Gustavo
O cheiro de gasolina queimando grudou na minha garganta.
Eu observava o fogo devorar o caminhão — e os corpos dentro dele — enquanto o mundo parecia retomar o fôlego que havia perdido minutos antes.
Viktor mancava em minha direção, a camisa rasgada e o sangue escorrendo do ombro.
— Jogaram quente demais — resmungou. — Isso não foi ataque improvisado. Foi emboscada.
Eu sabia.
O tipo de emboscada que só acontecia quando alguém vendia informação.
Informação cara.
Informação precisa.
Me virei para Selena.
Ela continuava em pé, séria, imóvel, observando as chamas como se tivesse visto aquela cena milhares de vezes.
E talvez tivesse.
— Você disse que eles iam tentar de novo — falei.
— Eu disse que não parariam até te apagar — ela corrigiu, sem olhar para mim. — Uma vez que você fosse eliminado, o resto da sua família cairia como dominós.
Viktor bufou.
— Então nos explique: por que diabos eles atacaram hoje? Quem vazou a informação?
Selena finalmente desviou os olhos do fogo.
E quando olhou para Viktor, houve algo… afiado… naquela expressão.
— Vocês não têm um traidor — disse ela. — Vocês têm vários.
Um silêncio pesado caiu entre nós.
Eu cruzei os braços.
— Fala direito.
Selena respirou fundo, como se estivesse prestes a abrir a porta de um quarto que ela jurou nunca mais visitar.
— O clã Galanis se dividiu em duas facções depois que você foi exilado — ela explicou. — A parte que te queria morto cresceu. A outra… morreu junto com as pessoas que tentaram te proteger.
Minha mandíbula enrijeceu.
Viktor fechou a cara.
— Diga nomes, garota.
— Ainda não — ela respondeu. — Não confio em vocês o suficiente.
Viktor avançou um passo, mas eu levantei a mão e ele parou.
Eu estava cansado de meia-verdades.
De ameaças veladas.
De jogos sujos.
— Selena… — minha voz saiu baixa, fria — se você quer ficar viva, vai ter que começar a falar.
Ela levantou o queixo.
— Eu vou. Mas não aqui.
Os olhos dela cortaram os meus.
— Aqui está cheio de cadáveres… e de rastros. Meus inimigos não deixam rastro sem vir buscar o resto.
Viktor praguejou.
Eu respirei fundo. O gosto de sangue ainda estava na minha boca.
— Para onde vamos? — perguntei.
Ela hesitou por meio segundo — e percebi.
Selena tinha medo.
Medo real.
Não de mim, nem do Viktor.
Mas do que vinha atrás dela.
— Não podemos ir para a sua base — ela disse. — Não está segura.
Virou-se para mim, aproximando-se demais.
— Eu conheço um lugar. Mas você precisa confiar em mim.
Eu ri. Um riso curto, seco.
— Confiar em você? — repeti. — Depois de quase morrer por causa da sua visita surpresa?
Ela não piscou.
— Se eu quisesse te m***r, já teria feito.
Viktor bufou.
— Você se acha tão perigosa assim?
Selena deu um passo para ele.
E naquele instante — rápido como uma cobra — ela pegou a pistola dele, girou no ar e apontou para sua testa.
Viktor congelou.
Eu também.
Ela devolveu a arma em seguida, como se nada tivesse acontecido.
— Não acho — disse ela, calma. — Eu sei.
Meu peito ferveu com algo entre irritação e… fascínio.
— Vamos — falei. — Antes que cheirem esse incêndio.
Selena caminhou até mim, o rosto iluminado pelas chamas atrás.
— Gustavo?
— O quê.
— Depois que chegarmos lá… — ela disse, a voz baixa e carregada de uma verdade que parecia pesar anos — eu te conto tudo.
Eu segurei o queixo dela.
Não como carinho.
Mas como desafio.
— Espero que sim. — Me inclinei. — Porque se não contar… eu descubro sozinho.
Os olhos dela brilharam.
— Eu sei.
Soltei meu toque.
E juntos, entramos no carro de reserva, deixando o fogo e os mortos para trás.
A guerra havia começado.
Mas agora…
Agora tinha direção.
E um nome que eu ainda não ousava dizer em voz alta.