Catarina Chega no Morro

1329 Words
O morro sempre percebe quando alguém diferente pisa nele. A Vila Kennedy tinha olhos nas paredes, ouvidos nas janelas, boca nos becos. E naquela manhã quente, enquanto V.K descia a viela com Tigrão, a presença dela bateu como vento contrário: inesperado, forte, impossível de ignorar. A caminhonete prata estacionou torto, como quem não conhecia o terreno. O motorista, um rapaz magro, desceu primeiro e abriu a porta do carona com pressa. E então ela desceu. Catarina. Vestido simples, estampa florida, cabelo preso de um jeito bagunçado que não parecia arrumado — mas parecia dela. Ela era o oposto do morro: macia onde o morro era áspero, colorida onde o morro era cinza, transparente onde o morro escondia tudo. Assim que seus pés tocaram o chão, dois soldados que conversavam pararam. Um vendedor que carregava caixas olhou duas vezes. Até o cachorro do beco farejou o ar como se percebesse novidade. V.K também percebeu. Não porque ela fosse bonita — embora fosse. Mas porque ela não tinha medo. E ninguém, absolutamente ninguém, descia ali pela primeira vez sem medo. Tigrão cutucou o braço dele. — Chefia… quem é essa? — Vou descobrir. Catarina analisava o lugar como quem tenta memorizar um mapa desconhecido. O motorista entregou uma mochila pesada nas mãos dela. — Cuidado aqui, tá? — ele disse. — Eu sei me virar. — ela respondeu sem hesitar. — Sua avó mora na rua de cima. — Eu já disse que sei me virar. A voz dela carregava algo raro: firmeza sem agressividade. V.K observava cada gesto. Ela ajeitou a alça da mochila no ombro, respirou fundo e subiu a primeira parte da viela. Na metade do caminho, parou, olhou para o lado e observou uma parede grafitada com imagens de crianças e anjos — obra antiga do morro. Ela sorriu. E aquele sorriso, simples, espontâneo, sincero, fez o peito de V.K contrair. Ele odiou isso. Do nada, sem motivo, um desconforto cresceu por dentro. Ele não sabia se era alerta, curiosidade ou irritação. Talvez fosse tudo ao mesmo tempo. — Tigrão. — Chefia? — Quem mora na rua lá de cima? — Laje da Dona Nilva. — Ela tem neta? — Acho que tem. Nunca aparece. — Apareceu. Ele começou a subir atrás dela — não rápido demais para parecer perseguição, mas rápido o suficiente para não perdê-la de vista. Catarina chegou ao topo da escada e respirou fundo, observando a vista. A laje da avó era simples, com plantas em latas e cadeiras velhas no canto. Dona Nilva apareceu na porta com um pano no ombro. — Minha menina! Catarina sorriu e correu para abraçar a avó, quase derrubando o pano no chão. — Vó! — Pensei que tu só vinha mês que vem! — Eu mudei os planos. — Graças a Deus. Tava precisando de ajuda. V.K, parado alguns degraus abaixo, observava sem piscar. Catarina abraçou a avó com força, como quem carrega saudade no peito. Era um gesto tão verdadeiro, tão diferente da dureza diária que V.K via ali, que despertou algo estranho dentro dele. Tigrão murmurou: — A neta da Dona Nilva… — É. — Nunca vi. — Agora viu. Catarina soltou o abraço e enxugou o olho, sorrindo de novo. — Trouxe umas coisas pra senhora. — Eu quero é tua companhia, menina. — E eu vim pra ficar. A palavra “ficar” soou alto demais. Alta o suficiente para alcançar V.K. Ele sentiu um incômodo familiar — o mesmo que sentia quando alguém novo entrava no território dele. — Vamos subir? — Dona Nilva perguntou. — Vamos. — Catarina respondeu. Elas entraram na casa. V.K desceu dois degraus, pensativo. Tigrão entendeu o que aquilo significava. — Chefia… quer que eu descubra quem é essa menina? — Quero não. — Não? — Não por enquanto. — Mas ela— — Eu vi ela. — E aí? — Não gostei. — Por quê? — Não sei. — Quer que eu descubra? — Não agora. Mas isso não era verdade. V.K gostou. E odiou ter gostado. Ele virou de costas e desceu o morro como se tivesse sido atingido por uma informação perigosa demais. Enquanto isso, dentro da casa, Catarina largava a mochila e tirava o casaco, observando o pequeno espaço onde passaria os próximos meses. A casa tinha cheiro de café, tijolos velhos e lembranças. — Quer café, menina? — Quero. — Senta. Catarina sentou-se na cadeira encostada na janela. O vento batia forte ali, trazendo sons de rádios, motos e gritos longes demais para entender. — Vó… — Fala, minha filha. — Isso aqui ainda é perigoso? — Sempre foi. — Mas piorou? — Não piorou… mudou. — Mudou como? Dona Nilva respirou fundo, mexendo o café. — Agora tem um homem mandando. — Quem? — V.K. O nome cortou o ar. Catarina repetiu mentalmente. V.K. Soava curto. Cortante. Perigoso. — Ele é r**m? — ela perguntou. — Ele é lei. — Lei? — Lei daqui. — Ele cuida? — Cuida… do jeito dele. Catarina engoliu a pergunta que queria fazer. Mas Dona Nilva notou. — Tu não tá com medo, né? — Não. — Eu sei. — Mas devia? — Devia ter um pouco. — Por quê? — Porque quem não tem medo… atrai olhar. — Olhar de quem? — De quem manda. Catarina riu levemente. — Vó, eu acabei de chegar. — E ele acabou de ver tu chegar. — Como assim? — Eu senti. Catarina franziu a testa, meio brincando. — A senhora tem radar? — Quando se mora aqui… aprende a sentir o que tá vindo. Catarina riu, achando graça da avó. Mas sua risada sumiu quando ouviu passos lá fora — passos firmes, pesados, que não tinham nada a ver com moradores comuns. Ela olhou pela janela. V.K estava parado na viela, olhando diretamente para a casa. O coração dela bateu acelerado, mas ela não sabia se era medo ou curiosidade. Ele não sorriu. Não cumprimentou. Não fez sinal. Só observou. Observou como quem avalia perigo. Ou como quem sente algo esquisito e não sabe nomear. Um dos soldados ao lado dele perguntou: — Chefia… problema? — Ainda não. — Quer subir? — Não hoje. Ele virou de costas, mas antes de descer a escada, olhou uma última vez para a janela. E Catarina viu. Viu que aquele homem não tinha expressão fácil. Não tinha bondade evidente. Não tinha medo algum. Mas tinha olhos que falavam sem dizer nada. E naquele breve segundo, ela entendeu duas coisas: Ele era o Don. Ele tinha notado ela. Muito. A ponto de não saber disfarçar. E isso… não era bom. Não era nada bom. Quando o som dos passos dele desapareceu, Dona Nilva serviu o café com calma, como se nada tivesse acontecido. — Vó? — Hm? — Quem é exatamente esse V.K? Dona Nilva não respondeu de imediato. Ela sentou na cadeira oposta e suspirou. — É o tipo de homem que Deus protege… Ela fez o sinal da cruz. — …porque a bala ainda não conseguiu acertar. Catarina sentiu uma fisgada estranha no peito. Uma mistura de fascínio e alerta. Talvez de destino também. Mas ela não sabia. Ainda. Na rua, Tigrão caminhava ao lado de V.K, inquieto. — Chefia… tu ficou olhando muito pra casa da velha. — Fiquei não. — Ficou sim. — Cala a boca. — Cê gostou da menina? — Não. — Certeza? — Cala a boca, p***a. Tigrão riu. — Chefia… desde quando uma mulher te distra— V.K parou. Virou-se lentamente. E disse, frio como gelo: — Se tu falar mais uma vez disso… tu perde os dentes. Tigrão levantou as mãos, rindo ainda mais. — Tá bom. Já entendi. Mas ele sabia. Todo mundo sabia. O morro inteiro sabia quando algo novo chegava para virar história. E Catarina… foi exatamente isso. A peça que V.K não sabia que faltava. A peça que poderia destruir tudo. Ou reconstruir. O problema…é que ele ainda não sabia de qual lado ela ficaria.
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