Sofia
Acordei em cima das cobertas. No começo, não tinha certeza de onde estava, então tudo desabou. A festa, meu flerte com Danilo, o sexo... quase sexo? Eu nem tinha certeza de como chamá-lo.
A leve dor entre minhas pernas me lembrou de tudo o que tinha acontecido, e com ela veio a humilhação, a tristeza e novamente essa pequena chama de raiva que crescia constantemente em meu peito. Empurrei-me para uma posição sentada. Estava no meu quarto no chalé da minha família. O alívio me inundou. Danilo não tinha me levado para Minneapolis. Eu não estava preocupada em como seria punida; Estava com medo de preocupar meus pais, de causar-lhes angústia quando eles já tinham sofrido o suficiente.
Deslizei para a beira da cama. Alguém havia tirado meus sapatos e minha máscara, mas não minhas roupas. A calça de couro abraçava meu corpo desconfortavelmente.
Levantei-me, reprimindo as emoções crescentes. A julgar pela escuridão lá fora, ainda era cedo.
Danilo deve ter me trazido até o chalé, carregando-me para dentro e me colocado na cama. Uma nova onda de constrangimento tomou conta de mim.
E quanto a Anna? Ela estava de volta também? Ela deve estar tão preocupada. Arrastei-me em direção à porta, querendo procurá-la, mas então me lembrei da minha fantasia.
Encolhi-me ao olhar para mim mesma e para a roupa que escolhi para chamar a atenção de Danilo. Não poderia andar pelo chalé com ela. E se os guarda-costas me vissem?
E Danilo? Ele ainda estava aqui? Ou ele voltou para a festa? Para as garotas com quem ele estava flertando antes de eu me aproximar dele. Afastei esses pensamentos e fui direto para o banheiro. Quando vi meu reflexo no espelho, congelei, completamente atordoada com o que
vi. Meu cabelo estava emaranhado por usar uma peruca e meu rímel estava borrado sob meus olhos de tanto chorar, mas isso não era o pior de tudo.
Era a expressão em meus olhos. Era vazia e abatida. Não reconheci essa sombra desesperada de uma garota na minha frente. Não gostei dela. Depois de um banho rápido, me vesti com um short simples e um top.
Só queria voltar para casa e fingir que esse fim de semana nunca aconteceu, mas não tinha certeza se conseguiria. Em alguns meses, teria que me casar com Danilo. Agora, não conseguia nem pensar sobre isso. Não queria vê-lo nunca mais.
Peguei minhas roupas da festa do chão, enrolei-as em uma bola e joguei no lixo. Então peguei meus sapatos descartados e os escondi no canto mais distante do meu armário antes de entrar no corredor.
A casa estava quieta e pacífica. Talvez ninguém tenha acordado ainda. Desci as escadas. Temia encontrar meus guarda-costas, ou pior, Danilo ou Santino. Não tinha certeza se conseguiria lidar com um confronto agora. Precisava de tempo para chegar a um acordo com a situação. Mas a casa estava silenciosa, e eu teria pensado que estava sozinha se não fosse pelo cheiro de café.
Antes que pudesse decidir se deveria ir para a cozinha, a porta se abriu e Danilo apareceu. Nossos olhos se encontraram.
— Bom Dia. — Ele soava calmo e composto, mas não parecia.
Suas roupas estavam amassadas e a barba por fazer cobria seu rosto.
Olhei em seus olhos, esperando ver o que ele sentia. Mas seus olhos estavam cautelosos. — Bom Dia. Obrigada por me trazer até aqui.
— Essa educação forçada parecia segura, quase como se a noite anterior nunca tivesse acontecido.
Danilo acenou com a cabeça. — Você quer café?
— Sim.
O segui até a cozinha. Ele se moveu como se esta fosse a sua casa, como se nada fora do comum tivesse acontecido. Isso me irritou.
Sentei em um banquinho na mesa de madeira da cozinha enquanto Danilo me servia café. Tomei um gole, segurando a xícara como se fosse minha tábua de salvação. Por um momento, ele olhou para mim de uma forma que poderia ser considerada afetuosa, mas então ele limpou a garganta e aquela máscara educada que eu desprezava voltou.
— Como você está se sentindo?
Não tinha certeza de como responder a isso. Não queria considerar minhas emoções ou a sensação de aperto em meu peito e o vazio em minha barriga.
— Você não tem que voltar para o seu chalé? — Perguntei.
— Sofia, — disse suavemente. — Responda a minha pergunta.
Este homem na minha frente não era o mesmo que eu havia encontrado na noite anterior. Algo cintilou em seu rosto, uma emoção tentando irromper, mas não aconteceu.
Ele esperou e esperou. O silêncio ameaçou me sufocar. Ele estava de volta à aparência equilibrada e controlada, nenhum lampejo da agressão que ele havia transparecido na noite anterior. Nada que indicasse que algo havia acontecido entre nós. E o que realmente aconteceu entre ele e eu? Ele achou que eu era outra pessoa e desejou que a outra pessoa fosse Serafina.
— Sofia. — A impaciência entrou em seu tom e eu quebrei. Não podia fingir que nada tinha acontecido. Não podia, não lhe daria a absolvição que ele provavelmente queria.
— Dói, — sussurrei asperamente. — Entre minhas pernas, em meu peito, em todos os lugares. Eu deveria te odiar.
Danilo deu um breve aceno de cabeça, então finalmente seus olhos cortaram para mim. Gostaria de saber o que ele estava pensando, mas talvez fosse melhor que não soubesse. — Eu não sabia que era você.
Ele não entendia?
Pressionei meus lábios. — Confie em mim, eu sei disso.
Ele acenou com a cabeça novamente como se entendesse, mas duvidava que ele o fizesse. Ele suspirou e passou a mão pelo cabelo. — Ouça, enviei uma mensagem a Samuel, dizendo a ele que peguei você e Anna na festa e as trouxe para cá.
Congelei. — O que?
Seus olhos imploraram. — Quero ter certeza de que seu irmão fique de olho em você até nosso casamento, até que eu possa protegê-la.
A mortificação tomou conta de mim. — O quê... — Minha voz falhou.
— Não contei tudo a ele. Disse que te reconheci no momento em que você chegou à festa e te trouxe de volta imediatamente. Pedi a ele que não contasse a ninguém.
Engoli. Samuel poderia guardar um segredo, sem dúvida, mas ele guardaria esse?
— Ele provavelmente ainda está desmaiado, então não espero que chegue antes do meio-dia. — m*l o ouvi. Só queria me enrolar e chorar.
Danilo se aproximou de mim, sua voz suavemente gentil. —Sofia A porta se abriu e Anna entrou. Seus olhos se fixaram em mim.
Ela correu até mim e me abraçou com força. Quando ela se afastou, examinou meu rosto. — Sofia, o que aconteceu?
Engoli. Santino entrou na cozinha de bermuda e nada mais. Ele encarou Danilo, que retribuiu o olhar com o mesmo fervor. Lágrimas começaram a surgir em meus olhos. Anna percebeu, é claro, e afundou na cadeira ao lado da minha. Ela estreitou os olhos para Danilo. — O que você fez?
Agarrei sua mão, apertando com força para impedi-la. Ela fechou os lábios, mas eu podia dizer que lhe custou muito.
— Preciso de uma roupa limpa sua, — disse Danilo a Santino. — Temos quase o mesmo tamanho.
— Venha, — murmurou Santino.
Danilo o seguiu, mas antes de sair da cozinha, ele se virou e disse: — Vou me despedir antes de sair. Fique longe de problemas.
Eu não disse nada. Queria bater nele, queria ficar com raiva e gritar, mas eu não era esse tipo de pessoa. Então ele e Santino finalmente desapareceram.
Anna me sacudiu. — Sofia, fala comigo!
— Podemos dar uma volta? — Perguntei, ficando de pé.
Depois de pegar nossos casacos, Anna me seguiu até o lago. Nenhuma de nós falou por vários minutos enquanto caminhávamos perto da costa. Nossa respiração ficou embaçada com o ar frio da manhã. Por fim, parei e olhei para o lago.
O rosto de Anna se contorceu de preocupação. — O que aconteceu? Danilo te machucou?
Como deveria responder a essa pergunta? A dor nem começava a cobrir a angústia que eu sentia. — Sofia, conte-me o que aconteceu agora ou vou mandar o Santino atrás do Danilo.
Duvidava que Santino faria qualquer coisa, não importa o que Anna dissesse. Estávamos todos presos a esse segredo compartilhado agora.
Então, contei tudo a Anna, mesmo enquanto minhas bochechas queimavam de vergonha. Precisava tirar isso do meu peito, e não havia mais ninguém com quem pudesse falar sobre isso.
Anna me deixou desabafar, e depois colocou os braços em volta de mim. Senti-me um pouco melhor depois de tirar tudo do meu peito, mas ainda não como eu mesma. Mas quando foi a última vez que fui eu mesma? Agora não era a hora de encontrar meu caminho de volta para ela. Precisava me consertar primeiro, e o faria.
Ainda estava dolorida e meu peito doía de uma maneira que só senti depois que Fina foi sequestrada, como se meu coração tivesse sido literalmente feito em pedaços.
Anna parecia que não queria nada mais do que caçar Danilo, mas ela apenas me segurou com força, os olhos vidrados. — Você precisa parar, Sofia. Você...
— Eu sei, — falei. Seus olhos se arregalaram de surpresa. Anna vinha me dizendo há anos que eu precisava parar de tentar conquistar Danilo, convencê-lo do meu valor. Mas eu estava tão ansiosa por sua aprovação, sua atenção, sua validação. Queria que ele me visse como mais que um prêmio de consolação, que era tão digna quanto Fina havia sido. Eu mudava sempre que ele estava por perto, tentando me adaptar ao seu comportamento, tentando antecipar seus desejos. Tentando ser quem ele queria que eu fosse.
Para me tornar quem achei que ele queria que eu fosse, me perdi. Eu me vendi, desisti do meu orgulho. Pensando em como mamãe era orgulhosa, senti vergonha de minhas ações.
Pararia agora. Eu era uma mulher Mione orgulhosa e era hora de agir como uma. Danilo que se dane. — Acho que me perdi.
— Você ainda está aí. Você só a trava com muita frequência. Deixe-a sair. Antes da coisa com sua irmã, as pessoas gostavam de você pelo que era. Por que não fariam o mesmo agora?
Lágrimas queimavam meus olhos. — Não tenho mais certeza se sei quem sou. Tudo o que fiz nestes últimos anos foi para agradar aos outros. Sumi ao fundo para dar a mamãe e papai espaço para sua tristeza. Nunca pedi nada a Samuel porque não queria que ele achasse que eu queria o lugar de Fina. Sempre me adaptei a tudo ao meu redor. Fui tão estúpida.
— Então pare. Já se passaram anos desde que Fina se foi. Todo mundo teve tempo suficiente para lamentar por ela, para sentir sua falta. É hora de seguir em frente, de viver no presente. Qual é a utilidade de morar no passado? Você não pode mudá-lo.
Concordei. Mesmo que tivesse vergonha de admitir, quase não sentia falta de Fina e muitas vezes até esquecia sobre ela - até que alguém me lembrava. Normalmente Samuel, Danilo ou meus pais.
Queria seguir em frente sem a bagagem da memória de minha irmã, mas sempre me sentia péssima quando tentava, porque minha família obviamente não queria o mesmo.
— Seja egoísta pelo menos uma vez, Sofia. Neste mundo, nós mulheres temos tão poucas opções, tão pouca liberdade. Temos que agarrar a felicidade pelo colarinho e arrastá-la conosco. Não podemos esperar que a felicidade pule em nosso colo. Seja egoísta. Você merece isso.
Uni nossas mãos. Eu queria ser feliz. — Vamos continuar caminhando.
— Tem certeza de que não precisa ver um médico? — Anna perguntou quando eu estremeci.
— Tenho certeza, — disse com firmeza.
— Santino poderia nos levar a um médico que não diria nada ao meu pai ou ao seu pai. Ele conhece gente suficiente.
— Não preciso de um médico, — repeti. Santino parecia pronto para matar alguém antes. Duvidava que Anna fosse capaz de chantageá-lo para fazer muito mais, não importa o que ela tivesse contra ele. — O que eu realmente preciso é de chocolate quente.
Anna me deu uma olhada. — Você quer que eu faça chocolate quente?
— Sim, — disse com um pequeno sorriso. — Estou praticando ser egoísta.
Anna revirou os olhos, mas sorriu. — Me pedir para fazer chocolate quente depois de tudo que você passou não pode ser classificado como egoísta. Acho que precisamos praticar mais.
Voltamos para o chalé e me acomodei em frente à lareira, minhas pernas enroladas sob meu corpo e um cobertor fofo sobre mim.
— Com mini marshmallows, — gritei.
Lentamente, meu sorriso morreu. Tocando minha barriga, pensei em tudo o que aconteceu ontem. Como esperava que o dia acontecesse quando repassei nosso plano com Anna pela manhã e quão longe havia saído do curso. Achei que a noite passada terminaria com uma grande
revelação: Danilo percebendo que eu era desejável e que ele pararia de procurar uma cópia de Fina. Em vez disso, terminou com a percepção de que eu tinha desistido de mim mesma para agradar outra pessoa, e que qualquer pessoa que você retratasse, sempre seria menos do que o seu verdadeiro eu poderia ser.
Sempre me considerei uma pessoa leal, mas na primeira chance, me apunhalei pelas costas, troquei meu verdadeiro eu por uma imagem que achei que precisava ser, e onde isso me levou?
Danilo definitivamente não parecia ter percebido meu valor de repente. Ele parecia culpado e, pior, sentia pena de mim. De todas as coisas que eu queria dele, pena não era uma delas. Mas acho que é o que eu merecia por ser tão i****a.
Mesmo que a noite passada tivesse esmagado meu orgulho sob sua bota c***l, mesmo que minhas ações pudessem me arruinar aos olhos de nossa sociedade, aprendi uma lição valiosa. Danilo não era o cavaleiro de armadura brilhante que achei que ele fosse. Ele não era o cavalheiro de coração partido que procurava aquelas loiras para encontrar consolo. Na noite anterior, ele era como um caçador que procurava satisfazer suas próprias necessidades básicas. Luxúria, vingança e tudo o mais que o assombrava.
Mas estava cansada de encontrar desculpas para suas ações, cansada de tentar ser o que ele queria, o que ele precisava, porque até agora, ele não fez nada para merecer minha bondade ou afeto.
Anna estava certa. Precisava me defender pela primeira vez em anos, não apenas contra Danilo, mas também contra minha família. Precisava fazê-los ver que, embora tivessem perdido Fina sem escolha, eles desistiram de mim de boa vontade.
Coloquei a roupa de Santino e fiz a barba, depois fui em busca da Sofia para me despedir. Precisava voltar para o meu chalé antes que Marco o destruísse de raiva.
Claro, essa não era a única razão pela qual estava ansioso para deixar o chalé Mione. Precisava fugir de Sofia. Minha mente estava uma bagunça e precisava descobrir o que sentia antes de vê-la novamente. Fazia muito tempo desde tinha fodido algo tanto assim. Com sorte, seria a última vez.
Encontrei Anna e Sofia na vasta sala de estar, bebendo chocolate quente em frente à lareira. Limpei minha garganta e suas cabeças dispararam. Sofia evitou meus olhos, mas Anna não teve nenhum problema em lançar punhais para mim.
— Preciso ir. Samuel acabou de me enviar uma mensagem avisando que está a caminho.
— Tudo bem, — disse Sofia.
Anna obviamente não pretendia nos dar privacidade.
— Irei à sua festa de aniversário, assim podemos discutir quaisquer questões de última hora do casamento, caso surjam.
Sofia concordou. Quando ficou claro que ela não diria mais nada, me despedi. Carlo garantiu-me mais uma vez que não sairia do lado de Sofia.
Estava prestes a entrar no meu carro quando o Porsche de Samuel parou. Ele praticamente saltou do carro, não mais com sua fantasia de cowboy. Ele cambaleou em minha direção como se tivesse toda a intenção de me matar.
— Onde ela está?
— Lá dentro, perto da lareira. Ela está bem. Eu a trouxe de volta em segurança e ela não teve a chance de se meter em problemas.
— Foda-se! — Samuel rosnou. — Sofia não é o tipo que foge para uma festa.
Sorri amargamente. — Anna parece ser, e Santino não está ajudando muito.
— Porra. Eu deveria contar a Dante.
— Você deve manter a boca fechada ou isso vai refletir m*l em Sofia. Você sabe como é. Anna e os Cavallaros sairão ilesos da situação e nossas famílias sofrerão. Nada aconteceu, então não faça um grande negócio.
Samuel rangeu os dentes. — Não gosto disso. Quero que Santino seja punido.
— Pelo que posso dizer, ele já é punido com a tarefa de proteger a prole de Dante. Vamos continuar assim.
Entrei no meu carro e Samuel deu um passo para trás. — Talvez você devesse tentar não ficar tão bêbado com muita frequência. Espero que não tenha vomitado no meu chalé.
— Que tal você parar de f***r garotas loiras?
Engoli minha raiva. Ele tinha razão. E depois da noite passada, minha busca fútil por vingança acabou. — Cansei de brincar, não se preocupe. Vou me concentrar no trabalho até meu casamento com Sofia.
Bati a porta e parti.
DoThe