Joel
Meses se passaram assim, eu ia me acostumando com a rotina: acordar cedo, editar fotos no notebook velho, correr atrás de clientes, Ronan virou uma espécie de figura de apoio improvisada, me dava dicas práticas sobre a vida na quebrada, emprestava ferramentas quando precisava, e às vezes dividíamos uma cerveja no fim do dia, rindo das minhas histórias de rico mimado enquanto ela mexia em alguma peça de moto no quintal.
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Enquanto isso, na casa grande, a vida seguia para Minus, um dia a Ayame me contou que ele recebeu a visita de um homem lá em casa, ele tinha ido diretamente lá e não no escritório. O sujeito era bem vestido, mas com ar cansado, olhos vermelhos de quem não dormia direito. Sentou-se na cadeira de couro em frente à mesa imponente e explicou o motivo da visita, queria contratar os serviços do renomado advogado para defender sua filha numa acusação criminal. Contou os detalhes do caso, uma jovem envolvida em confusões sérias, com histórico de rebeldia, festas, talvez até coisas piores.
Minus ouviu em silêncio, folheando os documentos preliminares, quando o homem terminou, o advogado recostou na cadeira, cruzou os braços e respondeu com voz firme:
– Desculpe, mas eu não defendo jovens marginais. Meu escritório lida com casos empresariais, contratos de alto valor, perco tempo com vagabundagem e delinquência juvenil.
O homem insistiu um pouco, mencionou honorários altos, mas Minus foi irredutível. Ayame me contou que visita terminou ali, falou que a esposa do homem se desatou a chorar e que minha mãe ainda tentou intervir mas meu pai foi irredutível e o casal foi embora, Ayame sempre me ligava e me contava as fofocas da casa, eu sei que ela sentia falta de mim, e eu também sentia dela.
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Naquele mesmo período, eu estava em mais um trabalho, um cliente me contratou para fotografar um evento corporativo pequeno, uma inauguração de loja no shopping.
Passei o dia inteiro clicando, poses dos donos, produtos em destaque, convidados sorrindo com taças na mão, sai de lá exausto, mas satisfeito com as fotos, mandei o material editado no dia seguinte, como combinado, esperei o pagamento, um valor que ia me ajudar a cobrir o aluguel e comprar uma lente nova.
Dias viraram semanas, mensagens lidas, sem resposta, liguei e caiu na caixa postal, o cara simplesmente sumiu, não recebi pelo serviço. Fiquei ali, olhando para a tela do celular, com a conta apertada e uma raiva surda crescendo no peito, a vida independente era isso, né? Nem tudo era festa e flashes perfeitos.
Sabe quando a vida parece decidir te testar de todas as formas possíveis, como se alguém lá em cima estivesse jogando dados com o seu destino? Pois é, foi exatamente isso que aconteceu comigo. Depois daquele trabalho maldito no evento corporativo, o calote que levou embora o dinheiro que eu tanto precisava, tudo desandou de vez. Eu tinha investido quase todas as minhas economias em equipamentos novos: uma lente prime, um flash externo, cartões de memória rápidos. E o cliente? Sumiu, empresa fantasma, contato bloqueado, pagamento zero, para completar, os jobs pararam de pingar, ninguém mais me contratava, o aluguel do quartinho atrasou, e já ia para o segundo mês.
Bateram na porta numa tarde abafada. Eu já sabia quem era.
– Oi, Ronan. – disse, abrindo a porta com um suspiro.
Ela entrou, o cabelo roxo preso num coque bagunçado, cheirando a óleo de motor e cigarro.
– Joel, eu sei que as coisas estão ruins, mas preciso de uma posição sua. Já são dois meses atrasados, cara, tem luz, água, e ainda a taxa que eu pago pros caras da área pra ninguém mexer aqui.
– Eu tô dando um jeito, Ronan. Juro... - Ela me interrompeu antes que eu pudesse inventar mais uma desculpa.
– Joel, seu pai é rico pra c*****o. Pede pra ele, ou pra sua mãe...
– Nem vem com essa! – cortei, mais seco do que pretendia. – Você não conhece o meu pai.
– Tá bom, tá bom. Mas tem mais uma coisa... Sua mãe vindo aqui toda semana? Não é seguro, Joel , se o Sander descobrir de quem você é filho, ele te sequestra num piscar de olhos e pede resgate, o cara não brinca em serviço.
Fiquei em silêncio, nunca tinha pensado nisso. Eu ali, achando que estava vivendo "na real", mas correndo risco de virar moeda de troca, Sander era lendário na quebrada, frio, calculista, diziam que ele tinha deixado a própria namorada ser presa só pra se livrar de uma acusação maior.
— Eu ligo pra ela hoje mesmo e peço pra parar de vir. – prometi. — E vou tentar pagar pelo menos um mês ainda essa semana.
– Eu gosto de você, Joel. Mas tem limite pro que eu posso segurar. Me avisa. - Ela saiu, e eu fechei a porta com peso no peito, talvez fosse hora de arrumar as malas de novo.
No dia seguinte, saí cedo atrás de qualquer bico que rendesse grana, mas voltei de mãos vazias. Minha mãe ligou, animada, dizendo que ia me visitar, expliquei a situação, disse que estava pensando em me mudar, ela ofereceu o apartamento vazio da família, um lugar discreto, que meu pai nem usava, era tentador, quase aceitei, mas seria voltar pra zona de conforto, pra sombra dele, recusei com educação, mas firme.
Quando cheguei no cortiço no início da tarde, Konan me interceptou na escada.
— Ei, Joel ! Preciso falar com você. Agora. - Meu coração disparou, será que ela ia me despejar?
— O que houve? – perguntei, voz quase falhando.
— Vem cá, entra aqui.
Ela me levou pra casa dela, a parte mais arrumada do cortiço: TV LED grande, sofá novo, cheiro de incenso, ela mandou que eu sentasse.
— É o seguinte... Tenho uma proposta pra você! Se não se ofender, claro.
— Fala logo. - Ela respirou fundo.
— Visita íntima, no presídio feminino. - Eu quase ri de nervoso.
— Como é que é? Ronan, você tá me achando com cara de quê?
— Calma, não é qualquer uma, é uma garota que amigos meus querem ajudar, pagam muito bem, Joel , muito mesmo e ela é linda, juro.
— Eu tô ferrado, mas não sou garoto de programa.
Ronan cruzou os braços, me encarando.
— Você tá devendo aluguel, levou calote, não quer ajuda dos pais, e me diz que não gosta de mulher? – Ela ergueu uma sobrancelha. – É um trabalho rápido, discreto, e você sai com grana no bolso. A garota tá precisando de um momento bom na vida dela, e você... bom, você é bonito, saudável. Qual mulher não ia se sentir especial?
Uma enxurrada de pensamentos me invadiu. Aluguel atrasado, equipamento parado, orgulho ferido, talvez fosse só um trabalho, prazeroso, até.
— Quem são esses amigos? Quanto pagam? - Ronan sorriu de canto.
— Tarui e o Neto que é primo dela. É presente de aniversário, a garota tá sendo protegida lá dentro por uma amiga minha, a Sara, dizem que o próprio Sara mandou proteger ela.
— O cara que você falou que pode ele sequestrar?
— Ele não sabe de nada. - ela falou sorrindo.
— E não é perigoso eu entrar lá?
— Ninguém vai saber seu nome de verdade. Você vai, faz o que tem que fazer, pega a grana e sai. Pensei em você porque... você parece um cara que sabe tratar uma mulher direito. - Fiquei em silêncio por um longo minuto.
— Vou pensar e amanhã te dou a resposta.
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