Capítulo 20

1040 Words
Na manhã seguinte… Ontem foi difícil para Samanta dormir, ela se virou a noite toda na cama. Estava muito inquieta. Me levantei cedo. Não devia ter permitido que ela dormisse na minha cama. Ela pode começar a confundir as coisas, mas também não podia deixá-la naquele estado. Levanto-me e vou até as janelas de vidro, observando o céu escurecido. Ainda está caindo um temporal e, para piorar, estamos sem comunicação. O que torna tudo pior, Cacilda não veio hoje e não tem como entrar em contato com ela. "Merda!" Resmungo baixinho, enquanto penso no que fazer. Volto o olhar para a garota dormindo em minha casa e a encontro agora acordada, sentada na cama. Ela não fala nada, apenas me encara. — Bom dia! — Bom dia! Ela responde, um pouco envergonhada e hesitante. E é a primeira vez que a vejo assim. — Está se sentindo melhor? Ela balança a cabeça positivamente, desconfiada. — Cacilda não virá hoje, com essa chuva não conseguirá chegar até aqui. Você terá que fazer a sua própria refeição. E, Samanta, não quero que pense bobagens só porque permitir que dormisse na minha cama ontem, isso não vai acontecer novamente. Ela confirma com a cabeça e se levantou da minha cama. Vai até a porta e diz: — Valeu, senhor Rude. E num confundi nada, num. E saiu, me deixando sem palavras e furioso ao mesmo tempo. Eu ainda a ajudo e ela me chama de rude? Como ela ousa? Bufei, cruzei os braços e me virei para a janela. Mas era nítido que Samanta ainda estava assustada. Preciso que essa tempestade acabe logo para que eu possa entrar em contato com algumas pessoas. Por enquanto, vou abrir as filmagens e ver como ela veio parar aqui. *** Eu preciso dar o fora daqui, arranjar um jeito de escapar e ir para bem longe. Como dizia dona Cotinha: "seguro morreu de velho." Não sabia que bandido ia para festa de gente rica, mas se até eu fui, eles também podem ir. E se ele vier atrás de mim? Não… não posso deixar isso acontecer. Balanço os dedos, me sentindo nervosa. Preciso fugir. Antes que ele me pegue de novo e me venda. Arregalei os olhos. E se o senhor Rude me der para ele? Até que ele foi fofinho, por isso dei esse apelido para ele. Mas só foi abrir aquela boca dele para tudo se acabar. Num dia ele é fofinho e num outro rude. — Poxa, preciso sair daqui rapidinho. Minha barriga roncou. Primeiro vou comer, depois faço uma trouxinha de comida para não cair dura de fome de novo. Mais tarde, quando todos estiverem dormindo, vou tentar pular o murão. [...] Horas mais tarde... Adentrei meu escritório, olhei para o relógio: dez e meia da noite. Não vi a Samanta o dia todo, desde que ela entrou no quarto, não a vi mais. Talvez porque eu não saí do meu, a não ser para dar uma passada rápida na cozinha e fazer um lanche. A chuva ainda caía forte lá fora, sem sinais de que fosse ceder tão cedo. Não me agrada a ideia de ficar trancado dias em uma casa, mas temos que respeitar as coisas superiores a nós. Me sentei de frente para o computador e abri as imagens das câmeras. Meu corpo gelou. Na câmera oito, que fica na parte superior da casa, vi Samanta andando de fininho, com uma trouxinha nas costas, tentando subir em uma árvore próxima ao muro. Mas o que essa maluca não sabe é que a cerca é elétrica. Sai às pressas do escritório antes que aquela garota morra eletrocutada e a culpa recaia sobre mim. As gotas de chuva grossas molhavam minha roupa, meus pés quase afundavam na lama. Ela deve ter aproveitado que os seguranças se recolheram cedo por causa da chuva. Quando me aproximei, vi o exato momento em que ela escorregou e caiu na poça de água. — Ai, diaxo... Prendi o riso e coloquei as mãos nos bolsos. — Você bem que podia me dar uma mãozinha e me deixar subir em você. Ela tentou se levantar. Essa eu quero ver. Cruzei os braços, mas, quando ela estava prestes a segurar a cerca elétrica, segurei seu tornozelo e a puxei para baixo. —Aaaaaaaaaaah! Me solta! — Te peguei, fujona. Onde pensa que vai?Perguntei assim que ela caiu em meus braços. Ela me olhou, seus olhos se arregalaram, mas, no minuto seguinte, a selvagem pulou para fora dos meus braços. — Num me agarra, não. Te dou um sapatada. Me aproximei dela, segurei seus braços e a levei para dentro sob protestos. — Se quer ir embora, pelo menos diga isso diretamente ao meu pai, para que ele não me culpe depois. Não seja ingrata! — Num sou ingrata coisa nenhuma. Você nem gosta de mim, cara. É só me deixar ir embora. — Quando a chuva passar e meu pai vier vê-la, aí sim você poderá ir embora, e eu ficarei livre de você de uma vez por todas. — VOCÊ NUM ENTENDE! Ela gritou. — Eu preciso fugir! Parei e a olhei, o cenho franzido. Ela arregalou os olhos, percebendo que tinha falado demais. — Então me conte, o que eu não entendo? Ela começou a chorar e disse, entre soluços: — Se você tivesse sido criado feito um passarinho preso na gaiola, ia saber, mas você tem tudo isso e uma família que te ama... O que ela disse foi pior que um soco na cara. — Tem um pai que te ama e irmãos... eu nunca soube o que é ser amada e protegida. Ela saiu correndo para dentro de casa. — Samanta? Chamei, mas parei no meio do caminho quando ela olhou para mim e, terminando de me socar, falou: — Você faz o seu pai sofrer, se eu tivesse um, eu ia abraçar e beijar ele todos os dias. Porque é r**m ser sozinha. Você nem tem motivos para viver preso. Eu fui obrigada a viver feito um bicho preso. Ela se virou e saiu correndo. Não tive coragem de ir atrás dela. Fiquei parado no meio da escada, absorvendo suas palavras, que perfuraram meu coração como uma furadeira abrindo um buraco.
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