Capítulo 22

689 Words
Maike: Faz quase uma semana que eu e a Samanta estamos trancados nesta casa. Só a vejo quando ela vai até a cozinha ou quando a ouço cantar. A chuva não cessou, e estamos todos presos aqui. Para piorar, houve uma enchente, e a ponte está interditada. A única coisa que me conforta é que o celular finalmente tem sinal. Alessandro já ligou várias vezes perguntando por ela. Aproveitei para questioná-lo sobre a festa, perguntando se ele ao menos pediu para verificarem as câmeras e descobrirem quem a assustou daquele jeito. Mas ele disse que não encontrou nada. Achei estranho, muito estranho. Assim como também me pareceu suspeito o fato de ela ter chegado aqui em uma caminhonete velha. Não deu para ver o motorista, mas algo curioso prendeu minha atenção: quando dois carros pretos passaram, ela se escondeu. A câmera capturou até o momento em que ela subiu em uma árvore próxima ao muro. As câmeras também captaram o momento exato em que ela, de forma sorrateira, driblou a visão dos seguranças e se escondeu debaixo do carro do meu pai. Uma menina conseguiu burlar uma equipe de segurança composta por marmanjos bem treinados. E, pior, ficou aqui por vários dias sem ser descoberta. Todos os dias, ela vinha até os pés de fruta, pegava algumas, me observava pela janela e depois voltava para o esconderijo. Sorri, me sentindo o maior dos idiotas. Suspiro. Preciso que essa chuva passe logo para que eu possa investigar o que Samanta está escondendo. Apesar de não aparentar ter machucados ou sinais de maus-tratos, ela chegou aqui muito magra, desidratada e suja. Será que os pais dela morreram e ela foi criada por algum parente que a maltratava daquela forma? Balancei a cabeça em negativa. Preso em pensamentos e ansioso para descobrir o que, de fato, Samanta esconde, sobressaltei da cadeira ao ouvir um grito agudo seguido de um baque no chão. Por um instante, fiquei sem reação, mas, rapidamente, me levantei e saí do meu escritório, indo em direção ao local de onde veio o barulho. Quando cheguei à metade do corredor que leva à cozinha, vi Samanta caída, desmaiada. Meu coração disparou, e uma onda intensa de medo me invadiu. Agachei-me rapidamente e a peguei nos braços, sentindo seu corpo quente, pegando fogo. Ela estava com febre. Subi as escadas às pressas e entrei no primeiro quarto que encontrei, o meu, por estar mais perto. Fui direto para o banheiro, liguei o chuveiro e entrei debaixo d’água com ela. — Meu Deus, por pouco você não teve uma convulsão, garota. Ela se agarrou a mim e começou a murmurar coisas desconexas. — Num… não me leva. Num quero ficá presa na gaiola, eles vão me vender. Num me machuca... Meus olhos se arregalaram tanto que, por um momento, senti como se fossem saltar do rosto. — Quem queria vender você, Samanta? Uma onda de fúria me invadiu, e eu a apertei contra o peito. — Ninguém vai vendê-la. Ninguém vai tocar em você! Rugi, tomado por uma raiva maior do que deveria. Aos poucos, a febre começou a baixar. Ela abriu os olhos lentamente e murmurou: — Sr. Rude… Você parece um príncipe. Neguei com a cabeça, mas um sorriso involuntário surgiu em meus lábios. Ela começou a tremer. Saí da água e a levei para a cama. O problema era que eu teria que despi-la. Se ao menos a Cacilda estivesse aqui... Respirei fundo, peguei um lençol e cobri todo o seu corpo. Com cuidado, deslizei a alça do vestido por baixo e, em seguida, tentei remover a calcinha. Mas, para minha surpresa, ela não estava usando nada. Engoli em seco e fui até o banheiro pegar uma toalha. Enrolei-a em seu cabelo, depois tirei minha roupa rapidamente e desci para buscar alguns remédios, enquanto me perguntava se essa garota queria morrer. Garota mais sem juízo... Mas o que mais me atormentava era o que ela disse em meio ao delírio. Alguém queria vendê-la? Peguei alguns remédios para a febre e voltei para o quarto. Se ela não melhorar, vou precisar dar um jeito de levá-la para um hospital.
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