Capítulo 21

535 Words
Maike: Não consegui me mover; as palavras de Samanta ecoavam na minha cabeça. Eu já desconfiava que algo r**m havia acontecido com ela, mas ouvir cada palavra sair de sua boca, carregada de desespero, era completamente diferente. "Quem será que a manteve presa por tanto tempo?" A pergunta martelava na minha mente sem descanso. Lembrei do ocorrido na festa. "Será que ela encontrou alguém do passado lá?" Saí do meu turbilhão de pensamentos ao som de um trovão ecoando por toda a casa. Eu queria fazer perguntas, entender mais sobre o que aconteceu com ela. Era difícil admitir, mas existia uma grande diferença entre se isolar do mundo e ser mantido preso, privado de tudo. Passei a mão pelo cabelo molhado e subi as escadas. Precisava conversar com ela, entender o que houve. Mas também sabia que ela não diria nada. Ela deixou escapar a verdade no calor do momento, tomada pelo nervosismo e pela ânsia de fugir daqui. Samanta foi a primeira pessoa que jogou a realidade nua e crua na minha cara. E eu nem podia retrucar, porque ela tinha razão em cada maldita vírgula. Isso só me deixava ainda mais irritado. Subi as escadas correndo e fui direto ao quarto dela, mas parei ao ouvi-la resmungar. — Esse cara tinha que aparecê pra atrapaiá minha fuga. Ele nem gosta de mim, que ódio! Como vou escapá agora? Eu num ia roubá nada, num! Ricaço metido a b***a… Eu devia era tê metido um galho de novo na sua testa! Comecei a rir baixinho. Achava engraçado o jeito dela falar errado, principalmente quando estava irritada. Desci e preparei um chocolate quente e um chá, porque a doida tomou toda essa chuva nas costas. Se ela ficar doente, papai vai me culpar. Depois de tudo pronto, subi novamente, mas parei ao ouvi-la resmungando: — Porque foi abrir esse bocão, Samanta? Ai, tô me sentindo tonta de tanto andá pra lá e pra cá igual barata tonta! Bati na porta.— Não tô recebêno visita! Mas que ousadia… Visita? Bufei. — Se você não lembra, eu sou o dono da casa, não uma visita. — Grandes coisa. Num quero vê essa tua cara de vira-lata, seu cachaceiro safado! Era a primeira vez que eu me pegava rindo das coisas que ela falava. — Trouxe um café e um chocolate quente. Abre, por favor. Segundos depois, a maçaneta girou. Ela abriu a porta um pouco e, de braços cruzados, me encarou desconfiada. — O que tu qué? Nisso aí tem veneno? Semicerrei os olhos e apertei a bandeja com força. — Você acha que eu me daria ao trabalho de te matar? Se quisesse, era só ter deixado você segurar na cerca elétrica. — Cruz credo! Vira essa boca pra lá! Num me deixou ir embora pra jogá praga em mim, foi? Rude! — Vim apenas trazer isso, mas conversar com você é impossível. Coloquei a bandeja no criado-mudo e saí do quarto. Ela realmente me tirava do sério. — Ai, como ele se ofende fácil! Era só tê me deixado fugí… Num tava roubano nada! Olhei para trás, mas não respondi. Não sei… Mas o simples fato de ela querer ir embora agora me incomodava.
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