Gustavo
O silêncio dentro do carro era espesso, como fumaça antes do incêndio.
Selena observava a estrada pela janela, mas os olhos dela… estavam em outro lugar.
Ou melhor: em outro tempo.
Viktor dirigia como um fantasma, sem olhar para trás, mas eu sabia que ele me estudava pelo retrovisor. A tensão no ar estava tão viva que parecia respirar conosco.
— Você acredita nela? — ele murmurou, grego carregado no sotaque.
— Não — respondi.
E era verdade.
Eu não acreditava.
Mas eu sentia.
E aprendera, no pior jeito possível, que sentir era às vezes mais letal do que ver.
Eu estava prestes a falar mais alguma coisa quando tudo aconteceu de uma vez.
O farol de um caminhão surgiu de lado — rápido demais.
Viktor gritou meu nome.
Selena prendeu a respiração.
E então—
BOOM!
O impacto atingiu o carro como um soco de ferro.
O mundo virou.
Vidro explodiu.
Metal gritou.
A escuridão engoliu tudo.
O carro rodou três vezes antes de parar de cabeça para baixo.
Meu ouvido zunia.
Meu braço ardia.
Mas eu estava vivo.
Vivo o bastante para ouvir a segunda explosão — um tiro — bem ao lado.
— Abaixa a cabeça! — Selena gritou.
Ela se jogou sobre mim antes que o vidro estourasse acima da minha cabeça. Por um segundo, senti o cheiro dela — maresia e sangue — mas não tive tempo de pensar nisso.
Porque três homens saltaram do caminhão.
Armas grandes.
Rostos cobertos.
Movimentos profissionais.
— São os mesmos — Selena sussurrou. — Eu reconheço eles.
Mesmo no caos, algo dentro de mim congelou.
— Os mesmos que…?
— Que estavam no dia do atentado contra você.
Meu estômago virou ferro.
Viktor puxou sua pistola e atirou ainda preso ao cinto. Acertou um, mas os outros dois revidaram.
O carro virou peneira.
Eu agarrei Selena pela cintura e arrastei-a para fora, ainda tonto. Rolamos pelo asfalto, protegidos por uma pilha de caixas caídas do caminhão.
O barulho de tiros ecoava pelo galpão abandonado perto da estrada.
— Eles sabem que você está comigo — ela disse, ofegante. — O plano sempre foi esse. Te isolar. Te enfraquecer.
— Eles não me conhecem, então — rosnei.
Puxei minha arma.
Engoli a dor.
E voltei a ser o homem que haviam tentado m***r.
Saltei da cobertura e corri até um dos atacantes.
Um disparo.
Dois.
Três.
O corpo caiu aos meus pés.
O segundo veio por trás.
Eu me virei a tempo de desviar e cravar o punho na garganta dele. Selena, rápida como um raio, pegou a arma do chão e atirou no joelho do homem.
Ele caiu berrando.
Eu segurei o cabelo dele e encostei a arma na cabeça.
— Quem mandou vocês? — perguntei, voz baixa, fria, perigosa.
O homem tossiu sangue.
— Galanis…
Meu nome queimou no ar.
— Digam qual Galanis — Selena exigiu, arma firme nas mãos.
O homem riu — um riso curto, vazio, condenado.
— O único que sempre quis sua morte…
Meu dedo apertou o gatilho.
A bala atravessou o crânio dele.
Silêncio.
Selena e eu ficamos ali, ofegantes, cobertos de poeira e sangue, o caminhão ainda queimando atrás de nós.
Ela ergueu os olhos para mim.
— Agora você acredita em mim?
Eu encarei o fogo refletido nos olhos azuis dela.
E pela primeira vez desde que deixei a Grécia, senti algo dentro de mim acordar.
Algo antigo.
Algo violento.
— Acredito — respondi.
— E agora… nós vamos m***r todos eles.
Selena sorriu.
Um sorriso que prometia vingança, morte e uma aliança feita no inferno.
E eu soube, naquele instante:
A guerra tinha começado.