Narrado por Sofia
Sentei-me na beira da cama, olhando para Luiza, que dormia tranquila, sem nem imaginar o caos que estava tomando conta de mim. Minha cabeça estava a mil, girando em torno da mesma pergunta: Como eu vou pagar por tudo isso?
Eu já não tinha muito dinheiro, e agora, com um tratamento de câncer pela frente, tudo ficaria ainda mais difícil. Fechei os olhos, tentando segurar a onda de desespero que ameaçava me engolir.
Nos Estados Unidos, saúde nunca foi algo acessível para todos. Claro, existem hospitais públicos, programas de ajuda para quem tem baixa renda, mas nada disso garante um tratamento adequado, rápido e eficaz. O sistema de saúde aqui funciona de maneira c***l para quem não tem dinheiro suficiente. Um tratamento como o meu, incluindo quimioterapia, exames, consultas médicas… tudo isso custa caro. Muito caro.
Nos últimos anos, eu consegui pagar um seguro de saúde básico, mas ele não cobriria tudo. Haveria custos extras, remédios, despesas que eu nem conseguia imaginar agora. E, além disso, ainda tinha a casa, as contas, a alimentação… e Luiza. Minha filha precisava de mim. Ela precisava que eu estivesse bem.
Engoli em seco e senti meus olhos arderem. Peguei Luiza no colo, abraçando seu corpinho pequeno e quentinho contra mim. O medo bateu com força. O que aconteceria com ela se eu não conseguisse vencer essa doença? Quem cuidaria dela? Samara tinha prometido estar ao meu lado, mas eu não queria que minha filha crescesse sem mãe.
— Meu amor, o que vai ser da gente? — sussurrei contra seus cabelos, sentindo o aperto no peito se intensificar.
As lágrimas caíram sem que eu conseguisse segurá-las. Eu não queria chorar, não queria me sentir fraca, mas era impossível. A sensação de impotência era esmagadora.
Foi então que, como uma maldição, um nome veio à minha mente. Edward.
Odiava até mesmo pensar nele, mas naquele momento, era inevitável. Ele era o pai de Luiza.
Se ele soubesse que ela existia, será que ele ajudaria? Não! Afastei o pensamento imediatamente. Edward não era um homem bom. Ele nunca seria um pai para minha filha. Ele provou isso da pior maneira possível.
Fechei os olhos e respirei fundo, deixando que as memórias me invadissem.
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Eu morava em Chicago, uma cidade grande e movimentada, cheia de luzes e prédios altos. Lá, eu trabalhava como atendente em uma empresa administrativa. O salário não era dos melhores, mas me permitia pagar minhas contas e sonhar com um futuro melhor.
Foi lá que eu conheci Edward Lancaster.
Ele era um dos clientes mais importantes da empresa, dono de uma rede de hotéis luxuosos espalhados pelo país. Desde o primeiro momento em que nos vimos, senti sua presença esmagadora. Ele era um homem atraente, charmoso e extremamente sedutor. Mas, acima de tudo, era um homem que sabia exatamente como manipular alguém.
Edward começou a me notar, a me olhar de uma maneira que me fazia sentir especial. Aos poucos, ele me conquistou com palavras doces, presentes inesperados e promessas vazias. Ele me fez acreditar que eu era única, que ele se importava comigo.
Nós começamos a sair às escondidas. O que começou como encontros ocasionais logo virou um namoro. Pelo menos, foi assim que eu enxerguei. Dois anos. Durante dois anos, eu vivi uma mentira. Achei que Edward me amava, que, de alguma forma, nosso relacionamento poderia evoluir para algo mais sério.
Então, veio o dia em que descobri que estava grávida.
Lembro-me perfeitamente da felicidade que senti. Eu estava radiante, nervosa, mas cheia de esperança. Eu imaginei que Edward ficaria feliz, que ele assumiria a responsabilidade e construiríamos uma família juntos.
Mas o que aconteceu foi exatamente o oposto.
Quando contei a ele, com um sorriso no rosto e o coração acelerado, seu semblante mudou completamente. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, e então, com a frieza de quem não tem alma, disse:
— Eu sou casado.
Aquelas três palavras me atingiram como uma faca no peito. Eu pisquei algumas vezes, achando que tinha ouvido errado.
— O quê?
— Eu sou casado, Sofia. E não vou largar minha esposa para ficar com você.
Senti o chão sumir. Como eu pude ser tão cega? Como não percebi que todo aquele tempo eu não passava de um passatempo para ele?
Eu quis gritar, quis perguntar por que ele fez isso comigo, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele continuou:
— Você tem que abortar esse bebê. Eu não posso ter um filho fora do meu casamento. Isso destruiria minha vida.
A dor que senti foi indescritível. Meu peito apertou, minhas mãos tremeram, e o gosto amargo da decepção subiu à minha garganta.
— Você quer que eu mate o nosso filho? — minha voz saiu fraca, quase inaudível.
Edward suspirou, irritado. Ele tirou um envelope do bolso e o colocou sobre a mesa.
— Aqui está o dinheiro. Faça o que tem que ser feito.
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Aquele homem que eu amei, com quem sonhei construir uma vida, estava me pagando para tirar a vida do nosso bebê.
Peguei o envelope com as mãos trêmulas. Olhei para o dinheiro dentro dele e, naquele momento, tomei minha decisão. Eu nunca mais queria ver Edward na minha vida.
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Com aquele dinheiro sujo, eu comprei uma passagem de ônibus e fugi de Chicago. Não sabia para onde ir, apenas que precisava ir para longe. Escolhi Indianápolis, uma cidade menor, onde eu poderia começar do zero.
Foi ali que recomecei minha vida.
Com muito esforço, consegui um emprego simples em um escritório. Trabalhei duro, economizei cada centavo e, com a ajuda de Samara, consegui me manter de pé. Luiza nasceu saudável, e desde o primeiro momento em que a segurei nos braços, soube que fiz a escolha certa.
Ela era meu mundo, minha razão de viver.
Nunca mais procurei saber de Edward. Nunca mais quis ouvir seu nome. Eu o odeio mais do que qualquer coisa. Ele tentou tirar minha filha de mim, tentou apagar a vida dela antes mesmo de começar.
Agora, eu me perguntava se ele sequer pensava em mim. Se, em algum momento, ele lembrava que teve a chance de ser pai e jogou essa oportunidade fora.
Mas nada disso importava agora.
O que importava era que eu precisava sobreviver. Por Luiza.
Eu a abracei mais forte, sentindo seu cheirinho doce, e chorei em silêncio. Meu coração estava despedaçado, mas eu não podia me permitir fraquejar.
— Eu prometo que vou fazer de tudo para ficar com você, meu amor. Eu prometo…
Mas, no fundo, eu não sabia se poderia cumprir essa promessa.