SERAFINA
Era hora do almoço quando alguém bateu. Eu não tinha visto Remo desde que ele me trouxe de volta para o meu quarto depois da minha ligação com Samuel ontem. Sávio me trouxe o café da manhã sem uma palavra. Ele provavelmente ainda estava chateado.
Kiara abriu a porta com um sorriso tímido e dias sacolas nas mãos. — Eu comprei roupas para você. Espero que sirvam.
Ela entrou seguida por Nino. Eu pulei do peitoril da janela. Meus membros estavam começando a ficar lentos devido à falta de uso. Eu me exercitava quase diariamente antes do meu sequestro, e agora tudo o que fazia era sentar.
— Suponho que significa que a minha estadia não vai acabar tão cedo, — eu disse amargamente.
Kiara suspirou. — Eu não sei.
Meus olhos se moveram para Nino, que parecia o seu estoico habitual, não que eu esperasse uma resposta dele.
Kiara me alcançou as sacolas. — Eu comprei sandálias e tênis. Alguns shorts, tops e vestidos. E calcinhas. Eu realmente espero ter acertado o tamanho.
Eu tirei tudo dela e fui para o banheiro me trocar. As roupas se encaixavam, mesmo que não fosse meu estilo habitual. Saí do banheiro de bermuda e blusa, além das sandálias.
— Então? — Kiara perguntou esperançosamente.
— Tudo se encaixa.
— Por que você não se junta a mim nos jardins? É lindo lá fora e tenho certeza de que você não aguenta mais essas paredes.
Eu fiz uma careta. — Eu não suporto esta cidade, mas adoraria me juntar a você. — Meus olhos se voltaram para o seu marido cuja expressão tinha endurecido em sua sugestão. — Se ele permitir.
Nino deu um aceno rápido, mas era óbvio que não aprovava.
Eu segui Kiara para fora do quarto enquanto Nino andava atrás de nós para me vigiar.
— Deixe-me pegar a salada que preparei para que possamos almoçar, — disse Kiara quando chegamos ao andar térreo. Eu fiz um movimento para segui-la até a cozinha, mas Nino agarrou meu pulso, me impedindo. — Você vai ficar aqui.
Eu puxei meu pulso fora de sua mão, estreitando meus olhos para ele. — Não me toque.
Nino sequer estremeceu. — Se você está pensando em tentar algo, não faça. Eu não quero te machucar, mas se você machucar Kiara, vou tornar isso muito doloroso para você.
— Não é ela que eu quero machucar. Ela não pode evitar ser casada com você.
— De fato, — concordou Nino.
Kiara voltou com o que parecia ser uma salada Cesar, o olhar dela voando entre seu marido e eu. — Tudo certo?
— Sim, — eu disse, porque mesmo que odiasse os Falcone, a proteção de Nino era algo que eu podia respeitar.
Logo estávamos sentados em volta da mesa do jardim, comendo salada. Meus olhos começaram a vagar pelas instalações mais uma vez, mas eu sabia que não havia maneira fácil de escapar. Para minha surpresa, Nino nos deu mais espaço. Ele sentou em uma cadeira nas sombras com um laptop que pegou na saída.
— Eu não posso imaginar quão horrorizada você deve ter ficado quando lhe disseram que Nino Falcone seria seu marido, — eu disse.
Kiara mastigou devagar e engoliu em seco. — Foi um choque no começo. A Camorra não tem a melhor reputação.
Eu bufei. — Eles são monstros.
— Os monstros da minha família me machucaram. Eu não experimentei nenhum tipo de humilhação ou dor em Las Vegas, — ela disse firmemente.
— Ainda. Eu já estava nervosa no dia do meu casamento. Não consigo imaginar como deve ter sido para você.
Kiara encolheu os ombros. — E o seu noivo? Que tipo de homem ele é?
— Ele é subchefe de Indianapolis.
— Isso não responde à minha pergunta... ou talvez sim.
— Eu não o conhecia muito bem, — eu disse quando Remo surgiu. — Mas tenho toda a intenção de conhecer Danilo melhor quando finalmente for casada com ele.
Remo me deu um olhar duro. — Tenho certeza que ele será uma delícia.
Eu estreitei meus olhos. — Ele é.
— Vou levar Serafina para passear pela propriedade, — disse ele a Kiara. Ela assentiu e ele se virou para mim. — Vamos.
Apesar do meu aborrecimento com seu tom de comando, fiquei de pé, feliz por mover minhas pernas. Os olhos de Remo me examinaram da cabeça aos pés enquanto ele me conduziu passando a piscina. — Kiara comprou roupas para você.
— Eu preciso me exercitar, — eu disse, ignorando o comentário dele. — Eu não posso ficar sentada o dia todo. Estou enlouquecendo. A menos que seja o que você quer, precisa me deixar correr em uma esteira.
Remo sacudiu a cabeça. — Não há necessidade de uma esteira. Eu corro todas as manhãs às sete. Você pode se juntar a mim.
Eu me permiti uma rápida varredura de seu corpo. Claro que ele se exercitava. Seu corpo era todo músculo. Eu sabia que ele e seus irmãos lutavam em gaiolas lutando e correr era uma boa maneira de melhorar sua resistência. — Isso parece razoável.
A boca de Remo se contraiu. — Estou feliz que você pense assim.
— O que você pediu ao meu tio pela minha liberdade? — Eu perguntei a ele depois de um tempo.
— Minneapolis.
Eu parei bruscamente. — Isso é ridículo. Meu tio não te dará nenhuma parte do território dele. Nem meu pai desistiria de sua cidade para me salvar.
O sorriso de Remo escureceu. — Eu acho que seu pai teria prazer em me dar sua cidade se dependesse dele.
Engoli. Eu não queria pensar na minha família. Não quando Remo estava me observando de perto. Eu chorei o suficiente na frente dele ontem. — Você sabe que Dante não vai atender às suas exigências.
Remo assentiu.
— Então por que fazê-las?
— Este é um jogo de xadrez, Angel, como você disse. Preciso posicionar minhas peças antes de atacar.
Remo parecia tão incrivelmente seguro de si mesmo, que me preocupava que talvez ele realmente ganhasse no final.
Eu me afastei dele e continuei andando. — Estou surpresa que Luca Vitiello tenha concordado com o seu plano. Eu costumava pensar que a Famiglia era honrada, mas aparentemente eles desceram tão baixo quanto a Camorra agora.
Remo tocou meu ombro e me fez parar. — Diga-me, Serafina, qual é a diferença entre um casamento arranjado com Danilo e ser minha prisioneira?
Eu olhei para ele incrédula, mas antes que pudesse responder, ele falou de novo.
— Você não escolheu Danilo. Você será dada a ele como uma prisioneira relutante e o anel em volta do seu dedo será o seu grilhão, o casamento sua gaiola. — Seus olhos escuros seguraram triunfo como se eu não pudesse argumentar em minha defesa. Meus olhos dispararam para o anel em volta do meu dedo. Sua visão não tinha o mesmo orgulho e emoção que costumava ter.
— Você terá que se render ao corpo dele, quer o deseje ou não, e seu corpo e alma estarão à sua mercê. Diga-me de novo, como seu casamento arranjado é diferente de ser minha prisioneira?
Remo se inclinou, segurando meu olhar o tempo todo, e eu não recuei. Seus lábios roçaram meu queixo, depois minha bochecha e finalmente minha boca. — Seu 'não' não significa nada em um casamento. Você chama isso de liberdade?
Pressionando meus lábios, eu olhei para ele, orgulhosa demais para admitir que suas palavras faziam sentido. Remo tinha um jeito de torcer as coisas do jeito que ele queria, até que você acreditasse que elas eram a verdade.
— Você já fantasiou sobre Danilo? Você o deseja?
Eu gritei. — Isso não é da sua conta.
Remo balançou a cabeça enquanto acariciava minha garganta, então minha clavícula com as pontas dos dedos ásperos. — Você não fez. Sua mente disse sim a ele, e você esperava que seu corpo a seguisse. — Seus dedos na minha pele tornaram difícil pensar, mas eu não queria lhe dar a satisfação de me afastar. — Eu me pergunto quanto tempo vai levar para sua mente me dizer sim porque seu corpo tem gritado sim desde o primeiro momento.
Eu me afastei dele. — Você é insano. Nem meu corpo nem minha mente dizem sim para qualquer parte sua, Remo. Acho que ser o soberano incontestável de Las Vegas fez de você um megalomaníaco.
Os olhos escuros de Remo enviaram outro arrepio pela minha espinha, e eu me afastei, correndo tanto de sua expressão aterrorizante quanto do peso da verdade. Apesar do meu ódio pelo Capo da Camorra, seus beijos e proximidade causavam estragos em mim.
Suspeitei que fosse devido ao meu cativeiro, uma forma da Síndrome de Estocolmo. Eu me assegurei de manter distância enquanto Remo me levava de volta para o meu quarto, e ele não tentou me tocar novamente. Antes de me trancar, perguntei: — O que você realmente quer, Remo?
Ele me olhou com uma intensidade inquietante. — Você sabe o que eu quero.
— Corpo e alma, — eu murmurei.
Um canto de sua boca se levantou. — Corpo e alma.
Ele fechou a porta e eu fiquei com o redemoinho de pensamentos na minha cabeça. Eu precisava descobrir uma maneira de fugir. Talvez minha família já estivesse planejando algum resgate insano. Samuel certamente estava. Se não abertamente então definitivamente em sua cabeça. Não havia como alguém sobreviver a um ataque ao território da Camorra. E não me enganei pensando que Remo iria me libertar tão cedo. Ele estava fazendo exigências, mas não queria que elas se cumprissem. Ainda.
REMO
Como prometido, peguei Serafina às sete para que ela pudesse correr comigo. Normalmente eu preferia fazer minha corrida matutina sozinho, mas não pude resistir à presença dela.
Serafina usava shorts, uma camiseta e tênis.
Ela me seguiu em silêncio pela casa, mas parou quando a conduzi para a entrada da garagem. — Onde estamos indo?
— Nós vamos correr, como eu disse. Você acha que dou voltas no jardim?
Eu abri a porta do meu Bugatti SUV para ela, e ela entrou sem outra palavra. Eu fui para trás do volante e desci pela estrada, sentindo os olhos dela em mim. Eu gostei da sua confusão.
Levei-nos até uma trilha em um desfiladeiro próximo, onde corri antes. Logo estaria quente demais, mas no início da manhã a temperatura estava perfeita para correr. Serafina me seguiu para fora do carro e olhou em volta do estacionamento de cascalho. Nós éramos as únicas pessoas ao redor. Seus olhos estavam avaliando e atentos. Ela tentaria algo, e eu tinha que admitir que m*l podia esperar por isso.
Nós corremos um ao lado do outro por um tempo antes que ela falasse. — Você não está preocupado que eu possa fugir?
— Eu peguei você uma vez antes.
— Eu estava presa no meu vestido de noiva, então estava muito lenta.
— Eu sempre vou te pegar, Angel.
Depois de trinta minutos, fizemos uma pausa para beber. Eu poderia dizer que Serafina estava explorando o terreno. Tomando um gole de água, observei enquanto ela se agachava e amarrava os tênis novamente. Quando ela se endireitou, soube pela tensão em seus membros que ela estava prestes a fazer alguma coisa. Ela jogou areia no meu rosto e realmente conseguiu atingir um pouco meus olhos. Através da visão embaçada, eu a vi correr. Rindo, apesar dos meus olhos ardentes, fui atrás. Eu lidei com pior.
Serafina era mais rápida do que da última vez, e não ficou na trilha, o que foi um grande risco da parte dela. Se ela se perdesse por aqui, morreria de desidratação antes de encontrar o caminho de volta à civilização. Eu peguei meu próprio ritmo. Serafina pulava para evitar pedras e praticamente voou pelo chão. Era uma bela vista. Muito mais bonita do que tê-la trancada em um quarto.
Eventualmente, eu a alcancei. Suas pernas eram muito mais curtas e ela era menos musculosa. Quando cheguei perto o suficiente, coloquei meu braço ao redor de sua cintura como da última vez. Nós dois perdemos o equilíbrio no impacto e caímos. Eu caí de costas com Serafina em cima de mim. Ela bateu o joelho no meu estômago e se debateu para sair dos meus braços. Antes que ela pudesse causar danos reais, eu rolei e a pressionei no chão com meu peso, seus pulsos acima da cabeça.
— Te peguei, — murmurei, ofegante, pingando suor.
O peito de Serafina arfava, os olhos indignados e furiosos. — Você gosta da perseguição.
— Na verdade, não, — eu disse em voz baixa, aproximando nossos lábios. — Mas com você eu gosto.
— Você sabia que eu iria correr, — ela murmurou.
— Claro. Você está destinada a ser livre. O que me faz perguntar por que permite que alguém como Danilo prenda você.
Ela se contorceu debaixo de mim. — Me deixe sair.
— Estou gostando de estar em cima de você e entre suas pernas ágeis. — Eu balancei minha pélvis ligeiramente.
Ela endureceu. — Não.
Eu lambi uma gota de suor de sua garganta antes de me afastar dela e me levantar. Serafina ignorou minha mão estendida e levantou cambaleante. Seu cabelo tinha caído do r**o de cavalo e ela estava coberta de sujeira e suor.
— Eu prefiro você assim.
Ela franziu a testa. — Suja?
— Indomável. Vê-la naquela atrocidade branca nem se compara. Muito perfeita, muito arrumada, muito falsa. Aposto que Danilo teria adorado.
Ela não disse nada e eu sabia que parte das minhas palavras a atingiu. Meus olhos foram atraídos para o antebraço, que ela estava esfregando distraidamente. Uma pequena parte do corte se abriu novamente e estava sangrando.
Um lampejo de culpa me pegou desprevenido. Não era uma emoção que eu sentia com muita frequência. Eu peguei o braço dela e inspecionei a ferida. Havia entrado sujeira nela. — Precisamos limpar isso para evitar a infecção.
Seus olhos azuis examinaram meu rosto, mas tive dificuldade em ler a expressão dela. Eu a levei de volta para o carro. Estava ficando muito quente e depois da perseguição, nós dois precisávamos de um banho. Peguei uma nova garrafa de água do porta malas e despejei sobre a ferida de Serafina, limpando-a com cuidado com as pontas dos dedos. Ela estremeceu ocasionalmente, mas não disse nada. — O tratamento silencioso não é o seu estilo habitual, — eu comentei.
— Você não me conhece.
Eu sorri. — Eu te conheço melhor do que a maioria das pessoas. Melhor que Danilo.
Ela não me contradisse.
— O ódio pode te libertar, — eu disse.
— Assim como o amor, — disse ela. — Mas duvido que você entenda.
Serafina ficou em silêncio no caminho de volta para a mansão, com o olhar distante enquanto espiava pela janela lateral.
Eu a levei de volta ao seu quarto, sabendo que ela tinha muito que pensar antes de entrar no meu próprio quarto para tomar um banho. Quando voltei para a sala de jogos mais tarde, Savio estava descansando no sofá, digitando em seu telefone. Quando me viu, ele o largou e sorriu.
— Nino não está feliz por você ter levado a c****a para correr.
Eu afundei ao lado do meu irmão. — Isso ofende sua lógica.
Savio riu. — Mas sinceramente, Remo, ele tem razão. Aquela garota é imprevisível.
— Isso a torna ainda mais divertida, — eu disse.
Sávio me deu um olhar curioso. — Você está gostando disso mais do que pensei. E você nem sequer a fodeu... ou fodeu?
— Não, eu não a fodi. Serafina é um desafio surpreendente.
— Muito trabalho para o meu gosto, — disse Savio com um encolher de ombros. — Eu prefiro garotas que calem a boca quando mando, que chupam meu p*u quando quero. Menos aborrecimento.
— Eventualmente, você terá feito tudo. Fodido em todas as posições possíveis, feito toda a merda que pode imaginar. Torna-se mais difícil conseguir a emoção do começo.
Ele se apoiou em seus joelhos. — Você não está pensando em mantê-la... está?
— Não.
Eu liguei para Dante à tarde. Ele atendeu após o segundo toque, sua voz fria e dura, mas com uma tensão subjacente que me estimulou.
— Dante, eu queria perguntar quando você vai cumprir minha exigência.
— Eu não vou, assim como você pretendia. Eu não tenho tempo para seus jogos, Remo. Isso é entre nós, entre você e eu. Por que não nos encontramos pessoalmente, Capo a Capo, e resolvemos isso como homens?
— Você quer duelar comigo? Como você é arcaico, Dante. Você não me pareceu o tipo primitivo.
— Terei prazer em convencê-lo do contrário.
Eu quase concordei porque a ideia de empurrar minha faca repetidamente no Gold Fish era muito sedutora. Lutar contra Dante seria o ponto alto. Já que cortar Luca em pedacinhos estava fora de questão por enquanto, Dante era o oponente que eu desejava. Havia apenas uma coisa que eu queria mais do que matar Dante: ter Serafina em todos os sentidos possíveis e destruir a Outfit através dela.
— Teremos que adiar nosso duelo para um momento posterior, Dante. Por enquanto, tenho exigências que quero que você cumpra se quiser que sua sobrinha volte para a família inteira.
— Eu não vou negociar com você, Remo. Você não terá um centímetro do meu território. Agora diga o que você realmente quer. Nós dois sabemos o que é.
Eu duvidava que ele soubesse o que eu realmente queria. Talvez apenas Nino soubesse. — E o que eu quero?
— Você quer meu Consigliere. Fabiano é seu Executor e assumo que o acordo que você fez com Vitiello implicou sua promessa de entregar Scuderi para que todos vocês possam desmembrá-lo juntos.
— Duvido que Luca faria parte do desmembramento de
Scuderi. Ele prefere cortar você em pedaços, Dante.
— Vitiello não é o aliado que você acha que é. Sua Famiglia é propensa à traição. É insensato da sua parte me fazer seu inimigo.
— Dante, somos inimigos desde o momento em que reivindiquei o poder. E no momento em que seus malditos soldados invadiram meu território, isso se tornou pessoal. Eu não preciso de Luca como um aliado enquanto sei que o ódio dele por você supera o ódio dele por mim.
— Um dia a dele e a sua precipitação serão suas quedas.
— Muito provavelmente, — eu rosnei. — Mas até que isso aconteça, sua consciência terá que viver com a queda gradual de Serafina.
Eu desliguei. A cada dia que Serafina estava em minhas mãos, minha situação ganhava mais força.