Os primeiros dias foram um inferno.
Eu não sabia o que era pior: a teimosia da Samanta ou o fato de que ela parecia gostar de me tirar do sério. Desde o momento em que chegou à minha casa, ela fazia questão de deixar claro que não queria minha ajuda. O problema é que ela não tinha escolha.
O Raul foi claro: repouso absoluto, alimentação equilibrada e remédios nos horários certos. Como eu poderia confiar que essa criatura faria isso sozinha? Depois se algo acontecesse a ela meu pai me culparia, com certeza.
E foi assim que me vi no papel mais absurdo da minha vida: babá de uma pirralha teimosa.
Logo no primeiro dia, levei um café da manhã decente para ela. Frutas, pão integral e suco natural. Nada demais. Mas, ao entrar no quarto, encontrei Samanta enrolada no cobertor feito um casulo, só os olhos de fora.
— Levanta, Samanta, tá na hora de comer.
Ela bufou e se enfiou ainda mais no cobertor.
— Num quero...
— Não tem querer. Ou você come, ou enfio esse pão na sua boca.
— Só se for com mortandela... Murmurou, ainda escondida.
Fechei os olhos, já prevendo o que vinha.
— Você não pode comer embutidos.
Ela se virou de repente, me encarando com indignação.
— Eu num posso comer nada, é?
— Pode comer comida saudável.
— Ah, e mortandela é o quê? Um veneno?
— Para você, quase isso.
Ela cruzou os braços, emburrada.
— E bacon?
— Não.
— Um refri geladinho?
— Nem pensar, você quer passar m*l de novo?
Ela bufou alto e se jogou na cama.
— Ah, pode me matar logo, eu prefiro!
Ignorei o drama e saí do quarto. Quando voltei, encontrei a bandeja quase vazia e Samanta lambendo o dedo por causa do requeijão. Pelo menos, um problema a menos.
Mas se alimentar era fácil perto do terror que era dar os remédios.
— Samanta, toma isso.
Ela me olhou desconfiada.
— Que trem é esse?
— O remédio. O que você precisa tomar.
— Mas e se isso num for remédio? E se for veneno?
Fechei os olhos, respirando fundo.
— E por que diabos eu te daria veneno?
— Porque você me odeia.
— Se eu quisesse te matar, tinha te jogado do helicóptero.
Ela arregalou os olhos.
— Viu? Você pensa nisso!
Eu não acreditava que estava tendo essa conversa.
— Samanta, toma logo esse remédio antes que eu perca a paciência.
Ela pegou o comprimido, olhou para um lado, olhou para o outro, cheirou e depois jogou na boca. Mas ao invés de engolir, tentou esconder debaixo da língua. — Engole. Ela balançou a cabeça. — Engole agora.
Mais um aceno negativo. Eu me aproximei e apertei sua bochecha. — Se não engolir, eu enfio água goela abaixo.
Os olhos dela se arregalaram, e, finalmente, ela engoliu.
— Credo, senhor Rude!
— E você é uma praga.
Os dias foram passando...
Cada dia era uma nova briga. Se não era para comer, era para tomar o remédio. Se não era o remédio, era para ficar de repouso.
Eu passava o dia cuidando dela à distância, já que ela parecia achar que eu estava ali para encher o saco. Quando a chuva não a deixava sair, eu ficava em outro cômodo, controlando o horário da medicação e levando a comida até ela, mas sempre mantendo uma distância estratégica para evitar as brigas.
Às vezes, dava uma olhada pela porta para ver se estava tudo bem, e ela, claro, ficava fazendo drama. De vez em quando, eu tentava falar, dar uma orientação, mas ela respondia com uma careta e voltava a fazer o que queria.
Mas quando ela estava realmente m*l ou com dores, não tinha como ignorar o fato de que eu me importava. Eu sabia que, no fundo, ela precisava de mim, mesmo que ela não admitisse. Por mais que a gente brigasse, eu cuidava dela porque, no fundo, ela ainda era uma pessoa que eu tinha que proteger. E, sem que ela soubesse, algo estava mudando dentro de mim.
Não vou mentir, ela testa a minha paciência. E muito. Como agora, por exemplo. A chuva deu uma pausa, mas ainda continuava nublado. Ela saiu para tomar um pouco de ar fresco. Não questionei. Mas, claro, o que aconteceu? Começou a chover de novo. Fui até a porta e a chamei.
— O que pensa que tá fazendo?
Ela, já com um pé na porta, congelou.
— Eu só ia ali fora...
— O médico disse repouso e está começando a chover chover. Já foi lá fora, Samanta. Não seja teimosa.
Ela cruzou os braços e me encarou com um olhar desafiador.
— Mas eu já repousei demais, num aguento mais!
Segurei a ponte do nariz, tentando não perder a paciência. Se tem uma coisa que eu não aguento é a teimosia dela.
— Samanta, você ainda não está bem.
Ela fez uma careta, como se isso fosse algo que eu estivesse inventando.
— Mas eu tô entediada, Maike! Me deixa pelo menos dar uma voltinha no jardim. Nem tive tempo de passar por lá.
Eu respirei fundo. O que ela me pedia era até razoável, mas eu tinha que garantir que não exagerasse. Então, fiz um acordo.
— Tá, você pode sair para o jardim. Mas tem que ficar sentada e coberta. E eu vou ficar de olho.
Ela me olhou como se tivesse vencido a guerra. Aceitou a proposta, mas é claro que eu sabia que a história não terminaria aí.
E não terminou. Pouco tempo depois, eu olhei pela janela e lá estava ela, tentando pular um canteiro de flores. Eu queria me desesperar, mas sabia que, no fundo, aquilo não tinha como acabar bem. — Samanta!
Ela deu um pulo, mas a falta de equilíbrio fez com que caísse sentada no canteiro.
— Eu só tava testando a perna, Maike...
Claro que estava.
E assim tem sido os meus dias. Eu me via cada vez mais acostumado com a presença dela. Era irritante, claro, mas também... estranhamente divertido. Quando ela não estava me desafiando, até conseguia rir de algumas situações. Não que eu fosse admitir isso pra ela.