íntima. Conhecida. — Gustavo. — O som atravessou o concreto como se estivesse falando diretamente dentro da minha mente. — Abra passagem. Eu só quero conversar. Selena ficou rígida. Viktor deixou o scanner cair. Meu sangue gelou. Aquela voz… Eu não ouvia há anos. E não deveria estar ali. — Quem… quem é esse? — Viktor balbuciou. Eu senti minha visão afunilar. O ar pareceu mais pesado. Percebi a mão de Selena pousar no meu antebraço, firme, como se tivesse entendido antes mesmo de eu dizer. A voz repetiu, mais clara: — Filho. — Abra a porta. Selena se virou para mim devagar. O olhar dela era uma mistura de incredulidade e puro terror — não pelos invasores. Mas pelo que isso significava. Meu pai. Vivo. No subsolo. Com uma equipe de execução. Pedindo passagem. Eu finalmente consegui responder, minha voz baixa, rouca, carregada de séculos de rancor que eu nunca soube que tinha: — Ele veio me m***r pessoalmente. Selena apertou mais o meu braço. E pela primeira vez desde que a conheci… …eu vi medo nos olhos dela. Medo por mim. — Gustavo — ela disse, quase um aviso. — Se ele está aqui… é porque tudo que você descobriu hoje… Eu completei a frase, sentindo meu coração bater como uma arma prestes a disparar: — …é só o começo. E então uma sombra enorme projetou-se no corredor à frente. A porta de aço começou a se abrir sozinha. Com um estalo que soou como o destino se partindo ao meio. Seu pai entrou.
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