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4381 Words
Danilo Cheguei a Minneapolis dois dias antes da festa de noivado. Teria preferido esperar mais um ano para torná-lo oficial. Aos dezesseis anos, Sofia ainda era muito jovem, pelo menos comparada a mim, mas seus pais insistiram que tornássemos isso público para evitar rumores desagradáveis. Emma, mamãe e Marco me acompanharam. Mais de cinquenta convidados compareceriam ao noivado - familiares e amigos próximos, assim como os outros Underbosses e suas famílias. Encontrei-me com Samuel e Pietro em seu escritório. Tínhamos muito que discutir, principalmente a respeito do noivado de Samuel com minha irmã, que ainda não sabia sobre o acordo que fechei com os Miones ou seu futuro marido. Mas, como sempre, os negócios vinham em primeiro lugar. — Acho que devemos convencer Dante a arriscar outro ataque em Kansas City. Stefano Russo precisa seguir os passos do pai até uma morte prematura, — disse depois que nos acomodamos nas confortáveis poltronas de couro do escritório de Pietro, com um copo de uísque na mão. Samuel assentiu imediatamente, o que não foi uma surpresa. Pietro parecia mais pensativo. Talvez fosse sua idade ou sua disposição mais contida, mas sua reação não foi inesperada. Se Samuel já fosse Underboss, teria o apoio de Minneapolis no assunto. — Penso o mesmo, — Samuel disse. — Estivemos mentindo para nós mesmos por muito tempo. Pietro girou sua bebida no copo, seus olhos se estreitaram em pensamento. — Dante está seguindo uma nova estratégia. Nossos negócios têm prosperado nos últimos anos porque não desperdiçamos dinheiro e energia em batalhas inúteis com a Famíglia e a Camorra. — Não é tudo sobre negócios, — rosnei. — É também uma questão de honra e orgulho. Conversar com políticos é um belo truque da parte de Dante para nos tornar intocáveis, mas precisamos fazer uma declaração sangrenta de vez em quando. Nossos homens não entendem as estratégias políticas. Eles querem sangue e grandes gestos. Temos que mantê-los felizes também. — Certamente os agradaria, mas tenho a sensação do que agradaria vocês ainda mais, — disse Pietro. Tomei outro gole da minha bebida, reprimindo um comentário. Pietro estava certo. Já que tínhamos deixado Remo ir, sentia a necessidade de apagar essa sensação de negócios inacabados. — Porra, seria um prazer para todos nós f***r com a Camorra, — Samuel retrucou. Pietro não negou. — Temos que pensar no futuro. Vocês dois têm que pensar no futuro. Não deixem o passado arrastá-los para baixo, não importa o quão confuso ele seja. Tentamos nossa vingança e fracassamos. Precisamos seguir em frente e garantir que o negócio da Outfit continue crescendo. Samuel e eu trocamos um olhar. Certamente não queríamos seguir em frente, mas duvidava que Samuel fosse contra seu pai. — Talvez devêssemos mudar de assunto. Afinal, você está aqui para uma ocasião muito mais agradável, — disse Pietro. — De fato. Por falar em noivados, pretendo dizer a minha irmã que você vai se casar com ela enquanto estivermos aqui, — disse a Samuel. — Assim podemos fingir que o acordo foi feito agora. Pietro acenou com a cabeça. — Isso parece razoável. Ninguém vai ligar isso ao acordo entre você e Sofia. Samuel permaneceu em silêncio. Ele parecia menos do que animado com a perspectiva de tornar qualquer coisa oficial com minha irmã. — Você deu sua palavra, — rosnei. Ele sorriu. — Vou me casar com sua irmã, não se preocupe. Como de costume, nosso entendimento mútuo terminava no momento em que Sofia ou Emma eram mencionadas. — Bom. Você falará com ela depois que eu contar? — Claro. Você tem alguma mentira preferida que devo dizer a ela? Minha raiva aumentou rapidamente. — As mesmas mentiras que direi a Sofia. — Já chega, — disse Pietro antes de se virar para mim. — Talvez você devesse falar com Sofia. Já faz um tempo desde que você a viu. Forcei um sorriso e pedi licença para ir em busca de minha futura esposa. Não a via há mais de um ano. A risada de Emma ecoou, seguida pela de Sofia. Não era a risada de uma garotinha como eu me lembrava, mas ainda tinha um tom de sino em sua voz. Segui os sons em direção a biblioteca e congelei na porta. Uma garota loira estava perto da janela, pernas compridas espreitando para fora de um vestido de verão que acentuava uma cintura estreita. Levei alguns segundos para perceber que a garota era Sofia. Com o cabelo loiro e o rosto de perfil, sua semelhança com Serafina era impressionante e inesperadamente desagradável. Não tinha visto minha ex-noiva em muitos anos e não tinha absolutamente nenhuma intenção de mudar isso. Entrei na biblioteca, tentando controlar minha raiva e confusão crescentes. Esta última, em particular, fez meus dentes ranger. Os olhos de Sofia se arregalaram e um sorriso hesitante iluminou seu rosto. — Emma, você pode nos dar um momento? Preciso falar com Sofia sozinha. — Minhas palavras saíram cortadas. Emma assentiu e saiu da sala, fechando a porta atrás dela. Movi Sofia contra a parede, completamente surpreso com sua aparência. Fazia anos que não via Serafina e agora Sofia fazia o papel de cópia. Nenhuma das garotas loiras que comi ao longo dos anos chegou nem perto de parecer minha ex-noiva e aqui estava minha noiva, parecendo uma réplica de sua irmã. Ergui-me sobre Sofia, olhando para seu rosto pálido e confuso. — O que você fez com o seu cabelo? — Rosnei. Toquei seus fios loiros, então segurei seu rosto para forçá-la a me olhar nos olhos. Ela piscou, lábios rosados separados, olhos arregalados. Ela tinha mais sardas do que a irmã e seu lábio inferior era mais cheio. Sem mencionar que ela era um pouco mais baixa e menor. Minha noiva de dezesseis anos. Respirei fundo pelo nariz, tentando acalmar meu pulso acelerado. Soltei minha mão que ainda estava tocando seu rosto e dei um passo para trás. Sabia que deveria me desculpar, mas isso estava fora de questão. — O que você fez com o seu cabelo? — Repeti, incapaz de tirar meus olhos do tom dourado. Não era qualquer tom de loiro, era o de Serafina. Ela projetou o queixo. — Queria uma mudança. — Você parece uma cópia r**m de sua irmã. Você quer que as pessoas falem m*l de sua família novamente por causa do que aconteceu? — Eu-eu não quis fazer isso. Balancei minha cabeça. — As pessoas vão falar na festa se você aparecer com esse cabelo loiro. Sobre você, sobre mim, sobre nossas famílias. Não vou permitir. Você pintar com sua cor natural antes da festa, entendeu? Sofia tinha os olhos de Serafina. O mesmo azul frio. E se alguém não olhasse atentamente, até seus rostos eram muito parecidos. Parecia que o passado estava se repetindo, como se o destino estivesse me provocando com meu maior fracasso. Perdi uma garota, mas não perderia outra. E definitivamente não precisava de um lembrete diário do dia mais vergonhoso da minha vida. Estive fodendo uma garota loira atrás de outra garota loira por anos, como se pudesse fodê-la fora do meu sistema. Nunca funcionou. Qualquer alívio que senti durou pouco antes de minha raiva queimar ainda mais. Fiquei paralisada de choque enquanto olhava para o rosto zangado de Danilo. Estava nervosa com a reação dele ao meu novo cabelo, mas tinha sido mais como uma sensação de leveza. Secretamente esperava que ele ficasse feliz em ver as semelhanças entre Serafina e eu. Não esperava sua fúria. Ele fez soar como se eu tivesse cometido uma blasfêmia por parecer minha irmã, como se tivesse manchando a imagem perfeita dela que ele provavelmente ainda guardava em sua mente. — Entendido, — eu disse entre dentes, mesmo quando minha garganta fechou em uma mistura de vergonha e frustração. Um pouco da raiva se dissipou do seu rosto e ele deu mais um passo para trás, limpando a garganta. Ele estava se tornando o cavalheiro que conheci até agora. — Bom, — disse calmamente. Fiquei pressionada contra a parede. Ele passou a mão pelo cabelo. — Você não precisa ter medo de mim. Eu sint... — Ele me olhou por alguns segundos, sua boca formando uma linha tensa. Eu não estava realmente com medo dele. Nem tinha certeza do que sentia. Um turbilhão de emoções confusas. Ele pediria desculpas? Porque eu definitivamente merecia um pedido de desculpas. — Você me pegou desprevenido. Eu esperava vê-la e não... não esta versão de você. Esta versão de mim. Não era o que ele queria dizer. — Achei que você gostaria. — No momento em que pronunciei as palavras, quis retirá-las. Era uma coisa tão fraca de se admitir. Odiava mostrar fraqueza na frente dele, especialmente depois de seu surto. Mamãe me ensinou a ser orgulhosa, não essa garota covarde e querendo agradar a todos. — Mude novamente, Sofia. Antes da festa de noivado. Não quero fotos nossas juntas com você parecendo... isso. Pressionei meus lábios. Lágrimas de raiva e constrangimento ameaçaram explodir, mas as segurei. A porta se abriu e Samuel entrou, seus olhos se estreitaram. — O que está acontecendo aqui? Eu poderia ter chorado de alívio. Só queria sair dessa situação e ficar longe de Danilo para clarear minha cabeça. Era difícil pensar direito com ele tão perto. — Nada, — soltei. Claro, meu irmão não acreditou. Ele espreitou para dentro, seu olhar fixo em Danilo. — As regras não mudaram. Você não deveria ficar sozinho com minha irmã antes de se casar com ela. O sorriso de Danilo era perigoso. — Obrigado pela lembrança. Usei seu comportamento alfa para escapar e correr escada acima. Precisei de cada grama de autocontrole para ligar para a minha cabeleireira e marcar um horário de última hora no dia seguinte, então comecei a chorar. Foi assim que Anna me encontrou quinze minutos depois. Ela afundou na cama ao meu lado, acariciando minha cabeça. — Danilo não gostou do seu cabelo? — Ela adivinhou. — Ele odiou. — Minha garganta estava dolorida de tanto chorar, mas pelo menos a sensação de peso se transformou em uma pequena chama de indignação. — Foda-se ele. Rolei de lado, dando a Anna um sorriso amargo. — Linguagem, Anna. — Imitei o rosnado de advertência de Santino. — O que você vai fazer? Dei de ombros. — Marquei horário no cabeleireiro amanhã. — Os lábios de Anna se estreitaram. — Sei que você provavelmente manteria isso para irritá-lo, mas não quero problemas no dia do meu noivado. Quero que a festa seja perfeita. Irritar Danilo só vai estragar meu humor também. — A decisão é sua, Sofia, mas não o deixe empurrá-la. Não havia problema em ser indiferente depois que a coisa com sua irmã aconteceu, mas ele já deveria ter superado. — Homens e seu orgulho, você sabe como é. Ela revirou os olhos. — Não vamos começar. Durante a noite, a pequena chama de indignação em meu peito se transformou em um fogo estrondoso. Fiquei zangada com Danilo pela reação dele, mas mais do que isso, fiquei absolutamente furiosa por ele ter tido permissão para seguir sua obsessão por loiras e depois ousar pirar porque pintei meu cabelo. Eu não era uma pessoa muito rebelde, nunca fui, mas senti a necessidade de lhe mostrar que ele não podia me empurrar. Talvez eu fosse jovem e não Serafina, mas isso não significava que ele podia agir como um i****a. — De volta? — Minha cabeleireira perguntou curiosamente. Tingi minhas raízes apenas alguns dias atrás. Já podia ver seu radar de fofocas ganhando vida. Dei a ela um sorriso atrevido. — Estou com vontade de mudar. Suas sobrancelhas se ergueram. — Não vai voltar à cor original do seu cabelo? Meus olhos dispararam para a foto de uma modelo com um corte bonito e franja. Nunca tive cabelo curto e nunca realmente considerei isso. — Quero aquele corte de cabelo. Ela seguiu meu olhar, seus lábios se separando em surpresa. — Tem certeza que quer que corte tanto do seu cabelo? Vai demorar um pouco para crescer. Você sabe como os homens em nosso mundo preferem cabelos longos... — Eu sei, — disse levemente, me sentindo quase alta com meu pequeno ato de rebeldia. Meu estômago deu um pequeno salto quando ela cortou cerca de quinze centímetros do meu cabelo, mas uma vez que os fios loiros caíram no chão, foi como se um peso fosse tirado dos meus ombros. Quando ela terminou, meu cabelo alcançava meu queixo na frente e terminava um pouco mais alto nas costas. Fiquei surpresa com o quanto gostava de me ver com franja, mesmo que tivesse que me impedir de soprá-la para longe da testa. Estava fofa. Melhor ainda, não parecia mais com a Fina. O corte ficaria ainda melhor com o cabelo castanho, mas isso teria que esperar até a minha próxima consulta, então Danilo não acharia que tinha pintado por causa do pedido dele. Samuel ficou surpreso quando entrei no carro. Ainda assim, foi melhor do que a reação que ele teve dois meses atrás. Agora, era mais surpresa, menos horror. — E? — Perguntei. Ele parecia aliviado. — Melhor. Acho que isso era um elogio vindo dele. Mamãe e papai também pareciam como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros agora que eu não era mais a imagem cuspida de Fina. Papai até me puxou para um abraço de um braço e deu um beijo na minha têmpora. — Esperava que você tingisse de marrom de volta. Sinto muita falta da cor do seu cabelo, mas esse corte é algo mais, tenho que admitir, joaninha. — Algo mais? Papai deu uma risadinha. — Bem, leva algum tempo para se acostumar. Mamãe tocou meu ombro. — Você parece uma modelo francesa de passarela, querida. Não espere que os homens entendam isso. Ri. — O Danilo sabe? — Samuel perguntou. Franzi meus lábios. — Não achei que ele se interessaria pelo meu penteado. Samuel me deu uma olhada. Ele provavelmente percebeu que o estado de raiva de Danilo no dia anterior tinha sido causado pelo meu cabelo loiro. Mal dormi naquela noite, muito animada com a minha festa de noivado e a reação de Danilo ao meu corte de cabelo. Tinha a sensação de que ele odiaria, especialmente porque o desafiei. Embora parte de mim ainda quisesse agradá-lo, meu lado irritado e frustrado havia vencido. Um fato que agradou imensamente a Anna, a julgar por seu sorriso. — Sua mãe está certa. Você parece francesa e sofisticada, mas também fofa. O visual seria perfeito se você começasse a fumar aqueles cigarros longos e estilosos. Bufei. — Não, obrigado. Não acho que valha a pena arriscar minha saúde em uma declaração de moda. Anna revirou os olhos. — Não falei para você se tornar uma fumante inveterada. Mas às vezes fumar pode ser um toque agradável. — Não, obrigada. — Raramente sentia cheiro de fumaça em Anna, mas nunca a vi fumar. Anna me ajudou a aplicar minha maquiagem porque minhas mãos tremiam demais para uma linha precisa das pálpebras. Não queria exagerar e acabar parecendo uma princesa egípcia. As pessoas falariam sobre minha recente mudança de cabelo de qualquer maneira. Não queria lhes dar munição adicional contra mim. Quando eles olhassem para mim, queria que ficassem de queixo caído. Depois que minha maquiagem foi feita, Anna me ajudou a alisar meu cabelo com uma chapinha, especialmente minha franja, já que meus cachos naturais causaram alguns estragos. Eu tinha escolhido uma combinação cor de rosa com um corpete sem alças e uma saia de tule que descia até os joelhos como uma anágua elegante. Adorei o vestido e me senti deslumbrante nele, e tenho que admitir que ficava ótimo com meu cabelo mais curto porque acentuava minha clavícula e garganta. Anna sorriu quando me virei para lhe dar uma visão completa do meu vestido e da saia esvoaçante. — Você parece uma princesa. Se Danilo não ficar boquiaberto, é problema dele. Beijei sua bochecha. — Obrigada. Anna deu uma olhada em seu relógio, seus olhos se arregalando. — Ok, hora de me tornar apresentável. — Ela saiu e me aproximei do espelho. Cuidadosamente toquei meu cabelo. Não parecia mais com Fina e, ainda assim, não era mais como eu. Fiquei em algum lugar no meio, ainda à deriva, tentando encontrar meu caminho de volta para mim mesma. O loiro teria que ir eventualmente. Uma batida me fez pular. — Entre, — disse. Papai entrou e congelou quando me viu. Ele balançou a cabeça como se não pudesse acreditar no que estava vendo. — Quando você cresceu e se tornou uma mulher bonita? Não lhe disse para ser minha garotinha para sempre? Ri. — Talvez você devesse ter me trancado em uma torre. Ele se aproximou e me puxou para um abraço. Respirei fundo, tentando sentir o cheiro de fumaça. Papai fumava intermitentemente desde o sequestro de Fina. Ele continuou tentando parar, mas geralmente nunca durava mais do que alguns meses. — Talvez. — Ele se afastou, mas a melancolia permaneceu em seu olhar. — Ainda faltam dois anos, — o lembrei. Ele tocou minha bochecha. — Eu sei. Agora, devemos realmente descer. Os primeiros convidados chegaram e sua mãe os está entretendo com bebidas e canapés. Nós demos os braços e descemos as escadas. O zumbido suave da conversa saia de nossa sala de estar. Era um grande espaço, uma combinação de sala de jantar e sala de estar. O pessoal do bufê retirou a maior parte da mobília da sala e empurrou o resto para o lado para dar lugar às mesas altas e ao bufê. Lindos arranjos de flores em rosa claro e rosa envelhecido combinando com meu vestido decoravam as mesas. No momento em que papai e eu entramos na sala, um silêncio caiu sobre a multidão e seus olhos focaram em mim. Mamãe me deu um sorriso orgulhoso do outro lado da sala, o que me fez levantar um pouco mais a cabeça. Ela me ensinou a mostrar força e elegância em público, e queria fazer exatamente isso. Ainda assim, parte da minha postura vacilou quando meu olhar pousou em Danilo. Ele estava ao lado de seu primo Marco, sua mãe e Emma. Esta última me deu o sorriso encorajador que eu precisava antes de encontrar os olhos de Danilo novamente. Sua expressão era ilegível, apesar de seu sorriso educado. Era a máscara padrão de cavalheiro que ele exibia em público, mas no fundo de seus olhos captei uma pitada de desaprovação, talvez até raiva e choque. Ele não esperava que eu o desafiasse. Papai apertou meu braço enquanto me guiava em direção a Danilo. O único que parecia menos do que feliz com os acontecimentos era Samuel. Ele estava lançando punhais para o meu futuro noivo. O que quer que tenha acontecido entre esses dois não era da minha conta. Quando papai e eu paramos na frente de Danilo, meu coração batia forte. Esperava que meu nervosismo não transparecesse no meu rosto. Danilo puxou um pequeno pacote do bolso e encontrou o olhar de papai. — Estou pedindo a mão de sua filha em casamento. Você a confiará a mim? Era a frase oficial. A mão de sua filha. Provavelmente foi a mesma coisa que ele disse quando ficou noivo da minha irmã. Ele nem mesmo teve que mudar nenhuma palavra. — Eu confio, — papai disse. Ele e Danilo olharam para mim, então papai me soltou. Danilo estendeu a mão com a palma para cima. Coloquei minha mão na dele e encontrei seu olhar, desejando poder ler sua mente. Danilo me assustou quando passou levemente o polegar nas costas da minha mão antes de deslizar o anel de noivado em meu dedo. Ele não tentou me beijar, embora desejasse que o fizesse. Teria sido altamente inapropriado. Ele, no entanto, me puxou para o lado e muito levemente pousou a palma da mão nas minhas costas, um sinal de que eu era dele e que em breve pertenceríamos um ao outro. Estar tão perto dele era bom, apesar do quão zangada estava com ele. Esperei que Danilo comentasse meu corte de cabelo, mas ele continuou o cavalheiro equilibrado para manter as aparências. Depois de aceitarmos os parabéns dos demais convidados e eles enxamearem o bufê, Danilo se virou para mim. — Você manteve o loiro. — Sim, — disse. — Eu gosto, mas decidi fazer um novo corte de cabelo para não parecer uma réplica r**m de ninguém. — Um toque de malícia ressoou na minha voz, surpreendendo a mim e obviamente a Danilo. Suas sobrancelhas franziram, mas ele simplesmente assentiu. — Essa é sua decisão, é claro. Eu, no entanto, prefiro você com cabelos castanhos compridos. Como ele podia manter esse ato educado quando estava obviamente chateado? — Você não lida bem com mudanças, entendo. Mas não se preocupe, gosto mais do meu cabelo castanho também. Vou mudar a cor quando quiser. Seus olhos se estreitaram. — Você é jovem. Posso ter te assustado ontem, e é por isso que vou fingir que não agiu como uma criança petulante e rude agora, mas espero mais de você. Pisquei para ele com espanto. Talvez tenha agido um pouco infantil, mas sua condescendência definitivamente não me fez querer atender às suas expectativas. Como se o assunto estivesse resolvido para ele, seu olhar mudou- se para Samuel, que deu um aceno conciso. Senti Danilo ficar mais tenso. Papai pigarreou e bateu com a faca na taça de vinho. — Temos outro anúncio a fazer. Danilo? Danilo tirou a mão das minhas costas e deu um passo à frente. Confusa, levantei minhas sobrancelhas para Anna, que apenas deu de ombros. Normalmente ela recebia as notícias quentes primeiro e as passava para mim, mas desta vez até ela parecia estar perdida. — É com grande honra que gostaria de anunciar que nossas famílias, os Mione’s e os Mancini’s fortalecerão nosso vínculo. Samuel vai se casar com minha irmã Emma no mesmo verão em que meu casamento com Sofia acontecer. A surpresa passou por mim. Samuel sorriu com força e foi até Emma. Samuel deu-lhes mais um de seus sorrisos de lábios apertados antes de colocar a mão no ombro de Emma. Ela estava sorrindo brilhantemente, mas não era sincero. Eu sabia por que aprendi a arte do sorriso falso desde muito cedo. Não entendia por que ela não estava feliz em se casar com meu irmão. Samuel podia ser um pouco i****a, especialmente quando as emoções estavam em causa, mas ele era um cara bom. — Um negócio inteligente, — uma voz feminina baixa murmurou rancorosamente, mas não pude detectar sua fonte. Franzindo a testa, me virei para Danilo. Ele tinha um brilho assassino nos olhos. Agora que prestei mais atenção, notei que alguns convidados estavam sussurrando conspiratoriamente, achando que ninguém notaria porque muitos outros estavam parabenizando Emma e Samuel. — A pobre garota tem muita sorte. — E ele? Ele precisa de um herdeiro. Danilo pressionou a mão nas minhas costas, com mais firmeza do que antes, os olhos trovejantes enquanto me conduzia em direção a sua irmã e Samuel. Entendia sua raiva. Pelos sussurros, todos consideravam Emma sortuda por ter acertado um casamento com Samuel, ou qualquer homem na verdade. Eles faziam parecer que ela era menos porque estava em uma cadeira de rodas. Dei a ela um sorriso brilhante e me inclinei para abraçá-la. — Estou tão feliz por vocês dois. — Obrigada, — disse ela educadamente, em seguida, recuou alguns centímetros para olhar nos meus olhos. — Lamento que nosso anúncio tenha eclipsado seu dia especial. Eu ri. — Nem pensei isso. Não se preocupe. Não me importo. Na verdade, fiquei aliviada pelo anúncio ter cortado a discussão entre Danilo e eu. Eu me virei para Samuel e passei meus braços ao redor dele. Sorri. — Você finalmente vai se acalmar. Parabéns. Sua expressão se afrouxou ligeiramente. — Nunca pensei que me casaria no mesmo verão que você, joaninha. Corei, meus olhos disparando para Danilo, que deve ter ouvido o uso de Samuel do meu apelido embaraçoso. Samuel riu, mas ficou sério imediatamente quando o próximo convidado o parabenizou de uma maneira nada sincera. Recuei e permiti que os outros convidados tivessem sua vez. Danilo estava conversando com papai e tio Dante, então me afastei em direção a Anna. Ela usou a distração para pegar uma taça de champanhe. Estalei minha língua. — Seus pais não querem que você beba álcool. Ela tomou um gole deliberado. — Hmmm... delicioso. — Ela me deu um sorriso. Revirei meus olhos para ela. — Você terá problemas se eles descobrirem. — É um dia especial. — Ela cutucou meu ombro. — Você está brava porque eles transformaram seu noivado em um anúncio duplo? Por que todo mundo pensava isso? Geralmente não gostava de ser o centro das atenções de todos, só queria a atenção de Danilo. Ou desejava isso. — Não. Na verdade, estou aliviada. Anna assentiu, mas sua expressão me disse que ela estava pensando em outra coisa. — O que? — Quando eles decidiram dar Emma para Samuel? Dei de ombros. — Acho que papai, Dante, Danilo e Samuel fizeram os arranjos ontem. Eles tiveram uma reunião. Anna franziu os lábios. — Pode ser. Eles não perderam tempo em anunciá-lo, com certeza. Algo na voz dela estava errado, mas não tive a chance de perguntar por que Danilo apareceu ao meu lado. — Precisamos tirar algumas fotos. Coloquei minha mão em sua palma estendida, dando um aceno educado em troca. Apesar das minhas melhores intenções de lhe ignorar, senti a vibração familiar na minha barriga quando ele fechou seus dedos ao redor dos meus. Não conseguia desligar meus sentimentos, mesmo que Danilo não fosse exatamente o príncipe que esperava que fosse. O segui pelas portas francesas até um ponto no terraço que tinha uma bela vista dos jardins. Danilo passou o braço em volta do meu quadril e apresentou minha mão com o anel de noivado para a câmera. O fotógrafo tirou uma foto após a outra. Arrisquei uma espiada em Danilo, e seus olhos encontraram os meus por um breve momento. Ele não parecia mais com raiva. Ele parecia quase confuso. Muito cedo, o momento acabou, e voltamos para a câmera, interpretando o casal dos sonhos que esperamos um dia nos tornar.
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