Dois

1714 Words
— O que foi? — perguntei, já vestindo o casaco. — Vai até o locker da rodoviária velha, pega o pacote preto que tá lá dentro, depois me encontra no galpão da rua 17. Eu fui. Peguei o pacote pesado, embrulhado em plástico preto e fita adesiva. Levei até o galpão. Sander estava lá com dois caras que eu nunca tinha visto. — Boa garota! — ele disse, me beijando rápido. — Agora entrega pra ele. O homem entregou um envelope grosso de dinheiro em troca do pacote. Eu não perguntei o que era. Não queria saber. Minutos depois, sirenes, luzes azuis e vermelhas invadindo o galpão, gritos, correria. — Polícia! Mãos ao alto! Eu corri. Tropecei. Fui pega com o pacote ainda na mão. Sander e os outros sumiram na escuridão e eu fiquei. Na delegacia, algemada, chorando, ouvi as acusações: apreendida com entorpecentes, quantidade suficiente para enquadrar como associação ao tráfico. Meus pais chegaram destruídos, minha mãe chorava tanto que m*l conseguia falar. — Kiara ... o que você fez, minha filha? — Foi o Sander ... ele disse que era só um favor... — solucei. Meu pai só balançava a cabeça, os olhos vermelhos. — A gente tentou te avisar... Fui para o centro de detenção juvenil. Passei meses lá. Fiz terapia, estudei, prometi mudar. Saí com a promessa de nunca mais errar. Mas o erro voltou. Anos depois, já adulta, eu estava tentando reconstruir minha vida, um emprego simples, apartamento alugado, terapia semanal, até que o Sander reapareceu. Mensagens. Ligações. "Eu mudei, Kiara. Me dá uma chance". Eu, i****a, acreditei de novo. Voltei. Ele jurou que estava limpo. Mentiu. A segunda vez foi pior. O mesmo esquema, só que maior, eu sabia o que estava fazendo, sabia que era errado e ainda assim fui. Levei pacotes, fiz entregas, recebi dinheiro. Até que a polícia bateu na porta de novo. Dessa vez, não havia escapatória, eu era maior de idade, a quantidade era pesada, as provas, irrefutáveis. No dia da sentença, a sala do tribunal estava gelada, eu estava de pé, algemada, vestindo aquela roupa laranja horrível. Meus pais estavam na primeira fileira. Minha mãe chorava baixinho, meu pai segurava a mão dela com força, o rosto duro de dor. O juiz leu a sentença com voz firme: — Considerando a reincidência, a quantidade de entorpecente apreendido e a participação ativa no esquema de tráfico, condeno a ré, Kiara, a doze anos de reclusão em regime fechado. O martelo bateu. Eu desabei! Não foi um choro discreto, foi um grito preso que finalmente explodiu. Caí de joelhos no chão frio do tribunal, as algemas tilintando, o corpo tremendo. — Não... por favor... não... — soluçava, a voz rouca. — Eu não aguento mais... me perdoem... Minha mãe se levantou, tentando chegar até mim, mas os guardas impediram. Ela gritou meu nome entre soluços. Meu pai ficou parado, olhando para mim como se eu fosse uma estranha. Eu fui levada arrastada, ainda chorando, o rosto molhado de lágrimas, o peito rasgado de arrependimento. Enquanto a porta de ferro se fechava atrás de mim, só conseguia pensar em uma coisa: Eu tinha destruído tudo. E dessa vez, não havia mais volta. (....) Fui condenada a três anos e meio de reclusão em regime fechado, a sentença caiu como uma porta de ferro batendo na minha cara. No começo, fiquei detida na delegacia, um lugar frio, barulhento e cheio de cheiro de mofo e desespero, meu advogado, um homem de terno amarrotado e olhos cansados, apareceu uma vez e me disse, com voz baixa: — Kiara, eles vão te transferir para o presídio feminino estadual, é o procedimento padrão. Prepare-se. Prepare-se. Como se alguém pudesse se preparar para isso. Meus amigos — ou o que restou deles — mandaram mensagens de apoio no começo. "Força, mana", "Você vai sair logo", "Estamos com você". Mas eu sabia. No fundo, todos sabiam. Eu estava apenas colhendo o que plantei. Ninguém dizia isso em voz alta, mas o silêncio entre as palavras falava mais alto que qualquer consolo. O dia da transferência chegou com uma chuva fina e insistente, me algemaram, me enfiaram em uma van preta sem janelas e me levaram. Quando descemos, o portão enorme do presídio se abriu com um rangido metálico que parecia um grito. Meus pais estavam lá, do lado de fora, colados na grade, minha mãe segurava um lenço na boca, os olhos vermelhos, meu pai tentava manter a postura, mas as mãos tremiam agarradas às barras. — Kiara! — minha mãe gritou. Eu só consegui acenar, um gesto pequeno, quase imperceptível, os agentes não deixaram que eles se aproximassem, me empurraram para dentro enquanto eu murmurava para mim mesma: "O que eu fiz da minha vida?" Deixei meus pertences pessoais em uma caixa de papelão marrom: celular, carteira, um chaveiro que minha mãe tinha me dado no meu aniversário de 15 anos. Recebi o uniforme laranja, largo demais, áspero, com o número estampado no peito. 90322. Era isso que eu era agora. Sander! O nome ainda queimava na minha garganta. O mesmo que me prometeu amor, que me levou para aquele galpão, que fugiu correndo quando as sirenes começaram, ele me abandonou à própria sorte e sumiu do mapa, como eu o odiava agora, um ódio que doía mais que qualquer soco. Entrei no pavilhão e foi como se o ar ficasse mais pesado. — Hora, vejam só. Carne nova no pedaço! — disse uma voz grossa e debochada. Era uma mulher alta, cabelo raspado dos lados, tatuagens subindo pelo pescoço. Ela se aproximou devagar, como um predador. — Como você se chama, coisa linda? Eu não respondi. Fiquei olhando para o chão, os braços cruzados sobre o peito. — Ora, sua rata, eu falei com você! - O empurrão veio forte. Perdi o equilíbrio e caí de costas no piso frio, ela se jogou sobre mim, os joelhos prendendo meus braços, os dedos agarrando meu cabelo. — Achou que ia chegar aqui e ficar de rainha, sua v***a? — Sai de cima de mim, sua louca! — gritei, tentando me mexer, mas o peso dela me esmagava. As outras detentas começaram a gritar, algumas torcendo, outras apenas assistindo. Eu sentia os cabelos sendo puxados, o couro cabeludo ardendo. Foi então que o peso sumiu de repente. Alguém a puxou com força. — O que pensa que está fazendo, sua maluca? Encosta nela de novo e você não verá mais a luz do sol, entendeu? A voz era firme, baixa, carregada de autoridade. O silêncio caiu como uma cortina. Quando consegui me levantar, vi a agressora do outro lado do pavilhão, respirando pesado, mas sem ousar voltar. As outras mulheres me olhavam agora com algo diferente: receio. Peguei meu cobertor fino e caminhei até a beliche que me foi designada. Estava tremendo, mas tentei não mostrar. Foi quando uma garota magra, de cabelo curto e olhos atentos, se aproximou. — Oi. — O que é? — retruquei, dando as costas. — Não se preocupe! Agora você está sob a proteção da Samya. Virei devagar. — E quem diabos é Samya? - Ela sorriu de lado. — Ela é só a que manda no pedaço. Antes que eu pudesse perguntar mais, a carcereira apareceu batendo o cassetete nas grades. — Todo mundo nas camas, suas vagabundas! Hora de apagar a luz! Se eu ouvir um pio, já sabem! As luzes fluorescentes se apagaram uma a uma. Fiquei deitada na cama de cima, olhando o teto rachado, ouvindo o choro baixo de alguém no pavilhão ao lado. Não dormi aquela noite. Os meses passaram devagar, como se o tempo dentro do presídio tivesse sido esticado para nos castigar mais. Minha mãe e meu pai vinham toda semana permitida. Ficavam do outro lado do vidro, separados por uma parede de acrílico sujo. Falavam pelo telefone. — Filha, como você está? — minha mãe perguntava sempre com a mesma voz trêmula. — Estou bem, mãe! — eu mentia. — Só quero sair daqui. Meu pai falava pouco. Olhava para mim com olhos que pareciam carregar toda a culpa do mundo. — Estamos lutando, Kiara. O advogado está tentando um habeas corpus, uma revisão da pena... Estamos fazendo de tudo. Eles juntaram dinheiro para pagar um advogado melhor. Venderam o carro, pediram empréstimo, minha mãe voltou a fazer costura em casa até altas horas. Meu pai pegou horas extras na oficina. Tudo para tentar me tirar dali mais cedo. Mas nada adiantava. O juiz negou os pedidos. A promotoria insistia na reincidência, mesmo que a primeira condenação tivesse sido juvenil e a segunda fosse consequência da mesma influência, Sander continuava foragido, ninguém sabia onde ele estava, e eu continuava aqui. Em uma das visitas, minha mãe chorou tanto que o guarda avisou que o tempo tinha acabado. Ela apertou a mão no vidro. — Aguenta firme, minha menina. Eu te amo. Vamos te tirar daí. - Eu só consegui assentir, minha garganta estava fechada. De volta ao pavilhão, Samya me esperava encostada na parede. Ela não era alta nem muito forte, mas tinha algo nos olhos que fazia todo mundo obedecer. — Como foi a visita? — perguntou, quase gentil. — Igual às outras — respondi, sentando na cama. Ela acendeu um cigarro improvisado e deu uma tragada longa. — Eles vão continuar tentando? — Até desistirem, eu acho. — murmurei. Ela soltou a fumaça devagar. — Então não desista você! Aqui dentro, quem desiste morre antes da hora. Eu olhei para ela. Pela primeira vez em meses, senti algo além de raiva e vazio, não era esperança, ainda não, mas era um começo. Os dias continuavam iguais: contagem, fila para o banho, trabalho braçal na lavanderia, silêncio à noite, mas eu já não era a mesma menina que chegou ali chorando, eu estava aprendendo a sobreviver. E, no fundo, eu sabia: o verdadeiro castigo não era a pena escrita no papel, era viver todos os dias sabendo que fui eu quem escolheu esse caminho e que o homem que eu amei me deixou pagar sozinha. Eu ainda tinha dois anos e meio pela frente. E cada dia que passava, o ódio por Sander se transformava em algo mais frio, mais útil, determinação. Eu ia sair dali. Não por ele. Não por ninguém. Por mim.
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