Samanta:
Eu num aguento mais esse homem rabugento! Parece até que eu sou passarinho preso na gaiola de novo.
— Samanta, num pode isso. Samanta, num pode aquilo. Samanta, fica quieta. Samanta, descansa.
Aff! Ele me vigia mais que cachorro bravo. Se eu respiro mais forte, já vem ele perguntando o que tô aprontando. Só queria dá uma voltinha no jardim, mais num posso. Subi num banquinho? Capaz dele me amarrá na cama. Num posso nem me mexê direito!
E agora tô sintindo falta da Cacilda. Ela é tão boazinha... Sempre me trata bem, me dar comida gostosa. Tomara que essa chuva passa logo, porque quero vê ela de novo!
Lembrei da dona Cotinha...
Ela era igualzinha a Cacilda. Quando eu tava no cativeiro, ela cuidava de mim. Sempre falava manso, fazia comida boa quando os bandidos num tava, contava história de príncipe e princesa. Ela dizia que um dia eu ia tê meu final feliz... Coitada, m*l sabe ela que meu príncipe é um ogro que só sabe mandá em mim.
Mas... E se os bandido fez m*l pra ela?
Meu zoi encheu d’água sem eu percebê.
A porta abriu e Maike entrou.
— Por que você está chorando?
Eu funguei, abraçano os joelho.
— Pra quê que você qué sabê? Você nem gosta de mim...
Ele suspirou, revirano os zoi, e botou a bandeja com a comida na cama.
— Talvez você esteja enganada sobre mim.
Eu pisquei, sem intendê o que ele quiz dizê. Depois limpei o rosto com as mão e murmurei:
— Eu tô sintino falta da dona Cotinha...
Maike cruzô os braço, coçando o queixo.
— Se quiser, posso ir buscá-la para você.
Ah, eu quase pulei da cama!
— Não, num precisa! Tá tudo certo, deixa pra lá!
Peguei logo a bandeja e comecei a comê rápido, só pra ele pará de falá disso.
Ele me olhô um instante, balançô a cabeça e saiu do quarto sem dizê nada.
Rabugento... Mas, por um segundo, quase achei que ele tivesse um coração.
Horas mais tarde...
Eu num conseguia pará de pensá na dona Cotinha. Será que ela tá bem? Será que aqueles bandido fez m*l pra ela? Ai, meu coração tava apertaaaado!
Eu precisava fazê alguma coisa! Mas como? Maike num deixava eu nem atravessá a sala sem me vigiá, quanto mais saí por aí.
Comecei a pensá num plano.
Se eu saísse de fininho de madrugada? Mas e se ele me pegá igual da outra vez? Se ele tiver o cachorro bravo aparecer?
Humm… E se eu tentasse pulá o muro de novo? Ah, mais aí eu ia me estabacá no chão e quebrá as perna, né? E morrer de choque.
Talvez eu fingisse que piorei da doença e pedisse pra ir num hospital, aí quando chegasse lá… Eu fugia!
Ou melhor! Dava um jeito de chamá a Cacilda pra cá e pedia pra ela me ajudá!
Eu tava aqui matutando tudo isso quando a porta abriu de novo.
Maike.
Mas esse homem parece que adivinha meus pensamento!
— O que foi agora? Ele cruzô os braço, me olhando desconfiado.
Eu disfarcei rapidinho, pegando a coberta e abraçando.
— Nada, só tô aqui quieta.
Ele franziu a testa, me analisano.
— Sei… Você tem cara de quem está aprontando.
Ah, credo, que homem chato!
— Num tô aprontano nada, só tô pensano na vida. Num posso mais nem pensá agora?
Ele revirô os zoi e bufô.
— Só não tente fazer nenhuma besteira.
E saiu.
Besteira? Eu? Magina…
Só precisava de um jeito de escapá, só isso.